quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A história “alternativa” de Vladimir Putin

 



ANÁLISE

A história “alternativa” de Vladimir Putin

 

No seu discurso de segunda-feira, o Presidente russo disse ao mundo o que já escrevera num ensaio publicado em Julho de 2021: “A verdadeira soberania da Ucrânia só é possível em parceria com a Rússia.”

 

Jorge Almeida Fernandes

22 de Fevereiro de 2022, 21:34

https://www.publico.pt/2022/02/22/mundo/analise/historia-alternativa-vladimir-putin-1996470

 

Vladimir Putin explicou na televisão, durante uma hora e meia, a decisão de reconhecer a independência dos territórios secessionistas da Ucrânia no Donbass, Donetsk e Lugansk. Teria sido mais rigoroso se tivesse usado o termo “anexação”. Esta fica para mais tarde, como aconteceu na Crimeia. A nota mais importante é que o tom do discurso dá a entender que os objectivos russos na Ucrânia serão mais amplos.

 

“A Ucrânia, para nós, não é só um país vizinho”, começou por dizer. “É uma parte inalienável da nossa História, da nossa cultura, do nosso espaço espiritual. (…) Não são apenas colegas e amigos, mas também parentes, pessoas a que estamos ligados por familiares, laços de sangue.”

 

A seguir passa à História, como já fizera num ensaio publicado do site do Kremlin no dia 12 de Julho de 2021, intitulado “Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos.”A separação entre russos e ucranianos, dizia Putin, é artificial, iniciada na Idade Média por polacos e lituanos e, mais tarde, pelos austríacos e alemães, e continuada hoje “pelo Ocidente”. Concluía em termos políticos: “A verdadeira soberania da Ucrânia só é possível em parceria com a Rússia.” Recusa-se discutir noutros termos.

 

Fábulas

Na segunda-feira, resumiu esta filosofia e passou ao tempo da Revolução russa que levou ao reconhecimento da Ucrânia como entidade nacional, no quadro da União Soviética. Dá uma inédita lição de “história alternativa”.

 

“Comecemos pelo facto de a Ucrânia contemporânea ter sido criada inteira e completamente pela Rússia, mais exactamente pela Rússia Comunista, bolchevique. Este processo começou imediatamente após a revolução de 1917, e Lenine e seus camaradas agiram de uma forma verdadeiramente pouco delicada para com a Rússia: arrancaram-lhe uma parte dos seus territórios históricos. Claro que ninguém perguntou nada aos milhões de pessoas que lá viviam.”

 

Estaline tentou impor um modelo de autonomias dentro de um Estado unificado. “Lenine criticou este plano e propôs fazer concessões aos nacionalistas, aos nezavisimti (independentistas), como se dizia na altura.”

 

Tudo isto porquê? “Por que transferir [esses imensos territórios] com população da Rússia histórica? Além disso ofereceram a essas entidades administrativas o estatuto e o aspecto de formações estatais nacionais? Porque seria preciso dar presentes tão generosos, com que os nacionalistas nem sequer sonhavam, e por que dar a essas republicas o direito de sair de um Estado unificado sem as mínimas condições?”

 

Por fim, Putin regressa a Lenine. “À primeira vista, parece uma loucura. Mas há uma explicação. Depois da revolução, os bolcheviques tinham como principal objectivo manterem-se no poder, não importa a que preço, absolutamente a qualquer preço! Os princípios leninistas da construção estatal não foram apenas um erro, como se disse, foi muito pior que um erro. E tornou-se particularmente visível depois do desmoronamento da URSS, em 1991.”

 

Putin não lembra que a extinção da União Soviética foi uma decisão de três dos seus estados eslavos: a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia. “Foram erros estratégicos históricos dos dirigentes bolcheviques e da direcção do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) que levaram ao desabamento do nosso país unido. O desabamento da Rússia histórica, então chamada URSS, pesa sobre a sua consciência.”

 

O outro passado que não passa

Alguns autores têm sublinhado que Putin recua tanto na História até fazer da Ucrânia uma construção imaginária, obliterando todas as tragédias e peripécias de um país muito diverso e situado na fronteira entre vários impérios. Basta lembrar que um dos raros imperadores “liberais”, Alexandre II, proibiu o uso da língua ucraniana no conjunto do território, o que fez emigrar a elite para a universidade de Lvov, então no Império Austro-Húngaro.

 

A referência a Lenine e Estaline convida à evocação de um outro evento. Até 1932, Estaline tratou relativamente bem a Ucrânia. Mas o surgimento de reivindicações culturais, económicas e políticas, levaram Estaline a uma mudança brutal. Escreveu o historiador Charles Urjewicz: “Lançou uma caça contra o ‘nacionalismo burguês’ – intelectuais, artistas e quadros do Partido Comunista da Ucrânia, que em breve engrossaram as fileiras dos fuzilados.”

 

E seguiu-se o genocídio. A Ucrânia era o grande produtor de cereais da URSS, ocupando um papel central na nova política de colectivização agrária. Perante a resistência dos agricultores, Estaline impôs a punição colectiva. Milhares de camponeses foram fuzilados pelas brigadas de colectivização que se apoderavam das colheitas. Depois foi a grande fome: cinco a seis milhões de mortos em 1932-1933. Foi uma ferida aberta que nunca sarou e cuja memória sustenta as narrativas da “martirologia” ucraniana.

 

Não se sabe o que vai na cabeça de Vladimir Putin e de como ele interpreta as reacções euro-americanas. Para já há uma aparente novidade: uma força de manutenção de paz, os anunciados peacekeepers russos, pode transformar-se numa força de ocupação ou conquista. Os secessionistas pró-russos apenas ocupam metade dos dois territórios cuja independência Putin reconhece e que ele passará a considerar, de facto, como território russo. De incidente em incidente, os riscos são alarmantes. Sobretudo depois de escutar a intervenção de Putin.

 

tp.ocilbup@sednanrefaj

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