quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Sócrates transformou-se em anedota – e isso é mau



OPINIÃO
Sócrates transformou-se em anedota – e isso é mau

Há dezenas de pessoas em posições de destaque que estão mortinhas por que Sócrates seja reduzido a uma gargalhada, de preferência bem alta, de forma a abafar a miséria das suas vergonhosas cumplicidades.

João Miguel Tavares
7 de Novembro de 2019, 5:55

Conhecem aquela do Sócrates que entra numa churrascaria? Encomenda dois frangos, mas depois vê quatro codornizes e pede para as levar em vez dos frangos. Quando já está de saída, o empregado informa José Sócrates de que se esqueceu de pagar as codornizes. Sócrates responde: “Eu não comprei as codornizes. Troquei-as pelos frangos.” Diz o empregado: “Certo, mas também não pagou os frangos.” Responde José Sócrates, indignadíssimo: “É verdade, mas também não os estou a levar, pois não?”

Na semana passada recebi esta anedota por vários meios: redes sociais, correio electrónico, SMS. Percebe-se que José Sócrates perdeu a guerra contra aquilo a que chamou uma “acusação monstruosa e injusta” no momento em que o seu carácter passou a ser retratado através de anedotas mais ou menos criativas, a saltar de caixa de mail em caixa de mail. Os relatos do seu mais recente interrogatório, onde procurou explicar os monstruosos gastos ao longo de toda a vida, e a forma como os conseguiu financiar, têm muito potencial para dar origem a mais quatro ou cinco chistes.

Só nos últimos dias, descobrimos a história de um cofre misterioso (que Sócrates diz ter agora em sua casa), no qual a mãe aparentemente guardava uma herança de cinco milhões de euros (de que não há prova nem rasto), entregando envelopes com dez mil euros de cada vez que o filho ia de férias. É pena o juiz não lhe ter perguntado acerca da dimensão do cofre, porque um milhão de notas de mil escudos, ou até 200 mil notas de cinco contos, não cabem num cofre – precisam pelo menos de uma arrecadação. Descobrimos também justificações extraordinárias para o modo de vida de um homem que assume não ter dinheiro para pagar as suas despesas, mas que classifica uma ida à Suíça para fazer ski durante a época de Natal como “gastos normais da classe média”. Descobrimos ainda que quando estava em Paris – num tempo em que, segundo o próprio, 12.500 euros mensais não lhe permitiam fazer face aos seus gastos (Sócrates disse ao juiz Ivo Rosa que despendia, em média, 22 mil euros por mês; a acusação diz que eram 30 mil) – decidiu um dia comprar uma secretária (refiro-me ao móvel) por sete mil euros, porque ela “estava a namorá-lo”.

Tudo isto é tão absurdo, e nalguns casos tão contraditório com as várias explicações que foi dando ao longo dos anos, que não admira que José Sócrates faça hoje parte do anedotário nacional. O que podemos nós fazer perante tanta justificação grosseira e tão grande lata se não gozar com a sua cara, enquanto ele continua a gozar com a nossa? Percebo e comungo desse sentimento. Contudo, transformar Sócrates em anedota, por mais que nos apeteça, tem vários perigos. Em particular, este: empurrar para o domínio da comédia aquilo que é da ordem da tragédia – uma tragédia que só foi possível porque muita gente ajudou Sócrates a montá-la.

José Sócrates não é, nem nunca foi, um one man show. Há dezenas de pessoas em posições de destaque que continuam mudas e recatadas, apesar de terem sustentado Sócrates durante anos a fio. Talvez não soubessem do cofre onde cresciam envelopes, fotocópias e livros do Duda – mas tinham a obrigação de ver o dinheiro vivo, o luxo, as mentiras e a manipulação. Essas pessoas estão mortinhas por que Sócrates seja reduzido a uma gargalhada, de preferência bem alta, de forma a abafar a miséria das suas vergonhosas cumplicidades. Se permitirmos que isso aconteça, a anedota não é José Sócrates – a anedota somos nós.

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