MAPA DA MUDANÇA
Catarina e Jerónimo afastam cenário de demissão. Maioria
absoluta preocupa a esquerda
Partidos mais pequenos receiam que o PS não cumpra as
promessas de diálogo e convergência feitas na noite eleitoral. Presidente da
República ouve os partidos sobre os resultados das eleições e a indigitação do
primeiro-ministro.
Leonete Botelho
1 de Fevereiro de
2022, 16:30
Catarina Martins
e Jerónimo de Sousa não se demitem apesar dos resultados eleitorais que
reduziram drasticamente as representações parlamentares do Bloco de Esquerda e
do PCP. Apesar dos “caçadores de cabeças” que têm pedido a demissão da líder
bloquista, em particular, os dois líderes dos partidos que integraram a
“geringonça” afastaram esta terça-feira o cenário da sua sucessão prematura.
“Eu cá estarei
para cumprir o meu mandato até ao fim”, afirmou Catarina Martins. “A questão
não está colocada”, rematou Jerónimo de Sousa. Ambos falavam no final das
audiências com o Presidente da República, que está a ouvir, esta terça e
quarta-feira, os partidos com assento parlamentar com vista à indigitação do
primeiro-ministro após as eleições legislativas de domingo.
Catarina Martins
criticou quem pede a sua demissão fora do partido, como Boaventura de Sousa
Santos. Mas não foi ao sociólogo que a líder bloquista se referiu quando
respondeu aos jornalistas, antes a José Miguel Júdice: “Eu tenho ouvido alguns
caçadores de cabeças, como um ex-dirigente da direita e advogado de negócios
que tem feito dinheiro com as privatizações a dizer que se ia ver livre das
meninas do Bloco de Esquerda”.
“Lamento
desiludir, mas o BE não decide a sua direcção em função dos resultados
eleitorais. Quem decide são os seus militantes, e eu cá estarei para cumprir o
meu mandato por inteiro”, afirmou, antes de mudar de assunto.
Perante a
insistência dos jornalistas, acrescentou ainda sentir-se “muito confortável” no
cargo e remeteu mais declarações para a reunião de sábado da direcção nacional
do partido, em que os resultados eleitorais serão analisados. Catarina Martins
foi reeleita para o cargo em Maio do ano passado por um período de dois anos.
Apesar de se
dizer “a última institucionalista”, Catarina Martins insistiu que aquele não
tinha sido tema da reunião com o Presidente da República e preferiu falar da
maioria absoluta do PS, que considera preocupante. “As maiorias absolutas não
deixaram boas memórias no país até hoje, porque são muito permeáveis ao poder
económico, como sabemos”, afirmou a coordenadora do BE, acrescentando: “Há um
trabalho que eu diria reforçado e exigente de oposição para proteger o país da
predação das elites económicas”.
Lamento desiludir, mas o BE não decide a sua direcção em
função dos resultados eleitorais. Quem decide são os seus militantes, e eu cá
estarei para cumprir o meu mandato por inteiro
Catarina Martins
Apesar disso, o
BE promete “continuar a lutar pelo país, pelo salário, pelo Serviço Nacional de
Saúde e contra a emergência climática – e, claro, não daremos tréguas ao
discurso de ódio”.
As preocupações
com a maioria absoluta obtida do PS são transversais aos partidos da esquerda e
ao PAN, todos eles de representação parlamentar bem mais reduzida que na
legislatura que agora finda. BE, PCP e PAN, que somavam 34 deputados (sem
contar com as duas deputadas não inscritas, eleitas em 2019 pelo PAN e pelo
Livre), perderam no total 22 assentos, ficando reduzidos a 12 cadeiras no
hemiciclo.
Talvez por isso,
Jerónimo de Sousa endureceu o tom em relação a António Costa: “O PS provocou as
eleições, não para resolver qualquer problema do país, mas para alcançar a
maioria absoluta e assim ver-se livre da nossa proposta e dos processos que
corriam na Assembleia da República”.
