ANÁLISE
A história “alternativa” de Vladimir Putin
No seu discurso de segunda-feira, o Presidente russo
disse ao mundo o que já escrevera num ensaio publicado em Julho de 2021: “A
verdadeira soberania da Ucrânia só é possível em parceria com a Rússia.”
Jorge Almeida
Fernandes
22 de Fevereiro
de 2022, 21:34
https://www.publico.pt/2022/02/22/mundo/analise/historia-alternativa-vladimir-putin-1996470
Vladimir Putin
explicou na televisão, durante uma hora e meia, a decisão de reconhecer a
independência dos territórios secessionistas da Ucrânia no Donbass, Donetsk e
Lugansk. Teria sido mais rigoroso se tivesse usado o termo “anexação”. Esta
fica para mais tarde, como aconteceu na Crimeia. A nota mais importante é que o
tom do discurso dá a entender que os objectivos russos na Ucrânia serão mais
amplos.
“A Ucrânia, para
nós, não é só um país vizinho”, começou por dizer. “É uma parte inalienável da
nossa História, da nossa cultura, do nosso espaço espiritual. (…) Não são
apenas colegas e amigos, mas também parentes, pessoas a que estamos ligados por
familiares, laços de sangue.”
A seguir passa à
História, como já fizera num ensaio publicado do site do Kremlin no dia 12 de
Julho de 2021, intitulado “Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos.”A
separação entre russos e ucranianos, dizia Putin, é artificial, iniciada na
Idade Média por polacos e lituanos e, mais tarde, pelos austríacos e alemães, e
continuada hoje “pelo Ocidente”. Concluía em termos políticos: “A verdadeira
soberania da Ucrânia só é possível em parceria com a Rússia.” Recusa-se
discutir noutros termos.
Fábulas
Na segunda-feira,
resumiu esta filosofia e passou ao tempo da Revolução russa que levou ao
reconhecimento da Ucrânia como entidade nacional, no quadro da União Soviética.
Dá uma inédita lição de “história alternativa”.
“Comecemos pelo
facto de a Ucrânia contemporânea ter sido criada inteira e completamente pela
Rússia, mais exactamente pela Rússia Comunista, bolchevique. Este processo
começou imediatamente após a revolução de 1917, e Lenine e seus camaradas
agiram de uma forma verdadeiramente pouco delicada para com a Rússia:
arrancaram-lhe uma parte dos seus territórios históricos. Claro que ninguém
perguntou nada aos milhões de pessoas que lá viviam.”
Estaline tentou
impor um modelo de autonomias dentro de um Estado unificado. “Lenine criticou
este plano e propôs fazer concessões aos nacionalistas, aos nezavisimti
(independentistas), como se dizia na altura.”
Tudo isto porquê?
“Por que transferir [esses imensos territórios] com população da Rússia
histórica? Além disso ofereceram a essas entidades administrativas o estatuto e
o aspecto de formações estatais nacionais? Porque seria preciso dar presentes
tão generosos, com que os nacionalistas nem sequer sonhavam, e por que dar a
essas republicas o direito de sair de um Estado unificado sem as mínimas condições?”
Por fim, Putin
regressa a Lenine. “À primeira vista, parece uma loucura. Mas há uma
explicação. Depois da revolução, os bolcheviques tinham como principal
objectivo manterem-se no poder, não importa a que preço, absolutamente a
qualquer preço! Os princípios leninistas da construção estatal não foram apenas
um erro, como se disse, foi muito pior que um erro. E tornou-se particularmente
visível depois do desmoronamento da URSS, em 1991.”
Putin não lembra
que a extinção da União Soviética foi uma decisão de três dos seus estados
eslavos: a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia. “Foram erros estratégicos
históricos dos dirigentes bolcheviques e da direcção do PCUS (Partido Comunista
da União Soviética) que levaram ao desabamento do nosso país unido. O desabamento
da Rússia histórica, então chamada URSS, pesa sobre a sua consciência.”
O outro passado que não passa
Alguns autores
têm sublinhado que Putin recua tanto na História até fazer da Ucrânia uma
construção imaginária, obliterando todas as tragédias e peripécias de um país
muito diverso e situado na fronteira entre vários impérios. Basta lembrar que
um dos raros imperadores “liberais”, Alexandre II, proibiu o uso da língua
ucraniana no conjunto do território, o que fez emigrar a elite para a universidade
de Lvov, então no Império Austro-Húngaro.
A referência a
Lenine e Estaline convida à evocação de um outro evento. Até 1932, Estaline
tratou relativamente bem a Ucrânia. Mas o surgimento de reivindicações
culturais, económicas e políticas, levaram Estaline a uma mudança brutal.
Escreveu o historiador Charles Urjewicz: “Lançou uma caça contra o
‘nacionalismo burguês’ – intelectuais, artistas e quadros do Partido Comunista
da Ucrânia, que em breve engrossaram as fileiras dos fuzilados.”
E seguiu-se o genocídio.
A Ucrânia era o grande produtor de cereais da URSS, ocupando um papel central
na nova política de colectivização agrária. Perante a resistência dos
agricultores, Estaline impôs a punição colectiva. Milhares de camponeses foram
fuzilados pelas brigadas de colectivização que se apoderavam das colheitas.
Depois foi a grande fome: cinco a seis milhões de mortos em 1932-1933. Foi uma
ferida aberta que nunca sarou e cuja memória sustenta as narrativas da
“martirologia” ucraniana.
Não se sabe o que
vai na cabeça de Vladimir Putin e de como ele interpreta as reacções
euro-americanas. Para já há uma aparente novidade: uma força de manutenção de
paz, os anunciados peacekeepers russos, pode transformar-se numa força de
ocupação ou conquista. Os secessionistas pró-russos apenas ocupam metade dos
dois territórios cuja independência Putin reconhece e que ele passará a
considerar, de facto, como território russo. De incidente em incidente, os
riscos são alarmantes. Sobretudo depois de escutar a intervenção de Putin.
tp.ocilbup@sednanrefaj
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