domingo, 10 de novembro de 2019

TRANSPORTES CHEIOS, ATRASADOS E VELHOS. PASSE NOVO VEIO MOSTRAR QUE É PRECISO MUDAR TUDO



TRANSPORTES CHEIOS, ATRASADOS E VELHOS. PASSE NOVO VEIO MOSTRAR QUE É PRECISO MUDAR TUDO
09/11/2019

No Campo Grande, ao fim da tarde, as filas encaracolam para os autocarros que seguem para Mafra, Ericeira ou Venda do Pinheiro. Em Sete Rios, os passageiros da linha de Sintra já esgotaram a compreensão para os incómodos causados e os que seguem para a Margem Sul queixam-se da sensação sardinha em lata, às horas de ponta. Em seis meses, o passe Navegante trouxe mais 150 mil utentes aos transportes públicos da Área Metropolitana de Lisboa. E isso foi bom. Mas também foi mau.

Texto de Catarina Pires | Fotografias de Filipa Bernardo/Global Imagens

Às seis e meia da tarde, no terminal de autocarros do Campo Grande, não se percebe muito bem onde começa uma fila e acaba outra. O retângulo com as paragens de onde saem os autocarros para a Ericeira, Mafra ou a Venda do Pinheiro está cheio e tem sido assim todos os dias desde o início de setembro.

Há rostos fechados, que não querem conversa, mas o de Sandra Resende, que espera, com o filho, Francisco, e a mãe, Maria Cardoso, a carreira que segue para a Venda do Pinheiro, tem um sorriso que acolhe.
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Há cerca de um ano, adotou o transporte público e há seis meses rejubilou com o Navegante Metropolitano. “Sou a verdadeira beneficiária do novo passe. Poupo mais de cem euros por mês. O meu filho não paga, porque tem 12 anos, e a minha mãe paga menos porque tem mais de 65. É uma maravilha.” Nota uma muito maior afluência, quer na Venda do Pinheiro quer aqui, mas elogia o esforço da Mafrense em tentar dar resposta ao caos instalado.

“Há muita gente que vem das terras limítrofes e deixa o carro na Venda do Pinheiro, para apanhar a camioneta. Nem sempre há lugar para todos. Mas está lá o senhor Ramiro, que quando vê que fica gente apeada solicita desdobramentos. Só que nem sempre é possível. No início do mês foi o caos. Até houve quem desistisse e saísse da fila para vir de carro e desse boleia a outros na mesma situação. Agora o caos está mais controlado“, conta Sandra, que trabalha no Hospital de São José e tem o filho a estudar em Lisboa. Antes do Navegante, este cenário não era sequer imaginável. O passe custava mais de cem euros e muitos preferiam o carro para as suas deslocações para o trabalho.


Lília Gomes aderiu este mês ao passe Navegante. Desde os tempos da escola que não andava de transportes públicos.
Era o caso de Lília Gomes, estreante neste mês nos transportes públicos, que não utilizava desde os tempos da escola. Vive na Ericeira, trabalha em Lisboa e foi quando começou a fazer contas à vida que decidiu experimentar o autocarro. “A poupança de cerca de 200 euros mensais está a saber-me bem.”

Poder descansar ou ler durante o trajeto, impossível quando se está a guiar, também. E por enquanto compensam os tempos de espera e a confusão, sobretudo no regresso a casa. “À saída da Ericeira, apanho o autocarro na última paragem antes da autoestrada e vou sempre uns 15 minutos antes para ter lugar. Mas à ida para lá é mais caótico. Por exemplo, este autocarro parte daqui a dez minutos e não sei se consigo entrar, nem sei se virá um segundo para fazer o mesmo horário.”


No terminal do Campo Grande acumulam-se as filas para os autocarros da Mafrense com destino à Ericeira, Mafra e Venda do Pinheiro, entre outras paragens.
Nuno do Carmo, diretor da Mafrense [Grupo Barraqueiro], confirma que a adesão foi avassaladora. “Na linha da Ericeira, o aumento de passageiros foi na ordem dos 100%, nas de Mafra, Venda do Pinheiro e Malveira foi entre 50% e 60%.” Não tem sido fácil dar resposta, porque a oferta não estava dimensionada para esta procura, mas “com o esforço de todos os motoristas, que têm trabalhado mais para fazer os desdobramentos, e a deslocação de autocarros da área comercial para o serviço público, temos conseguido responder”, diz.

“Mas são soluções de recurso. A verdadeira solução passará por mais horários adaptados às necessidades das pessoas. Estamos a trabalhar com a Câmara Municipal de Mafra e a Área Metropolitana de Lisboa (AML) para isso. O problema é que isso implica mais autocarros e mais motoristas. Os autocarros compram-se e é uma questão de tempo, mas motoristas é muito difícil encontrar, porque o acesso à profissão é complicado.”

