POLÍTICA
MONETÁRIA
Viragem no BCE torna possível subida dos juros já este
ano
A inflação não é afinal tão temporária como o BCE
pensava. Christine Lagarde mudou o tom do discurso e, em Março, vai decidir se
a subida dos juros, com consequências imediatas para empresas, famílias e
Estado, pode mesmo acontecer já este ano.
Sérgio Aníbal
4 de Fevereiro de
2022, 6:02
Foi o último
grande banco central mundial a ceder, mas ao fim de meio ano a insistir que a
subida da inflação não seria mais do que um fenómeno passageiro, o BCE
reconhece agora que, afinal, a variação elevada dos preços actual deverá
persistir até ao final do ano e, talvez mesmo, conduzir a um aumento das
pressões inflacionistas no médio prazo. É uma viragem acentuada das
expectativas em Frankfurt que torna possível uma subida das taxas de juro de referência
do banco central já este ano, com consequências negativas para o custo das
dívidas assumidas pelo Estado, empresas e famílias portuguesas.
O Banco Central
Europeu tem sido, ao longo dos últimos meses, a autoridade monetária mais
reticente em retirar de forma rápida as medidas de estímulo que lançou durante
a pandemia. Ao contrário da Reserva Federal norte-americana – que em Janeiro
anunciou o início da subida das taxas de juro já para Março – e do Banco de
Inglaterra – que esta quinta-feira passou a sua taxa de juro directora de 0,25%
para 0,5% –, o banco liderado por Christine Lagarde definiu no passado mês de
Dezembro uma estratégia que passa, primeiro, pela redução progressiva, entre
Março e o final do ano, das compras de títulos de dívida da zona euro; e só
depois, caso se venha a verificar que o objectivo de inflação de 2% no médio
prazo está a ser cumprido, iniciar uma subida das taxas de juro de referência
do banco central.
Tudo feito de uma
forma muito lenta e prudente porque, como defendeu Christine Lagarde ao longo
dos últimos seis meses, a recente subida da taxa de inflação deve-se a factores
pontuais (como a subida do preço do petróleo), e a tendência deverá inverter-se
já no decorrer deste ano, fazendo com que uma alteração da política do BCE
fosse precipitada.
Em Dezembro estes
foram os argumentos apresentados pela presidente do BCE. Mas, esta
quinta-feira, depois de no dia anterior o Eurostat ter anunciado que a taxa de
inflação na zona euro voltou a subir em Janeiro para 5,1%, o discurso mudou
substancialmente.
Christine
Lagarde, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião do conselho de
governadores, admitiu que os números da inflação em Janeiro “muito
surpreendentes” e fez questão de assinalar que existe “um risco em alta nas
previsões para a inflação, especialmente para o curto prazo”.
“A situação de
facto mudou [desde a reunião de Dezembro]”, assumiu, afirmando que, afinal, a
inflação “pode ser significativamente mais alta do que o esperado durante o
decorrer deste ano e do que o antecipado para o final do ano”.
De acordo com a
agência noticiosa Reuters, que citou fontes dentro do conselho de governadores,
uma minoria dos responsáveis do BCE defendeu na reunião de quinta-feira, que o
banco deveria ter dado já nesta ocasião um sinal forte de combate à inflação,
acelerando o final das compras de dívida pública. Mas a maioria preferiu
esperar até à próxima reunião, que se realizará em Março e que parece ser agora
o momento decisivo para a definição da estratégia do banco central.
O que os
responsáveis do BCE querem perceber até lá é como é que a inflação,
reconhecidamente mais alta no curto prazo, se irá portar no médio prazo. Para
já, em mais um sinal claro de mudança das expectativas, Lagarde afirmou que
afirmou que o BCE estava agora “mais perto do objectivo [de inflação de 2% no
médio prazo]” e reconheceu que há vários factores a puxar a inflação para cima,
como a maior pressão que existe no mercado de trabalho - com a taxa de
desemprego a cair para mínimos das últimas décadas na zona euro - ou o facto de
a subida dos preços ser agora sentida numa maioria de bens e serviços, em vez
de estar concentrada apenas nos bens energéticos.
Por tudo isto, a
presidente do BCE, em vez de repetir que uma subida das taxas de juro por parte
do BCE este ano é “altamente improvável”, acabou desta vez por não fechar a
porta a esse cenário, recusando fazer “promessas incondicionais”. “As nossas
decisões estão dependentes dos dados. Faremos esse trabalho em Março e penso
que isso nos irá levar a uma análise sobre quais são as causas da inflação no
curto prazo e de como é que ficam as projecções de médio prazo”, afirmou, em
mais uma frase que pôs os investidores a adivinharem a uma mudança mais brusca
da política monetária na zona euro.
Impacto rápido na
economia
Nos mercados, já
há algum tempo que se desconfia da capacidade do BCE para manter uma estratégia
tão moderada a enfrentar as pressões inflacionistas. No entanto, a persistência
do BCE tem permitido que, até agora, as taxas de curto prazo como as Euribor se
tenham mantido a níveis historicamente baixos e que as taxas de juro de longo
prazo a que os Estados se financiam nos mercados tenham registado subidas
relativamente moderadas nos últimos meses.
Uma viragem na
política do BCE, que inclua o fim das compras líquidas de dívida pública e o
início da subida das taxas de juro de referência já no decorrer deste ano,
conduziria a uma alteração bem mais rápida das condições de financiamento dos
Estados, empresas e famílias da zona euro, incluindo Portugal, um dos países em
que os níveis de endividamento público e privado são mais elevados.
Esses efeitos
seriam sentidos de forma diferente. As taxas de juro de referência do BCE são
aquelas a que o banco central empresta dinheiro aos bancos comerciais, pelo que
a sua subida conduziria, de forma quase simultânea, a um aumento das taxas de
juro das Euribor, que servem de indexante à grande maioria dos empréstimos
concedidos às empresas e famílias em Portugal.
Sendo assim, as
prestações do crédito podem, nesse cenário, a subir, retirando progressivamente
aos portugueses o enorme alívio que, a este nível, têm sentido nas suas contas
durante os últimos anos.
No caso do
Estado, o efeito negativo de uma subida dos juros é mais demorado. O custo da
dívida pública já assumida não varia e, portanto, o agravamento dos juros só se
sente na nova dívida que venha a ser emitida.
Para além disso,
as taxas de juro de alguns dos títulos de dívida mais antiga que o Estado está
agora prestes a amortizar são tão mais altas que as actuais que é mesmo
possível que, num cenário de subida dos juros relativamente moderado, seja
possível as finanças públicas portuguesas continuem a reduzir os seus encargos
com juros.
É por isso que,
numa entrevista ao PÚBLICO, Cristina Casalinho, a presidente da agência que
gere a dívida pública portuguesa, defendeu recentemente que Portugal “tem algum
tempo para acomodar a subida das taxas”.
Para já, aquilo
que aconteceu nos mercados esta quinta-feira, numa resposta imediata às
declarações de Christine Lagarde, foi uma subida das taxas de juro da dívida
pública portuguesa a 10 anos de 0,715% para 0,893%, o que representa o valor
mais alto desde a primeira metade de Maio de 2020.
Em Espanha, as
taxas de juro subiram de 0,793% para 0,968%, em Itália de 1,427% para 1,635% e
na Alemanha de 0,35% para 0,147%.
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