EDITORIAL
Uma escolha entre o prémio e o castigo
Não faz sentido afirmar que a deliberação da maioria
contra a escolha de um vice-presidente do Chega será um manifesto de
intolerância ou um sintoma de falta de democracia
Manuel Carvalho
4 de Fevereiro de
2022, 21:30
https://www.publico.pt/2022/02/04/politica/editorial/escolha-premio-castigo-1994359
A democracia
exerce-se pela vontade da maioria, mas a imposição irrestrita dessa vontade dá
origem a democracias iliberais ou a autoritarismos eleitos. O debate sobre a
possibilidade de o Chega eleger um vice-presidente da Assembleia da República
pode incluir-se na ténue zona cinzenta que separa esses dois mundos. Abre um
problema à democracia que só a democracia pode resolver.
O Chega é um
partido que, não recusando os formalismos democráticos, contesta os valores da
democracia: respeito pela dignidade de todos, protecção das minorias, o combate
ao racismo, à xenofobia, etc.. Um partido que desdenha a democracia parlamentar
e propõe uma nova República dirigida por um caudilho. Mas deve a democracia
criar uma barreira que o exclua de funções na Assembleia?
Há bons
argumentos entre os que dizem que sim, como há explicações atendíveis entre os
que dizem que não. Como sempre acontece quando se discutem problemas novos, a
falta de experiência e de conhecimento é propensa a criar dúvidas. Porque,
esteja-se em que posição se estiver, há riscos a considerar. Normalizar um
partido populista cedendo-lhe cargos no Parlamento tem consequências;
ostracizar esse partido, criando condições para a vitimização, também as terá
certamente.
É no seio destas
dúvidas que se deve regressar ao regimento da assembleia. Em nenhuma parte é
referido que o terceiro partido mais votado tem direito natural a uma
vice-presidência. O que o regimento determina é a possibilidade de indicação de
um nome para ser sujeito a votação. A partir daqui, entramos no domínio
essencial da democracia: cada deputado vota nomes de acordo com os seus valores
e ideias e o que prevalece é a decisão da maioria.
Faz sentido que o
PSD e o PS concedam liberdade de voto aos seus deputados. Como faz sentido que
o partido A ou B diga se vota a favor ou contra. Já não faz sentido afirmar que
a deliberação da maioria contra a escolha de um vice-presidente do Chega será
um manifesto de intolerância ou um sintoma de falta de democracia. Ou, ainda,
defender que o Chega merece um “vice” em nome de uma tradição – como se
houvesse uma longa experiência de convívio parlamentar com a direita
anti-sistema.
Por necessidade
de limitar o protagonismo do Chega ou por se pensar que dar-lhe um
vice-presidente é o menor dos males, deixe-se a vontade maioritária do
Parlamento decidir. Se, como se espera, a direita populista ficar sem cargos de
maior na AR, não tem de que se queixar: será apenas a democracia a recusar o
veneno que o Chega lhe quer injectar. O Parlamento alemão e o Parlamento
Europeu seguiram esse caminho e não há sinais de que a democracia tenha ficado
diminuída com essa obstinada recusa em dar a mão aos seus inimigos.
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