ANÁLISE
A vingança da Rússia
José Pedro
Teixeira Fernandes
22 de Fevereiro
de 2022, 18:50
https://www.publico.pt/2022/02/22/mundo/analise/vinganca-russia-1996444
1. Não há
qualquer dúvida que estamos a assistir a uma vingança da Rússia. Há uma vontade
de reverter aquilo que para muitos russos foram sucessivas humilhações vindas
do Ocidente, aproveitando-se da sua vulnerabilidade após o final da Guerra
Fria. Não é um acaso surgir nesta altura. Estamos num mundo muito diferente
daquele que marcou a última década do século XX, onde a hiperpotência
norte-americana, na expressão do ministro dos Negócios Estrangeiros francês da
época, Hubert Védrine, não tinha rival à altura. Hoje a Rússia, tal como a
China, percepciona os EUA numa trajectória de declínio de poder. Vê assim
oportunidades para reconfigurar o mundo exterior à sua própria maneira,
especialmente na área geopolítica envolvente que considera crítica para a sua
segurança.
2. Na crise da
Ucrânia, a questão do alargamento da NATO tem estado no centro das discussões.
É, todavia, necessário ir além desse aspecto para contextualizar o problema. A
crise da Ucrânia insere-se no ressurgir, em força, de uma contestação com
múltiplas origens aos princípios que o Ocidente vê como bons para si e para a
generalidade do mundo: democracia liberal, Estado de direito, direitos humanos,
direitos das minorias, economia de mercado e globalização económica, comercial
e tecnológica impregnada de valores ocidentais. É necessário, todavia, ter um
aspecto bem claro. Embora a linguagem ocidental seja normativa e imbuída de
valores, há uma dimensão geopolítica e de poder que lhe está subjacente. Para o
Ocidente, estes princípios, que são seus, têm uma vantagem (muito grande) de
poder: aumentam automaticamente a sua influência geopolítica no mundo e
trazem-lhe ganhos materiais. Podemos não (querer) ver isso, mas outros vêem.
3. Vale a pena
lembrar novamente aqui, pela sua lucidez analítica, o discurso de Hubert
Védrine, proferido a 3 de Novembro de 1999, onde este falava na hiperpotência
norte-americana. Nesse discurso, interrogava-se sobre como o Ocidente se via na
altura, respondendo assim: “Primeiro como um vencedor. Vencedor da história —
daí a tentação de proclamar seu fim — vencedor da União Soviética depois de ter
vencido o nazismo e o fascismo, segundo uma visão linear em duas etapas 1945,
1989-91. Depois, como expressão do universal. A da economia globalizada pelas
tecnologias, a dos homens unificados pela simultaneidade das imagens, a dos
valores acima de tudo, partindo dos valores básicos, democracia e economia de
mercado, e desmembrando-os em liberdades individuais, liberdades económicas,
Estado de direito, eleições livres, meios de comunicação livres, juízes
independentes, perfeito respeito pelos direitos humanos, etc... Tal programa
deveria ser unânime. E, no entanto, as contestações são muitas”. Nessa sua
reflexão, Hubert Védrine tinha como pano de fundo as guerras da Jugoslávia, em
particular a intervenção da NATO no Kosovo. Mas quando vemos agora a Rússia
reconhecer a independência das repúblicas separatistas pró-russas de Donetsk e
Lugansk, impondo a sua vontade pela força e enterrando os acordos de Minsk de
2015, fica a sensação de o passado reemergir como um fantasma.
4. Na época em
que Hubert Védrine escreveu, apesar das polémicas, prevaleceu no Ocidente a
defesa dos direitos humanos e dos direitos das minorias. A intervenção (ou
ingerência) humanitária, que envolveu operações militares de maior ou menor
envergadura, foi vista como justificada mesmo contra a soberania do Estado.
Rever as fronteiras saídas da II Guerra Mundial foi considerado aceitável em
nome desse princípio. As teses da segurança humana de valor superior ao do
Estado, davam-lhe uma aura de inovadora legitimidade. Todavia, abriu-se um
precedente de que hoje estamos a ver as sequelas difusas: esses princípios não
estavam, nem estão, inscritos na Carta das Nações Unidas. A intervenção da NATO
no Kosovo em 1999 foi feita sem resolução prévia do Conselho de Segurança, nem
enquadramento na legalidade internacional resultante do dispositivo Carta das
Nações Unidas. Assim, o que decidiu a questão não foram os princípios e valores
em si mesmos — por muito que sejam enaltecidos e louváveis —, mas o poder
militar do Ocidente. Essa forma de actuar criou múltiplos ressentimentos, desde
logo na Rússia.