São várias as empresas de transportes que se queixam da dificuldade em contratar motoristas. As exigências – nomeadamente, a de só a partir dos 24 anos poder tirar-se a carta – e as especificidades da formação afastam os candidatos, mas o trabalho pesado e mal remunerado também não ajudará a atrair gente para a profissão.

Metro em Loures, já!
O metro em Loures poderia contribuir para escoar o fluxo cada vez maior de gente que escolheu o oeste para viver e trabalha em Lisboa.

Bernardino Soares tinha acabado de inaugurar, com Fernando Medina, a extensão do 708 da Carris para Sacavém quando falou com o DN. O metro para Loures é uma reivindicação antiga do presidente da autarquia eleito pelo PCP, que afirma que é este o momento de tomar decisões e estabelecer como prioridade a criação de infraestruturas que façam chegar o transporte pesado [metro e/ou comboio] a Loures.

“O passe intermodal foi uma medida essencial, na qual nos empenhámos muito. Além da poupança significativa para as famílias, permitiu acabar com situações em que as pessoas, por exemplo, tinham de ter vários passes. Estamos a trabalhar para melhorar a rede rodoviária e esperamos um aumento da oferta de carreiras e horários no próximo ano, mas para uma melhoria completa da mobilidade é necessário trazer o metro para Loures.”

“É hoje claro para todos que o metro em Loures é essencial para dar coerência à rede de transportes da AML. Aliviará Lisboa dos carros, aliviará a pressão sobre o metro de Odivelas e facilitará a mobilidade de quem vem do oeste”, diz Bernardino Soares.

A apoiá-lo nesta reivindicação tem os presidentes das câmaras municipais de Mafra e de Odivelas. “É hoje claro para todos que este investimento é essencial para dar coerência à rede de transportes de Área Metropolitana de Lisboa. Terá impacto não só em Loures como nos concelhos à volta, nomeadamente os do oeste. Aliviará Lisboa dos carros, aliviará a pressão sobre o metro de Odivelas e facilitará a mobilidade de quem vem do oeste.”

Bernardino Soares lembra que esta é uma decisão que cabe ao governo e não à AML e lembra também que o metro para Loures foi anunciado em 2009, por um governo PS. “O que pedimos é que se cumpra o que foi dado como certo há dez anos. Serão precisas verbas do próximo Quadro Comunitário de Apoio e este investimento no ferro-carril em Loures deve ser considerado prioritário, no âmbito da luta contra as alterações climáticas e de uma verdadeira mobilidade para as populações destes concelhos”, diz.

Sardinha em lata
No debate sobre o programa do governo, António Costa anunciou o investimento no setor dos transportes. Dez novos barcos para a Transtejo, 22 novos comboios para a CP, 14 novas composições para o Metro de Lisboa e 700 novos autocarros para o país. A AML está em fase de conclusão do concurso internacional para concessão de transporte rodoviária que envolve verbas de mais de mil milhões de euros e prevê oferecer mais transporte rodoviário nos dias úteis, em horas de ponta e fora das horas de ponta, ao fim de semana, à noite, significando um acréscimo de oferta superior a 40% (leia também a entrevista a Carlos Humberto, primeiro secretário da AML).


Idalina Batista trabalha em Lisboa e vive no Cacém. Sai às sete da manhã e regressa às seis da tarde. O fim do dia é sempre mais complicado.
Espera-se uma revolução, mas enquanto ela não chega, na estação de Sete Rios, há uma voz que se repete – “pedimos a vossa compreensão pelos incómodos causados” – de cada vez que se anuncia um atraso ou um comboio que foi suprimido.

Idalina Batista mora no Cacém e trabalha em Lisboa, no Centro Comercial Colombo. Todos os dias apanha o comboio das 07.03 ou 07.19 para Sete Rios e o das 18.30 para o Cacém. “Para cá, há dias em que vem muito cheio, mas não é dramático. Para lá é que é pior, há muitos atrasos. Às vezes é difícil entrar, de tanta gente. Mas eu forço, entro mesmo assim, tenho o meu filho em casa à espera.” E lá vai ela, sem tempo para mais.

Um senhor de Vale Abraão, que não teve tempo de dizer o nome, não tem passe, só nesta semana é que teve de recorrer ao comboio para vir para Lisboa e queixa-se da sobrelotação e dos atrasos constantes. “Não entro quando o comboio está lotado, prefiro esperar pelo próximo, mas isto é um pesadelo, tão mau como o IC19”, diz.

“A situação nas horas de ponta é insuportável. As condições são insalubres. Os atrasos são constantes. Criam-se situações de conflitualidade entre passageiros. Há uma degradação cada vez maior no serviço. E a CP nem justifica nem toma medidas”, diz Vasco Ramos, da Comissão de Utentes da Linha de Sintra.

