sábado, 5 de fevereiro de 2022

Reflexões sobre a oposição e os seus dadas

 



Reflexões sobre a oposição e os seus dadas

 

“Un homme qui n’a pas de dada ignore tout le parti qu’on peut tirer de la vie. Un dada est le milieu précis entre la passion et la monomanie.” Balzac, Autre Étude de Femme, 1842

 

José Pacheco Pereira

5 de Fevereiro de 2022, 0:13

https://www.publico.pt/2022/02/05/opiniao/opiniao/reflexoes-oposicao-dadas-1994360

 

1. A ironia da actual situação pós-eleitoral é que os partidos que com mais veemência criticavam o “socialismo”, a “venezuelização”, a “ditadura do PS” e outros qualificativos cheios de horror com António Costa estão muito mais contentes com o desastre do PSD e a eventual queda de Rui Rio do que preocupados com a maioria absoluta do PS. Aliás, basta ler a comunicação politicamente mais radical nas suas críticas ao poder socialista, o Observador, o Nascer do Sol, o Novo, e a extensão crescente destes núcleos de opinião por muitos mais jornais, rádios e televisões, etc., etc., os seus comentários editoriais, as suas escolhas de entrevistas, os seus comentadores, para perceber uma enorme indiferença para com a maioria absoluta socialista, contrastando com uma muito mal disfarçada excitação e alegria com o estado do PSD, e com a perspectiva de se verem livres de Rui Rio.

 

2. Como corolário dessa indiferença versus excitação expectante está o tratamento apologético dos novos partidos radicais que entraram na Assembleia, que trouxeram “juventude”, mobilização, dinamismo e uma “nova”, e presumida mais eficaz, oposição. Esta apologética é mais evidente com a IL, o novo dada da política portuguesa, substituindo nesse papel o BE, já há algum tempo caído em desgraça comunicacional.

 

3. A atitude destes sectores face ao Chega é igualmente muito mais simpática, abatendo-se ou esbatendo-se quase todas as chamadas “linhas vermelhas”, exactamente onde elas tinham sentido, no plano político e programático. O Chega tinha e tem sempre uma desvantagem face ao forte preconceito social que impregna toda a vida política portuguesa desde sempre: são demasiado “de baixo”, demasiado grosseiros, não sabem comer à mesa, enquanto os elegantes modernos da Iniciativa Liberal sabem.

 

 

4. Estes preconceitos atingiram também Francisco Rodrigues dos Santos, independentemente do julgamento sobre as suas políticas. Foi algo de que ele se queixava com razão face à cultura dos “senhoritos” do CDS.

 

5. Para além desta Schadenfreude com o PSD e Rio, há também um outro contentamento destes sectores com o “encolher” do BE e do PCP, de novo desigualmente motivada. Com o BE, há uma espécie de vingança fracturante perante o espelho inverso, o radicalismo de uns era naturalmente hostil ao radicalismo dos outros. Como se irá ver na Assembleia, o Chega vai propor uma agenda fracturante inversa, nas matérias que um dos novos deputados, Gabriel Mithá Ribeiro, tem defendido com uma clareza pouco habitual: valorização da ordem, da autoridade e da hierarquia, da família e da nação, combate ao valor da “solidariedade” trazido pelo 25 de Abril, entendido como secundário face à “auto-responsabilidade”, reabilitação da história colonial portuguesa.

 

6. Com o PCP é algo de natureza diferente, vai mais longe e mais fundo e passa muito para além do PCP. Vai para os sindicatos, para os direitos laborais, para as greves, para o mundo do trabalho. Aqui será a IL, como partido representante dos interesses de certo empresariado, antigo e novo, que vai tomar a dianteira. Os seus mentores pouco querem saber das causas dos “brutos” do Chega, mas sabem quem os obriga a ter essas coisas “iliberais” como contratos de trabalho, horários, dificuldades em despedir, condições de trabalho, pagamento de impostos e regulação. Isso é, como se via no papel de propaganda disfarçada de Autoridade Tributária, comunismo. E se pensam que estas ideias são apenas do velho patronato, estão enganados: são de forma mais sofisticada dos novos yuppies das start-ups.

 

7. Como é que depois de uma clamorosa derrota face à “esquerda” e ao “socialismo” existe este contentamento? A resposta, de que eles não gostam, é que se deu e está a dar um processo de radicalização das direitas e, por isso, o resultado mais importante das últimas eleições para eles são os deputados da IL e do Chega e, muito mais decisivo, é que o PSD está outra vez “a saque”. Um dos aspectos do radicalismo é que é melhor estar confortável na sua casa de palavras e acções, cheia de espelhos amáveis, mesmo que seja mais pequena. Quero lá saber do Costa para alguma coisa, do PS, do “socialismo”, passou a haver mais dos “meus”, trocamos sinais de pertença, falamos com a mesma língua, podemos ir aos touros sem má consciência, tratar mal as mulheres em nome da “autoridade” e da “família”, ou dissertar sobre como os “países liberais são os mais ricos”, que é uma falsidade, mas sabe bem com este gin tónico ou whisky de malte, ou seja, tudo bem, não podia ter havido melhor resultado.

 

O autor é colunista do PÚBLICO

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