A Pandemia que
interrompeu a orgia permanente de desbunda e barulho desrespeitador, vai trazer
grandes modificações no omnipresente poder da “noite” nas cidades e corrigir
muitos excessos.
OVOODOCORVO
Bares e discotecas 20 meses sem trabalhar: "Vêm aí
despejos e muitas falências"
Representante do setor e empresários apontam quebras
brutais no negócio, insuficiência, atrasos e falhas dos apoios do Estado a uma
atividade esquecida na gestão da pandemia. Com menos de três meses de portas
abertas, há mais de 17 mil empregos diretos em risco.
Bares e
discotecas 20 meses sem trabalhar: "Vêm aí despejos e muitas
falências"
Joana Petiz
08 Janeiro 2022 —
09:45
As perdas
ultrapassam os 80%, mesmo descontando os apoios que vão chegando. Em dois anos
de pandemia, bares e discotecas foram os primeiros a fechar (então,
voluntariamente, achando que seria por 15 dias) e os últimos a reabrir: só lhes
foi permitido regressar à atividade a 1 de outubro, e então ainda com
restrições. Têm sido, com os empresários da área de eventos - desta vez, parece
que para aceder a espetáculos culturais com lugar marcado basta apresentar
certificado digital -, os enjeitados da gestão da crise pandémica, obrigados a
manter portas fechadas durante 20 meses, acumulando prejuízos, dívidas e
incumprimento de obrigações porque impedidos de trabalhar. Nem três meses
passados sobre algum regresso à vida, o governo voltou a pôr-lhes trancas às
portas. E nesta semana adiou o regresso mais uma semana, condicionado as
entradas à apresentação de teste negativo e com interdição de beber fora de
portas.
"Volta-se a
fechar o que é mais testado e seguro", lamenta Ricardo Tavares,
representante do grupo Fiéis, que já teve de fechar duas de cinco casas no
Bairro Alto. "As quebras no setor estão acima de 80% e os apoios continuam
a chegar tarde - o novo layoff ainda nem está disponível na plataforma",
diz o também presidente da Associação de Bares, Discotecas e Animadores, que
garante que muitos empresários não resistiram a dois anos de encerramento e a
situação vai piorar. "As moratórias acabaram e agora as contas têm de
voltar a ser pagas, acrescidas da prestação em atraso, e sem faturar nada. Uma
renda de 3 mil passa a representar 4 ou 5 mil... É impossível aguentar. É uma
questão de tempo. Lá para março/abril vão começar em força os despejos. E vêm
aí muito mais falências."
A situação é
piorada por medidas tomadas por quem, garante Ricardo Tavares, "só pode
desconhecer como funciona este negócio". E exemplifica com a proibição de
beber na rua num momento em que (desde janeiro de 2021) não se pode fumar
dentro dos estabelecimentos. Por outro lado, "as maiores casas investiram
em centros de testagem à porta, a um custo médio de 800 a mil euros por noite e
por casa. Mesmo numa zona histórica, um bar não fatura nem metade".
Sem almofada
própria, "não se sobrevive"
Que o diga Victor
Cordeiro, dono de um bar no Cais do Sodré e de um restaurante-bar na Graça -
tinha um terceiro que encerrou definitivamente quando a covid entrou em força.
Com alguma almofada disponível para responder às perdas e sem dívidas ou
créditos pelos quais responder, foi conseguindo mantendo as contas em dia e
reduziu os custos fixos ao mínimo, à espera do momento em que a normalidade
regresse. Mas não lhe custou pouco. "Por alto, já enterrei mais de 100 mil
euros", assegura o empresário, apontando a instabilidade e falta de
coerência das decisões como principais dificuldades. "Não se consegue dar
continuidade aos projetos, fidelizar clientes. E a falta de turistas também nos
afeta muito." Mesmo nos Loucos de Lisboa, que apesar de tudo e com muito
menos clientes pôde ir mantendo a funcionar como restaurante.
A esperança que
trouxe a reabertura dos bares, em outubro, levou-o a fazer novo investimento
para renovar a oferta e a contratar mais dois funcionários para o Bacchanal, no
Cais do Sodré. Agora voltaram todos ao layoff - que Victor espera levantar a
50% no dia 14. Mas mesmo os apoios recebidos ou que espera que cheguem pouco
ajudam. "Faturámos muito bem nos meses de outubro, novembro e até ao fecho
em dezembro, que deitou por terra os planos para uma das melhores épocas, o fim
de ano. E isso deu-nos um bocadinho de margem para aguentar mais este embate,
porque os apoios vêm sempre tarde... A última tranche chegou com uns três ou
quatro meses de atraso e o que recebi nestes dois anos não chega a representar
um terço das perdas. Só é possível sobreviver tendo fundo de maneio e
felizmente tenho negócios noutras áreas que me permitem fazer o que a maioria
dos empresários de bares e discotecas não podem. Mas tanto tempo sem faturação
deixou-me descapitalizado", admite. Minimizar custos e ir pagando os
gastos é a solução para ir segurando as casas que acredita que só na primavera
devem ter novo fôlego. "Se eu vivesse só disto, não tinha a mínima
hipótese", conclui.
