quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Carlos Moedas diz que Lisboa “não pode recusar” filmagens da Netflix / Com “quase 2000” inscritos, o Conselho de Cidadãos suscita dúvidas à oposição

 


LISBOA

Carlos Moedas diz que Lisboa “não pode recusar” filmagens da Netflix

 

Face às críticas da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, Carlos Moedas pronunciou-se esta terça-feira nas suas redes sociais a favor das filmagens da Netflix que terão lugar na Baixa, no Chiado e na Mouraria.

 

Ana Bacelar Begonha

22 de Fevereiro de 2022, 17:57

https://www.publico.pt/2022/02/22/local/noticia/carlos-moedas-lisboa-nao-recusar-filmagens-netflix-1996416

 

Depois de a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior ter criticado as filmagens que a Netflix tem previstas para final de Junho e início de Julho nos bairros daquela freguesia, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Carlos Moedas (PSD), disse esta terça-feira nas suas redes sociais que esta é uma oportunidade que Lisboa “não pode recusar”.

 

Em causa está a rodagem de uma produção da Netflix levada a cabo pela produtora Ready to Shoot durante oito noites e dois dias, entre as 18h e as 8h da manhã, na zona da Baixa, do Chiado e da Mouraria, contra a qual o presidente da junta, Miguel Coelho (PS), manifestou “publicamente o seu desagrado”.

 

Através de um comunicado da junta também publicado nas redes sociais, o executivo da freguesia pronunciou-se esta segunda-feira contra as gravações, por considerar que as mesmas vão perturbar “o direito ao descanso e à mobilidade” dos moradores de Santa Maria Maior, “em consequência da ocupação massiva que as filmagens acarretam”.

 

Segundo a informação recebida em Novembro do ano passado pela junta, que garante não ter sido ouvida previamente pela CML, as filmagens vão recorrer “a efeitos de fogo, armas de fogo, colisões entre automóveis, perseguições com automóveis e motociclos, perseguições de motociclos pelas escadas e escadinhas dos bairros e outros diversos efeitos especiais”.

 

Não tendo as competências legais para impedir as filmagens, já que essa competência cabe apenas à CML, Miguel Coelho mostrou-se “disponível para encontrar uma solução razoável” junto do presidente da câmara e da produtora, a fim de não transformar a freguesia “num estúdio cinematográfico”, de acordo com o comunicado.

 

Em resposta, Carlos Moedas pronunciou-se esta manhã, uma vez mais, a favor das filmagens: “ter grandes organizações internacionais interessadas em projectar a nossa essência é uma oportunidade que Lisboa não pode recusar”, afirmou o autarca.

 

Referindo que “este é o momento de voltar a dar a oportunidade às pessoas de relançarem a sua vida” por meio da cultura, da economia e da inovação, o presidente da CML argumentou ainda que estas filmagens são uma forma de “defender os interesses dos lisboetas” e de dar a conhecer a cidade de Lisboa. "Temos que voltar a fazer de Lisboa a grande referência europeia e uma verdadeira cidade do Mundo”, disse o presidente.

 

Segundo avançou o Expresso, apesar da resistência da junta de freguesia, o executivo de Moedas, deverá “manter o plano” das filmagens, “que é defendido com a experiência das equipas da Câmara neste tipo de produção e, não menos importante, com os retornos financeiros para a cidade, da restauração e hotelaria aos serviços especializados”.

 

Apesar da oposição de Miguel Coelho, as filmagens televisivas em Santa Maria Maior não são uma novidade. De acordo com dados da Lisboa Film Commission, criada em 2013 pela câmara (na altura presidida por António Costa), a freguesia recebeu, só em 2020, 119 pedidos de filmagens por parte de produções tanto nacionais como estrangeiras, de um total de 268 produções em Lisboa.

 

Texto editado por Ana Fernandes



LISBOA

Com “quase 2000” inscritos, o Conselho de Cidadãos suscita dúvidas à oposição

 

Carlos Moedas diz que o novo órgão é informal, que “vem acrescentar, não subtrair” e queixa-se de “uma tentativa de diabolização”. Esquerda e Chega têm medo que a iniciativa sirva para contornar a câmara e a assembleia municipal.

