quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

O que resta à direita?

 



OPINIÃO

O que resta à direita?

 

A crise do PSD não é conjuntural, não é um desaire de Rui Rio. É estrutural. Muito mais difícil de resolver. O PSD especializou-se em governar contra as pessoas, esperando que estas acreditem que curativos dolorosos lhes fazem bem.

 

Maria João Marques

2 de Fevereiro de 2022, 1:00

https://www.publico.pt/2022/02/02/opiniao/opiniao/resta-direita-1993922

 

Há quinze anos Nick Cohen escreveu o livro What’s Left?, onde argumentava que a esquerda liberal havia traído



os seus velhos valores e, em nome do ódio aos Estados Unidos, branqueava e apoiava os regimes e os grupos mais ou menos violentos promotores do terrorismo islâmico. Não interessa aqui discutir a tese de Cohen. Interessa que Nick Cohen não sabia o que restava da esquerda e, no contexto em que escrevia – o britânico –, a crise à esquerda concretizou-se. O clímax foi a recusa do extremista (a raiar o antissemita) Corbyn, preferindo os britânicos até o “Brexit” trapalhão e custoso de Boris Johnson.

 

Depois das legislativas de domingo, com mais uma derrota do PSD (uma sucessão que vem desde 2013, interrompida somente com a vitória em Lisboa e várias capitais de distrito das autárquicas de 2021), ocorre-me também perguntar: o que resta da direita? Concretizando: o que resta do PSD? Porque, vejamos, a crise não é de agora. E Rui Rio, na verdade, foi só um de entre muitos responsáveis pelo resultado de domingo. Desde há vinte anos que o PSD só ganha eleições para consertar as contas públicas que o PS, nos seus ciclos governativos de seis anos (tradição agora quebrada), espatifava. E, feito o conserto, numa só legislatura, logo os eleitores tratavam de remeter para a oposição o PSD e convidar o PS a governar de novo. Tendo, com Costa, Centeno e Leão, os governos socialistas contas públicas impecáveis, com superavits lá no meio e tudo, o PSD parece ter perdido a sua razão de existência.

 

Porque, em boa verdade, o que representa o PSD? Não sei bem dizer, e não me tenho como eleitora distraída e desinformada. Impostos baixos? Bom, recordo-me do aumento “temporário” do IVA de Manuela Ferreira Leite e Durão Barroso que iniciou a escalada fiscal que durou uma década. (Não foi temporário.) Tento esquecer-me do “enorme aumento de impostos” de Vítor Gaspar e Passos Coelho, uma política que foi mais que a necessidade de pagar os desvarios de Sócrates que nos trouxeram a troika: era uma senda ideológica própria de puritanos americanos de punir o vício do consumo e de penalizar as PME que viviam da procura interna (porque só exportar era atividade económica digna; os portugueses são pobres, deviam ser austeros e não gastar dinheiro se não em bens de primeira necessidade).

 

A crise do PSD não é conjuntural, não é um desaire de Rui Rio. É estrutural. Muito mais difícil de resolver.


Justiça social? Bem, Passos Coelho teve uma política cruel com consequências terríveis para os mais pobres e Rio veio clamar contra os subsidiodependentes nesta campanha. Os deputados (e ex-deputados) do PSD da ala passista passam a vida no Twitter a bajular a IL, que claramente veneram, de um modo que dá vergonha alheia. A IL, esse partido que propõe políticas económicas do tempo de Reagan nos Estados Unidos, e cujas consequências historicamente se vê terem sido a estagnação dos salários reais dos trabalhadores blue collar desde então. O topo da pirâmide enriqueceu muito, é certo, porém não é a isso que chamo justiça social. Quiçá os deputados passistas do PSD tenham um dicionário diferente do meu.

 

Criação de riqueza? O PSD governou durante crises económicas e pareceu sempre inquietantemente pacífico com esse estado de coisas. Passos Coelho propunha transferir diretamente rendimentos dos trabalhadores para os patrões, aumentando a TSU aos primeiros e diminuindo aos segundos. Rui Rio pretendia baixar primeiro o IRC e só depois o IRS. Ambos os líderes parecem adeptos de uma espécie de luta de classes mas ao contrário.

 

Contra a extrema-direita? Passos Coelho foi o criador de André Ventura, que protegeu e por quem é abundantemente elogiado. Os passistas da comunicação social (ou os que já não estão na política ativa) notabilizaram-se por não só não repudiar acordos do PSD com o Chega como até os defender. Rui Rio claramente tentou (com a falta de sucesso que se previa) seduzir eleitores do Chega com as suas incursões no debate da prisão perpétua ou da justiça eficaz antes do 25 de abril.

 

 E fora dos temas económicos, o PSD diz alguma coisa? Praticamente nada, é um vazio. Temas de cidadania – políticas de inclusão, promoção dos direitos e oportunidades das mulheres, representatividade... – são pouco menos que ignorados. O PSD notabilizou-se por não participar nos debates sociais atuais (e, nas escassas ocasiões em que participa, exibe um conservadorismo problemático). Merecem umas linhas nos programas, no máximo, só para constarem, sem concretização. Por vezes pessoas do PSD fazem-me a queixa de a esquerda gostar de ser a dona deste tipo de causas (concretamente o feminismo). É verdade, no entanto não vejo qualquer militância visível e audível à direita sobre estes assuntos (apesar de existirem inúmeras feministas no PSD, por exemplo).

 

O setor da Cultura é tradicionalmente desprezado pelo partido. Uma medida gratuita e infantil para demonstrarem a pouca relevância que dão aos bens culturais é nem oferecerem à Cultura honras de ministério; merece somente uma mera Secretaria de Estado. De resto, a hostilidade para com os agentes culturais só encontra paralelo no partido na hostilidade para com a comunicação social.

 

O PSD é um partido tecnocrático, sem alma, sem rasgo, uma folha de cálculo, um balanço de deve e haver, que desconhece e considera irrelevante aquilo que dá alegria de viver às pessoas. Um momento emblemático foi o balanço da noite da derrota de Rio, quando informou deixar o partido sem dívidas de campanha. Além da falta de interesse de tal informação para os eleitores, que sintoma do espírito pequeno!

 

A crise do PSD não é conjuntural, não é um desaire de Rui Rio. É estrutural. Muito mais difícil de resolver. O PSD especializou-se em governar contra as pessoas, esperando que estas acreditem que curativos dolorosos lhes fazem bem. O resultado foi o de domingo. Uma maioria absoluta do PS. Ainda mais significativo: inúmeros abstencionistas saíram do confortável sofá para votar no PS. Tendo em conta que não existiu sequer festa de vitória (e de maioria absoluta) pelas ruas, não terá sido por um entusiasmo socialista gigante. Serão necessários estudos pós-eleitorais, mas provavelmente tanto abstencionistas como votantes do PCP e BE votaram no PS sobretudo para impedirem novo governo de direita liderado pelo PSD. Que brutal rejeição. De fazer soar todas as campainhas.

 

No PSD precisam de rasgar com o passado dos últimos vinte anos do partido, na prática e nas ideias. O mais triste é que dos prováveis futuros líderes só se vislumbra continuidade.

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