OPINIÃO
Um microbalanço dos microdebates
Catarina Martins está a dar tudo por tudo para fugir do
anátema de que o Bloco de Esquerda é “um partido irresponsável” e evitar a
penalização eleitoral que pode acontecer com a transferência de votos do seu
partido para o PS, cenário em que joga Costa.
Ana Sá Lopes
9 de Janeiro de
2022, 7:20
https://www.publico.pt/2022/01/09/politica/opiniao/microbalanco-microdebates-1991237
Um debate com uma
duração de 25 minutos é um microdebate. Mas, mesmo antes do “grande debate” da
saison – vai ser no dia 13, Rui Rio versus António Costa –, já se pode fazer um
microbalanço.
António Costa
está centrado em duas únicas ideias: conseguir a maioria absoluta, humilhando
os parceiros “irresponsáveis” que o levaram ao poder em 2015, e provar que é um
primeiro-ministro muito mais confiável do que Rui Rio. Foi a “falar” para Rio
que debateu com Rui Tavares (o aliado mais provável de todos, mas que, com
sorte, só elege um deputado), foi sem qualquer “rebuço” que tentou destruir um
fragilizado Jerónimo de Sousa, mesmo recorrendo a uma falsidade: a de que não
pode fazer o aumento das pensões com o regime de duodécimos. Na verdade, como
já tinha explicado antes, poder pode, mas acha que não deve. Foi a olhar para
André Ventura como possível aliado de Rui Rio que repetiu o mantra “comigo o
senhor não passa” duas ou três vezes, e afirmou não estar na política para o
“mitigar” – aludindo à explicação de Rio segundo a qual Ventura defende a
prisão perpétua em versão mitigada. Por azar, levou a questão da corrupção para
o debate com Ventura – o facto de o líder do Chega ter faltado à votação do
pacote anticorrupção – e foi confrontado com o facto de José Sócrates ter sido
primeiro-ministro.
Se Costa é o
símbolo da confiança e auto-suficiência (vamos ver até que ponto os portugueses
não confundirão isso com arrogância, principalmente quando o que se pede aos
eleitores é uma maioria absoluta), Rui Rio anda muitas vezes aos papéis. Andou
aos papéis com André Ventura, deixando a agenda do Chega dominar o debate, e
estava muito pouco preparado no confronto com Catarina Martins, nomeadamente
nas questões do SNS e sustentabilidade da Segurança Social. Com Francisco
Rodrigues dos Santos, conseguiu a sua melhor performance nestes debates,
tentando mostrar como o CDS é o aliado preferencial, mas esforçando-se por
voltar ao “centro” que os seus ziguezagues com Ventura arriscam a ver perdido.
Outra das suas qualidades – que poderá ou não vir a ter efeitos eleitorais – é
ter aquilo a que se chama “autenticidade” e ter uma imagem de ser pouco
“calculista”.
Jerónimo de Sousa
não esperava a agressividade do outrora parceiro António Costa no debate de
terça-feira. Viu-se que teve dificuldade em reagir à artilharia que o
primeiro-ministro trouxe para o frente-a-frente – talvez não esperasse que,
depois de em 2015, quando Costa perdeu as eleições, ter dito que “o PS só não
formava governo se não quisesse” e de tantos anos de colaboração amigável, a
coisa acabasse em KO técnico. Mas Costa é implacável e Jerónimo perdeu o poder
de reacção. Quando na entrevista ao PÚBLICO/Renascença desta semana não se quis
comprometer com a continuação no cargo de secretário-geral do PCP até ao
próximo Congresso, deu o primeiro sinal de que talvez esta seja a sua última
campanha como líder dos comunistas. O facto de o PCP se ter recusado a
participar nos debates em canais por cabo – que acabarão por ficar disponíveis
na RTP – é um sinal de evidente fraqueza. A sondagem do PÚBLICO dá o PCP,
apesar de tudo, com 6%.
Catarina Martins
está a dar tudo por tudo para fugir do anátema de que o Bloco de Esquerda é “um
partido irresponsável” por ter chumbado o Orçamento, e evitar a penalização
eleitoral que pode acontecer com a transferência de votos do seu partido para o
PS, cenário em que joga Costa. Nestes debates, tem-se esforçado por manter uma
calma olímpica, evitar a agressividade (que afasta alguns eleitores mais
moderados) e mostrar que é, muito provavelmente, a mais bem preparada dos
líderes políticos que têm aparecido nestes debates.
(Continua na próxima semana)
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