sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Inflação, o esqueleto no armário

 



EDITORIAL

Inflação, o esqueleto no armário

 

É hora de alargar o debate sobre as vulnerabilidades da oposição parlamentar ou sobre a margem de manobra do Presidente para temas menos entusiasmantes, mas bem mais importantes para o futuro. Como o da inflação

 

Manuel Carvalho

3 de Fevereiro de 2022, 21:30

https://www.publico.pt/2022/02/03/economia/editorial/inflacao-esqueleto-armario-1994225

 

O Governo previa gastar em 2022, com os encargos da dívida, 5,1 mil milhões de euros. Exactamente, quase um terço das verbas do Programa de Recuperação e Resiliência, tantas vezes apresentado como a varinha mágica para os problemas do país. Até agora, essa pesada factura resultante de uma das dez maiores dívidas do mundo em percentagem do PIB tem sido acomodada sem dramas de maior. Mas há ao virar da esquina um fantasma que assombra o próximo Governo: o da inflação.

 

Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, reconheceu esta quinta-feira que, afinal, a inflação não vai ser um fenómeno passageiro, uma mera consequência conjuntural da recuperação no pós-pandemia. E, sem o dizer abertamente, deixou claro que, mais tarde ou mais, cedo as taxas de juro vão subir. Durante os próximos meses, a gestão até agora prudente e engenhosa da brutal dívida pública salva o país de grandes encargos. Mas, a prazo, os custos podem tornar-se uma dor de cabeça.

 

Não quer isto dizer que a próxima equipa das Finanças e o primeiro-ministro tenham de enfrentar um cenário próximo dos anos de chumbo da troika ou do final do Governo Sócrates. Para lá das nuvens sombrias da inflação e das taxas de juro, há boas notícias: os resultados da execução orçamental de 2021 indicam que o regresso para breve das regras apertadas do pacto de estabilidade europeu não serão um problema de maior. A menos que as previsões sobre o crescimento derrapem.

 

Mas também aqui há notícias favoráveis: Portugal melhorou a sua posição no radar do investimento estrangeiro. No ano passado, e apesar das incertezas da pandemia, conseguiu atrair mais de três mil milhões de euros de investimento. Os programas do PRR estão a suscitar um interesse que vai muito para lá das verbas disponíveis. A estabilidade garantida pela maioria absoluta melhora a percepção de risco no exterior. O país pode ter uma oportunidade única para dar um salto na sua competitividade.

 

Tudo isto será mais fácil se o próximo Governo enterrar a modorra conformista de António Costa e apresentar um Governo e um programa eficazes e realistas. E se começar a pensar desde já em receitas para aplacar os mais que certos impactes negativos da inflação.

 

Tratando-a e às taxas de juro como uma espécie de esqueleto no armário não será um bom começo. Está, pois, na hora de alargar o debate sobre as vulnerabilidades da oposição parlamentar ou sobre a margem de manobra do Presidente. Há temas menos entusiasmantes, mas bem mais importantes para o futuro próximo.

 

tp.ocilbup@ohlavrac.leunam

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