 

João Pedro Pincha

22 de Fevereiro de 2022, 20:30

https://www.publico.pt/2022/02/22/local/noticia/quase-2000-inscritos-conselho-cidadaos-suscita-duvidas-oposicao-1996468

 

Cerca de um mês depois de ter sido lançado pela Câmara de Lisboa, o Conselho de Cidadãos tem “quase duas mil” pessoas inscritas, o que para Carlos Moedas é um sinal de que este novo fórum “vem acrescentar para melhor” e permite “que muitas pessoas, que por definição não participam, possam participar”.

 

Mas a oposição à esquerda e o Chega têm dúvidas sobre a iniciativa do autarca, lamentando uns que não tenha sido votada previamente ao seu lançamento e outros questionando mesmo se a ideia do executivo PSD/CDS é passar por cima dos restantes eleitos.

 

O Conselho de Cidadãos foi um dos pontos destacados por Moedas ao apresentar a sua informação escrita trimestral na assembleia municipal. E, mais do que habitação ou mobilidade, foi um tema que perpassou todo o debate.

 

Temendo que se esteja perante “um atentado grosseiro ao sistema representativo consagrado na Constituição”, a deputada socialista Carla Madeira disse que o órgão lançado por Moedas “não é o melhor exemplo de pluralidade, transparência e administração aberta”. Isto porque, criticou, “em vez de dar voz a todos os cidadãos interessados, serão escolhidas 50 pessoas por entidades escolhidas pelo executivo”.

 

De todos quantos voluntariamente se inscrevem para participar, para cada reunião do conselho serão escolhidos 50 cidadãos através de sorteio, mas com algumas condições para que o quórum seja representativo da população da cidade. Esse sorteio será feito “em parceria com entidades académicas e da sociedade civil com reconhecida credibilidade e independência”, promete a autarquia no seu site.

 

“Teria sido preferível que o assunto fosse tratado de outra forma”, disse a deputada Cláudia Madeira, de Os Verdes, lamentando que o conselho não tenha sido votado nem pela câmara nem pela assembleia. E deixando dúvidas: “Quem decide o tema em discussão? Quem fará o sorteio dos cidadãos a participar?” Mais à frente foi Vasco Barata, do BE, a referir-se ao “inenarrável caso do Conselho de Cidadãos, onde a câmara selecciona cidadãos perguntando se são filiados em algum partido político e colocando em prática uma medida que nunca foi aprovada nos órgãos municipais”.

 

Ainda à esquerda, a deputada independente Daniela Serralha considerou que a iniciativa “não foi devidamente explicada” e Paulo Muacho, do Livre, lamentou que esteja previsto que as propostas cidadãs que resultem das reuniões sejam entregues ao presidente da câmara. “Vemos aqui uma tentativa de presidencialização da participação”, disse. À direita, apenas o Chega é contra a proposta. “Continuamos sem entender qual o sentido de criar um Conselho de Cidadãos quando já existe uma assembleia municipal com 13 forças políticas”, afirmou Pedro Pessanha.

 

A todas as críticas que ouviu, Carlos Moedas respondeu que o futuro conselho “vem acrescentar, não vem subtrair” e que tanto a câmara como a assembleia continuam a ser os únicos órgãos com legitimidade para governar de facto. “Isto não é uma invenção do Carlos Moedas. Há aqui uma tentativa de diabolização de um instrumento que não vem tirar nada aos instrumentos que já existem”, atirou. “Isto é algo que está estudado e já foi aplicado na Europa por governos de esquerda e de direita, por autarcas de esquerda e de direita. Estas coisas estão estudadas. Em política não é só chegar e dizer umas coisas”, disse ainda o autarca.

 

Ouvidos pelo PÚBLICO há duas semanas, alguns especialistas disseram que o lançamento deste conselho era um passo positivo que poderia servir de “piloto” para outras cidades. Mas também alertaram que o modelo desenhado pela câmara tem fragilidades que podem comprometer as boas intenções iniciais.

 

Nesta sessão também estava previsto discutir-se a suspensão de novos registos de alojamento local, uma medida que foi aprovada em câmara a meio de Dezembro e que precisa do aval da assembleia municipal para se tornar eficaz. A extensa ordem de trabalhos desta terça levou ao segundo adiamento desse debate.

 

tp.ocilbup@ahcnip.oaoj


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