5. A questão
complica-se, ainda mais, pelo facto de a Rússia ser um Estado-império (tal como
a China e os EUA, estes últimos uma república imperial na qualificação de
Raymond Aron) que já teve várias versões nos últimos séculos: Rússia dos
czares, União Soviética e agora Federação Russa. Em todas elas sempre houve um
dilema fundamental que os ocidentais subestimam: os momentos de revolução e de
ruptura política são, em simultâneo, momentos de desagregação do Estado. É
suficiente recordar o que aconteceu após a revolução bolchevique de Outubro de
1917 e a paz de Brest-Litovsk (tratado assinado na actual Bielorrússia) de
inícios de 1918, que levou à saída da I Guerra Mundial; e também o que
aconteceu a seguir ao final da Guerra Fria em 1989 e à dissolução da União
Soviética em 1991: quando fraqueja o poder central, o Estado russo começa a
desagregar-se, com múltiplos territórios a fugirem, como a Ucrânia tentou fazer
nessa altura. Note-se que este dilema não existe em geral no Ocidente. A França
passou pela revolução de 1789 — que trouxe uma profunda transformação política
—sem nunca estar em causa a desagregação do Estado francês. Neste sentido a
Rússia é necessariamente um Estado excepcional e diferente do Ocidente. A
democracia liberal — tal como, por exemplo, a União Europeia a entende —
implicaria aceitar a possibilidade de desagregação do Estado russo em
componentes políticas mais pequenas, dada a sua diversidade de Estado-império
com múltiplos povos e minorias. Nenhum político terá futuro na Rússia a
defender tais ideias.
6. Vladimir Putin
é hoje uma espécie de Némesis do Ocidente. Alimenta, por conveniência política
e estratégica, todos os estereótipos negativos que estão enraizados na
população russa sobre o Ocidente liberal (desde o seu materialismo até à
decadência dos valores pós-modernos, passando pelo aproveitamento brutal das
fraquezas russas). Promete uma Rússia forte que não abdica dos seus direitos
históricos e de grande potência. Para um Estado-império orgulhoso do seu
passado, habituado a ter que lidar com muitos inimigos nas suas vastíssimas
fronteiras, este discurso — que choca no Ocidente habituado à retórica
normativa e dos valores e não à linguagem crua da geopolítica —, tem um
carácter de (quase) naturalidade. A Rússia é demasiado orgulhosa para querer ser
uma cópia das democracias ocidentais liberais, modelo que muitos russos acham
ser utilizado contra si para a desagregar. Desconfia profundamente das boas
razões universalistas dos ocidentais associadas à democracia liberal dos
direitos humanos, vendo-os como uma forma dissimulada de o Ocidente expandir os
seus interesses geopolíticos e materiais. Há, por isso, um conflito profundo de
valores e uma enormíssima desconfiança instalada.
7. A Ucrânia,
pela sua importância histórica, económica e geopolítica para Rússia, tornou-se
num perigoso terreno de confrontação com o Ocidente. Hoje a Rússia sente-se
suficientemente forte para colocar em causa (em parte) o realinhamento do final
da Guerra Fria. Na sua óptica, faz apenas o mesmo que os EUA/NATO fizeram na antiga
Jugoslávia e noutras partes do mundo (e por isso tem o direito de o fazer):
tenta legitimar a sua intervenção invocando a protecção das minorias russas
agredidas nos territórios de Donbass e a necessidade de uma operação
humanitária. Trata-se quase de mimetizar — dirão os mais críticos de forma
absurda e caricatural — os argumentos de anteriores intervenções do
Ocidente/NATO. O resultado, é que qualquer concessão por pequena que seja,
parece inaceitável e uma humilhação. Do lado ocidental, reemergiu o espectro de
se fazerem acordos com Vladimir Putin que tragam “paz para o nosso tempo”, como
fez o primeiro-ministro britânico em 1938, Neville Chamberlain, com Adolf
Hitler e a Alemanha nazi (e que não evitou a guerra). A ironia de tudo isto é
que do lado russo os nazis são os nacionalistas ucranianos. A Rússia
aponta-lhes o dedo e denigre-os por terem colaborado com a Alemanha durante a
II Guerra Mundial. Acabar com este círculo vicioso que pode mesmo levar a uma
guerra é a maior tarefa da diplomacia para os próximo tempos.
Investigador do
IPRI-NOVA - Universidade NOVA de Lisboa
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