OPINIÃO
A pena de estagnação perpétua
Quem anda à pesca de eleitores sabe que aquilo que dá
votos no imediato afunda o país, e aquilo que salva o país não dá votos no
imediato.
João Miguel
Tavares
8 de Janeiro de
2022, 0:33
https://www.publico.pt/2022/01/08/opiniao/opiniao/pena-estagnacao-perpetua-1991150
Portugal é o país
que vai ter a população mais envelhecida da Europa em 2050 (estima-se que
metade dos portugueses terão acima de 55 anos). É o terceiro país da Europa com
a maior dívida pública, somente atrás da Itália e da Grécia (127% do PIB). É um
dos seis países da Europa com menor produtividade, ou seja, que gera menos
riqueza por hora de trabalho. É um país estagnado há 20 anos, desde que aderiu
à moeda única. É um país que foi ultrapassado em PIB per capita por Malta,
República Checa, Eslovénia, Lituânia, Estónia, Polónia, Hungria, tudo países
que aderiram à União Europeia em pleno século XXI. É um país que desceu da 15.ª
para a 22.ª posição na lista dos mais ricos da Europa, e que já vê aproximar-se
no retrovisor a Eslováquia, a Letónia, e até mesmo a Roménia, um país onde se
andava a fuzilar o casal Ceausescu em 1989, quando em Portugal já choviam
fundos europeus.
Mas sabem o que
vale mesmo a pena debater em tempo de eleições legislativas? A possibilidade de
o PSD estar disponível para reintroduzir a pena de prisão perpétua em Portugal,
ainda que de forma mitigada, e para crimes inexistentes, tipo terrorismo. Esse
foi o tema da semana. Dominou o debate entre André Ventura e Rui Rio; depois
estendeu-se para o debate entre Rui Rio e Catarina Martins; e nos entretantos
motivou António Costa a gravar um videozinho pejado de grandes princípios e
lindos valores, no qual o primeiro-ministro declarava que “o combate ao
populismo exige linhas vermelhas inultrapassáveis”. Bravo. Já o combate à mais
do que evidente decadência de Portugal parece exigir coisíssima nenhuma.
Não quero negar a
importância “táctica” do tema da prisão perpétua, nem a preocupação de Rio em
“normalizar o Chega” (como se gosta tanto de dizer) no debate com a líder do
Bloco. É verdade que o esforço para puxar Ventura para o campo da decência
existiu, porque Rio sabe que no futuro pode vir a precisar dos votos do Chega
para ser primeiro-ministro, e de nada lhe serve andar a demonizá-lo em campanha
eleitoral. Mas, vejamos: isto é a táctica, não é? Não é a substância. É estar
focado numa política de alianças e em propostas de lei irrelevantes, em vez de
discutir o estado em que o país se encontra e o que fazer para mudar as coisas.
Dá para discutir o essencial? Ou, pelo menos, dá para perceber que quando não
se consegue – ou, objectivamente, não se quer – discutir o essencial, é porque
a quase todos dá jeito o circo mediático e a conversa de treta?
A estagnação do país é tão prolongada; a queda no ranking
europeu tão profunda – logo, há uma longa lista de países com políticas
melhores do que as nossas –, que custa a acreditar que possa existir outro
assunto nesta campanha eleitoral
A estagnação do
país é tão clara e prolongada; a queda no ranking europeu tão evidente e
profunda – logo, há uma longa lista de países com políticas melhores do que as
nossas –, que custa a acreditar que sequer possa existir outro assunto nesta
campanha eleitoral. E, no entanto, se toda a gente que anda na política conhece
a dimensão do problema, poucos têm a coragem de o dizer. Porquê? Porque quem
anda à pesca de eleitores sabe que aquilo que dá votos no imediato afunda o
país, e aquilo que salva o país não dá votos no imediato. Os políticos não têm
sido capazes de impor mudanças profundas, e nós, enquanto cidadãos, não temos
sabido exigi-las. Daí a proliferação de distracções, como a prisão perpétua.
Só que o grande
problema de Portugal não é a pena de prisão perpétua. O grande problema é a
pena de estagnação perpétua. É esta pena que os portugueses estão a cumprir vai
para 20 anos, e é a ela que continuarão condenados nos próximos 20. Basta
ficarem quietos. Basta mudar nada.
O autor é
colunista do PÚBLICO
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