EDITORIAL
Inflação, o esqueleto no armário
É hora de alargar o debate sobre as vulnerabilidades da
oposição parlamentar ou sobre a margem de manobra do Presidente para temas
menos entusiasmantes, mas bem mais importantes para o futuro. Como o da
inflação
Manuel Carvalho
3 de Fevereiro de
2022, 21:30
https://www.publico.pt/2022/02/03/economia/editorial/inflacao-esqueleto-armario-1994225
O Governo previa
gastar em 2022, com os encargos da dívida, 5,1 mil milhões de euros.
Exactamente, quase um terço das verbas do Programa de Recuperação e
Resiliência, tantas vezes apresentado como a varinha mágica para os problemas
do país. Até agora, essa pesada factura resultante de uma das dez maiores
dívidas do mundo em percentagem do PIB tem sido acomodada sem dramas de maior.
Mas há ao virar da esquina um fantasma que assombra o próximo Governo: o da
inflação.
Christine
Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, reconheceu esta quinta-feira que,
afinal, a inflação não vai ser um fenómeno passageiro, uma mera consequência
conjuntural da recuperação no pós-pandemia. E, sem o dizer abertamente, deixou
claro que, mais tarde ou mais, cedo as taxas de juro vão subir. Durante os
próximos meses, a gestão até agora prudente e engenhosa da brutal dívida
pública salva o país de grandes encargos. Mas, a prazo, os custos podem
tornar-se uma dor de cabeça.
Não quer isto
dizer que a próxima equipa das Finanças e o primeiro-ministro tenham de
enfrentar um cenário próximo dos anos de chumbo da troika ou do final do
Governo Sócrates. Para lá das nuvens sombrias da inflação e das taxas de juro,
há boas notícias: os resultados da execução orçamental de 2021 indicam que o
regresso para breve das regras apertadas do pacto de estabilidade europeu não
serão um problema de maior. A menos que as previsões sobre o crescimento
derrapem.
Mas também aqui
há notícias favoráveis: Portugal melhorou a sua posição no radar do
investimento estrangeiro. No ano passado, e apesar das incertezas da pandemia,
conseguiu atrair mais de três mil milhões de euros de investimento. Os
programas do PRR estão a suscitar um interesse que vai muito para lá das verbas
disponíveis. A estabilidade garantida pela maioria absoluta melhora a percepção
de risco no exterior. O país pode ter uma oportunidade única para dar um salto
na sua competitividade.
Tudo isto será
mais fácil se o próximo Governo enterrar a modorra conformista de António Costa
e apresentar um Governo e um programa eficazes e realistas. E se começar a
pensar desde já em receitas para aplacar os mais que certos impactes negativos
da inflação.
Tratando-a e às
taxas de juro como uma espécie de esqueleto no armário não será um bom começo.
Está, pois, na hora de alargar o debate sobre as vulnerabilidades da oposição
parlamentar ou sobre a margem de manobra do Presidente. Há temas menos
entusiasmantes, mas bem mais importantes para o futuro próximo.
tp.ocilbup@ohlavrac.leunam
Sem comentários:
Enviar um comentário