Vasco Ramos, da Comissão de Utentes da Linha de Sintra, confirma e não é ao passe Navegante que aponta responsabilidades. “O passe foi uma medida excelente, mas o acréscimo significativo de passageiros que trouxe tornou mais evidentes os problemas que já existiam. Só em outubro foram suprimidos cerca de cem comboios da Linha de Sintra. A situação nas horas de ponta é insuportável. As condições são insalubres. Os atrasos são constantes. Criam-se situações de conflitualidade entre passageiros. Há uma degradação cada vez maior no serviço. E a CP nem justifica nem toma medidas. É o silêncio.” Sim, é o silêncio. Nenhuma das questões enviadas para a empresa mereceu resposta.


A Fertagus foi uma das operadoras com maior aumento de utilizadores desde a criação do novo passe. Apesar de ter aumentado a lotação e criado novos horários, as horas de ponta continuam a encher.
Do outro lado da linha, a situação não é tão grave, apesar de a Fertagus – responsável pela ligação ferroviária entre Setúbal e Lisboa – ser dos operadores que mais sentiram o efeito Navegante. A procura subiu exponencialmente, pela rapidez, pelo conforto, pela fiabilidade e pela considerável descida dos preços. No entanto, às horas de ponta, sobretudo nas estações mais próximas da Ponte 25 de Abril, quer de um lado quer de outro, os comboios enchem e há quem prefira não entrar e esperar pelo próximo.

Sandra Bacalhau faz todos os dias (úteis) o percurso entre p Pragal e Sete Rios. Em dez minutos está em Lisboa. Um luxo de que desfruta há 15 anos. Moradora em Porto Brandão, deixa o carro no Monte de Caparica, onde apanha o Metro Sul do Tejo para o Pragal. Até há seis meses, o passe da Fertagus mais o do MTS somavam 53 euros e meio. Poupa 13 euros e meio, mas passou a vir em modo, “no meu caso, bacalhau em lata”.




Sandra Bacalhau é utente da Fertagus há 15 anos e nos últimos seis meses passou a viajar em modo sardinha em lata.
“Há muito mais gente, isso é óbvio, de manhã venho às 08.29 ou 08.39 e à tarde vou no das 18.09. Quer para lá quer para cá, os comboios vão sempre cheios. E a ideia de tirar bancos não adiantou de muito. Por exemplo, este das seis ainda é de quatro carruagens. Já devia ser de oito.” A Fertagus tem, desde 16 de setembro, mais comboios duplos (oito carruagens) e mais horários. Continua cheia à hora de ponta.

Mobilidade a sério é…
Para António Freitas, da Comissão de Utentes dos Transportes do Seixal, a solução tem de ser integrada. Se o comboio está saturado e não pode aumentar horários ou carruagens, há que apostar nos barcos ou nos autocarros, assim como há que incluir os estacionamentos no passe intermodal e encará-los também como operador, porque são dissuasores de levar o carro para Lisboa.

“O passe Navegante [Metropolitano, Municipal, +65 e 12 anos e, mais recentemente, Família] foi uma medida de desenvolvimento da mobilidade muito positiva porque, além de tudo o resto, mostrou que, com os incentivos certos, as pessoas estão dispostas a mudar comportamentos e hábitos de vida”, diz.

Notando o facto de que os utentes deixaram de estar presos a um operador, transporte ou trajeto, António Freitas defende que se trata agora de criar verdadeiras alternativas de mobilidade, que sirvam as necessidades dos utentes e não dependam dos interesses dos operadores.

“Há que repensar os horários noturnos e de fim de semana – ínfimos entre o Seixal e Lisboa, por exemplo -, as ligações, os percursos, os intervalos de espera e o tipo de oferta. Se a ferrovia está esgotada, invista-se nos barcos”

Os barcos da Transtejo estão a precisar de ser renovados. Equipamentos degradados, avarias frequentes, supressão de carreiras, insuficiência de horários, que nas horas de ponta, quer ao fim de semana e à noite são algumas das queixas dos utentes do Seixal, Montijo e Cacilhas.
“Não falo apenas nas ligações para Lisboa, mas mesmo dentro dos concelhos. No Seixal, por exemplo, há dificuldade de chegar de Corroios à sede do município e a serviços essenciais como o centro de saúde. É preciso pensar tudo isto de uma forma integrada e tendo em conta as necessidades das populações. Há que repensar os horários noturnos e de fim de semana – que são ínfimos entre o Seixal ou o Montijo e Lisboa, chega a ser desconcertante -, as ligações, os percursos, os intervalos de espera e o tipo de oferta. Se a ferrovia está esgotada, invista-se nos barcos, que são uma ligação privilegiada entre margens”, diz António Freitas, advogando que esta medida devia ser alargada a todo o país.

“A rede de transportes que temos não está adequada à mobilidade que queremos, ao nível dos países europeus mais desenvolvidos, e para a qual o passe intermodal abriu as portas.”

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