sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Viragem no BCE torna possível subida dos juros já este ano

 


POLÍTICA MONETÁRIA

Viragem no BCE torna possível subida dos juros já este ano

 

A inflação não é afinal tão temporária como o BCE pensava. Christine Lagarde mudou o tom do discurso e, em Março, vai decidir se a subida dos juros, com consequências imediatas para empresas, famílias e Estado, pode mesmo acontecer já este ano.

 

Sérgio Aníbal

4 de Fevereiro de 2022, 6:02

https://www.publico.pt/2022/02/04/economia/noticia/viragem-bce-torna-possivel-subida-juros-ja-ano-1994220

 

Foi o último grande banco central mundial a ceder, mas ao fim de meio ano a insistir que a subida da inflação não seria mais do que um fenómeno passageiro, o BCE reconhece agora que, afinal, a variação elevada dos preços actual deverá persistir até ao final do ano e, talvez mesmo, conduzir a um aumento das pressões inflacionistas no médio prazo. É uma viragem acentuada das expectativas em Frankfurt que torna possível uma subida das taxas de juro de referência do banco central já este ano, com consequências negativas para o custo das dívidas assumidas pelo Estado, empresas e famílias portuguesas.

 

O Banco Central Europeu tem sido, ao longo dos últimos meses, a autoridade monetária mais reticente em retirar de forma rápida as medidas de estímulo que lançou durante a pandemia. Ao contrário da Reserva Federal norte-americana – que em Janeiro anunciou o início da subida das taxas de juro já para Março – e do Banco de Inglaterra – que esta quinta-feira passou a sua taxa de juro directora de 0,25% para 0,5% –, o banco liderado por Christine Lagarde definiu no passado mês de Dezembro uma estratégia que passa, primeiro, pela redução progressiva, entre Março e o final do ano, das compras de títulos de dívida da zona euro; e só depois, caso se venha a verificar que o objectivo de inflação de 2% no médio prazo está a ser cumprido, iniciar uma subida das taxas de juro de referência do banco central.

 

Tudo feito de uma forma muito lenta e prudente porque, como defendeu Christine Lagarde ao longo dos últimos seis meses, a recente subida da taxa de inflação deve-se a factores pontuais (como a subida do preço do petróleo), e a tendência deverá inverter-se já no decorrer deste ano, fazendo com que uma alteração da política do BCE fosse precipitada.

 

Em Dezembro estes foram os argumentos apresentados pela presidente do BCE. Mas, esta quinta-feira, depois de no dia anterior o Eurostat ter anunciado que a taxa de inflação na zona euro voltou a subir em Janeiro para 5,1%, o discurso mudou substancialmente.

 

Christine Lagarde, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião do conselho de governadores, admitiu que os números da inflação em Janeiro “muito surpreendentes” e fez questão de assinalar que existe “um risco em alta nas previsões para a inflação, especialmente para o curto prazo”.

 

“A situação de facto mudou [desde a reunião de Dezembro]”, assumiu, afirmando que, afinal, a inflação “pode ser significativamente mais alta do que o esperado durante o decorrer deste ano e do que o antecipado para o final do ano”.

 

De acordo com a agência noticiosa Reuters, que citou fontes dentro do conselho de governadores, uma minoria dos responsáveis do BCE defendeu na reunião de quinta-feira, que o banco deveria ter dado já nesta ocasião um sinal forte de combate à inflação, acelerando o final das compras de dívida pública. Mas a maioria preferiu esperar até à próxima reunião, que se realizará em Março e que parece ser agora o momento decisivo para a definição da estratégia do banco central.

 

O que os responsáveis do BCE querem perceber até lá é como é que a inflação, reconhecidamente mais alta no curto prazo, se irá portar no médio prazo. Para já, em mais um sinal claro de mudança das expectativas, Lagarde afirmou que afirmou que o BCE estava agora “mais perto do objectivo [de inflação de 2% no médio prazo]” e reconheceu que há vários factores a puxar a inflação para cima, como a maior pressão que existe no mercado de trabalho - com a taxa de desemprego a cair para mínimos das últimas décadas na zona euro - ou o facto de a subida dos preços ser agora sentida numa maioria de bens e serviços, em vez de estar concentrada apenas nos bens energéticos.

 

Por tudo isto, a presidente do BCE, em vez de repetir que uma subida das taxas de juro por parte do BCE este ano é “altamente improvável”, acabou desta vez por não fechar a porta a esse cenário, recusando fazer “promessas incondicionais”. “As nossas decisões estão dependentes dos dados. Faremos esse trabalho em Março e penso que isso nos irá levar a uma análise sobre quais são as causas da inflação no curto prazo e de como é que ficam as projecções de médio prazo”, afirmou, em mais uma frase que pôs os investidores a adivinharem a uma mudança mais brusca da política monetária na zona euro.

 

Impacto rápido na economia

Nos mercados, já há algum tempo que se desconfia da capacidade do BCE para manter uma estratégia tão moderada a enfrentar as pressões inflacionistas. No entanto, a persistência do BCE tem permitido que, até agora, as taxas de curto prazo como as Euribor se tenham mantido a níveis historicamente baixos e que as taxas de juro de longo prazo a que os Estados se financiam nos mercados tenham registado subidas relativamente moderadas nos últimos meses.

 

Uma viragem na política do BCE, que inclua o fim das compras líquidas de dívida pública e o início da subida das taxas de juro de referência já no decorrer deste ano, conduziria a uma alteração bem mais rápida das condições de financiamento dos Estados, empresas e famílias da zona euro, incluindo Portugal, um dos países em que os níveis de endividamento público e privado são mais elevados.

 

Esses efeitos seriam sentidos de forma diferente. As taxas de juro de referência do BCE são aquelas a que o banco central empresta dinheiro aos bancos comerciais, pelo que a sua subida conduziria, de forma quase simultânea, a um aumento das taxas de juro das Euribor, que servem de indexante à grande maioria dos empréstimos concedidos às empresas e famílias em Portugal.

 

Sendo assim, as prestações do crédito podem, nesse cenário, a subir, retirando progressivamente aos portugueses o enorme alívio que, a este nível, têm sentido nas suas contas durante os últimos anos.

 

No caso do Estado, o efeito negativo de uma subida dos juros é mais demorado. O custo da dívida pública já assumida não varia e, portanto, o agravamento dos juros só se sente na nova dívida que venha a ser emitida.

 

Para além disso, as taxas de juro de alguns dos títulos de dívida mais antiga que o Estado está agora prestes a amortizar são tão mais altas que as actuais que é mesmo possível que, num cenário de subida dos juros relativamente moderado, seja possível as finanças públicas portuguesas continuem a reduzir os seus encargos com juros.

 

É por isso que, numa entrevista ao PÚBLICO, Cristina Casalinho, a presidente da agência que gere a dívida pública portuguesa, defendeu recentemente que Portugal “tem algum tempo para acomodar a subida das taxas”.

 

Para já, aquilo que aconteceu nos mercados esta quinta-feira, numa resposta imediata às declarações de Christine Lagarde, foi uma subida das taxas de juro da dívida pública portuguesa a 10 anos de 0,715% para 0,893%, o que representa o valor mais alto desde a primeira metade de Maio de 2020.

 

Em Espanha, as taxas de juro subiram de 0,793% para 0,968%, em Itália de 1,427% para 1,635% e na Alemanha de 0,35% para 0,147%.

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