A maioria absoluta pode fechar as possibilidades reais de
convergência
Jerónimo de Sousa
“A maioria
absoluta pode fechar as possibilidades reais de convergência”, avisou o líder
comunista em declarações aos jornalistas, acrescentando que, “se se confirmar o
objectivo do PS de fugir à intervenção e iniciativa do PCP, essa via de
convergência acaba por ficar ainda mais estreita”. Reconhecendo que a situação
do partido, que perdeu seis deputados, é agora “mais difícil, mais exigente”, o
líder comunista sustentou que, “mesmo com a consciência das dificuldades, cá
estamos para lutar” por matérias concretas como “os direitos dos trabalhadores,
as reformas e pensões, as creches para as crianças”.
Convergências à
esquerda
A par das
preocupações com a maioria absoluta, está a expectativa face ao diálogo
prometido por António Costa na noite eleitoral. O Livre foi o primeiro partido
a ser recebido em Belém e, à saída, questionado pelos jornalistas sobre o
futuro da “ecogeringonça”, Rui Tavares disse que “a bola” está do lado do PS.
Com a maioria
absoluta do PS, o Livre relativiza a ideia da “ecogeringonça” que lançou na
campanha eleitoral e assume-se agora, sobretudo, como fiscalizador do Governo e
da acção do PS no Parlamento. “A maioria absoluta vai obrigar todos, órgãos de
soberania e sociedade civil, a elevar a fiscalização do Governo”, afirmou o
deputado eleito pelo Livre, Rui Tavares, no Palácio de Belém.
“Tem de se saber
se o PS vai ser fiel à ideia de diálogo com os outros partidos” ou se vai
“menorizar a Assembleia da República”, disse. O Livre não vai, ainda assim,
ficar à espera apenas da abertura do PS e vai começar a enviar convites ao PCP,
BE e PAN para reuniões com vista a procurar “linhas de força conjuntas destes
partidos para promover o diálogo”.
Na opinião de Rui
Tavares, a “falta de articulação e diálogo foi uma das fraquezas da esquerda”
que acabou por conduzir ao “chumbo” do Orçamento do Estado, precipitando as
eleições antecipadas. “É importante que a esquerda seja propositiva, positiva,
para evitar uma encruzilhada para o Estado de Direito numa altura em que passam
50 anos sobre o 25 de Abril”, acrescentou, referindo-se ao receio de um
crescimento da extrema-direita durante a legislatura que agora se vai iniciar.
Questionada sobre
se está disponível para a convergência de esquerda proposta pelo Livre,
Catarina Martins sublinhou que “o BE fez sempre pontes e criou sempre
convergências”, incluindo com o PCP em matéria de saúde e trabalho, e constatou
que há “posições comuns abrangentes à esquerda”.
PAN espera para
ver novo OE
Preocupado com a
maioria absoluta, que pode ser “prejudicial para a democracia”, está também o
PAN, que espera agora que o Governo esteja “disponível para o debate
democrático”, como garantiu António Costa na noite eleitoral.
À saída da
audiência com Marcelo Rebelo de Sousa, Bebiana Cunha, a líder parlamentar do
Pessoas – Animais – Natureza na legislatura que agora finda, recordou que o
partido tinha “consagrado propostas” para o Orçamento do Estado de 2022 que
acabou chumbado e espera agora para ver o novo documento que o PS irá
apresentar.
“Sendo um Governo
de continuidade, o repto que lançamos ao PS é que honre os compromissos
negociados com o PAN”, disse, acrescentando que, se assim for, o partido olhará
para o novo orçamento “de forma positiva”.
Em particular,
Bebiana Cunha realçou os compromissos obtidos no combate à pobreza energética,
na protecção animal e no combate à crise climática, lamentando porém que não
tenha avançado o Plano Nacional da Água que agora permitia fazer face à
situação de seca. “Agora, o Governo anda a correr atrás do prejuízo”, frisou.
Outra preocupação
do PAN é o sistema eleitoral, sublinhando Bebiana Cunha que houve quase 70 mil
votos no partido que não se traduziram em mandatos parlamentares: “Se
tivéssemos um círculo nacional de compensação, o PAN teria eleito três
deputados”, notou.
Sem comentários:
Enviar um comentário