Ricardo Tavares
confirma: "As promessas do governo só chegaram a alguns e os empresários
foram-se endividando durante o primeiro ano de pandemia, deixando contas por
pagar porque não tinham como responder às suas obrigações, nomeadamente
fiscais, e quando os apoios finalmente chegaram a nós vinham condicionados a
quem tinha os impostos pagos." Lembra que foi preciso uma greve de fome -
promovida pelo movimento Sobreviver a Pão e Água, de que foi porta-voz - que o
levou a ele e a outros oito representantes da restauração, bares e discotecas a
acampar sete dias à porta da Assembleia para chamar a atenção dos governantes
para um setor até então esquecido. Mas um ano depois, os problemas persistem:
apesar dos "esforços do secretário de Estado da Economia, que tem feito o
possível, tem-nos ouvido", os apoios são poucos, chegam tarde e com tetos.
"As maiores empresas só recebem até determinada fasquia e não na proporção
dos gastos. E ainda há que pagar IRC sobre o que se recebe para pagar as
dívidas", sublinha.
Ao fim de 20
meses sem poder trabalhar, ou a ter de investir para ajustar o negócio à imagem
de café ou pastelaria, a reabertura durou quase nada. "É uma
palhaçada", desabafa Ricardo, que acusa o governo de ver o mundo através
da televisão. "Quando diziam que estava tudo fechado em Inglaterra, não
era assim. As atividades só fechavam por curtos períodos, na maioria do tempo
podiam funcionar. Aqui, não. E agora, um mês depois de reabrirmos sem
restrições, voltam a impedir-nos de trabalhar."
Digital tem de
crescer como solução
"Se as
pandemias, segundo apontam os especialistas, se vão tornar mais comuns, o setor
dos espetáculos será o primeiro a ser novamente afetado." A reflexão é
feita por André Henriques, promotor e empresário na área dos eventos de
entretenimento que há um par de semanas se viu forçado pelo crescimento de
casos (e antecipando a decisão da DGS) a cancelar todos os preparativos - e a
perder todo o investimento feito - para a festa de fim de ano marcada para o
Coliseu de Lisboa, Resolution Revolution 2022. O valor das entradas já
compradas foi devolvido com um simples acesso ao bilhete eletrónico. Ficou
maior o buraco do lado da organização. "Neste momento já acumulamos
quebras na ordem dos 75%, face a 2019, nos eventos", resume André
Henriques. Mas prefere olhar para a frente.
Para o empresário
(e também radialista), trabalhar numa área em que se promove a proximidade e o
contacto físico por excelência implica ser "pragmático sobre o que vamos
ser daqui a cinco anos", neste novo contexto de risco permanente.
"Novas oportunidades de negócio e crescimento do digital" são
caminhos que o animador tem prosseguido em alternativa às portas que se vão
fechando - incluindo festas virtuais, com DJ sets de luxo. Mas esse tipo de
soluções ainda encontra "em muitas empresas grande resistência; é uma
espécie de solução de recurso, quando tem de crescer e dar passos seguros nos
próximos anos de forma a criar experiências. Temos de criar ofertas que vão ao
encontro de novos hábitos de consumo, perceber e aceitar que a web 3.0 e o
digital são determinantes para o futuro do setor."
17,5 mil postos
de trabalho
Segundo números
do INE (retrato em 2018) publicados pela AHRESP no verão de 2020, havia 8100
empresas registadas na área da animação noturna, responsáveis diretamente por
17 553 postos de trabalho. Representavam então um volume de negócios de perto
de 600 milhões de euros. O Sistema de Informação da Classificação Portuguesa de
Atividades Económicas (SICAE) tem neste momento registo de pouco cerca de 6,2
mil empresas nas áreas de bares e estabelecimentos de bebidas sem espetáculo e
com espaço de dança.
101 mil euros de
apoio máximo
Os apoios
previstos para bares e discotecas obrigados a fechar são calculados pela quebra
de faturação entre o quarto trimestre de 2019 e o mesmo período de 2020. Quem
registe perdas entre 25% e 50% pode receber até 27 500 euros (microempresas) ou
até 67 500 euros (pequenas e médias). As que tiverem quebras de faturação
maiores recebem um apoio adicional de 41250 euros (microempresas) a 101 250
(pequenas e médias). Os apoios duram seis meses, ficando as empresas apoiadas
proibidas de despedir trabalhadores ou encerrar atividade até dois meses depois
de esgotar o apoio.
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