quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Três grandes enganos sobre a noite eleitoral

 



OPINIÃO

Três grandes enganos sobre a noite eleitoral

 

Como numa bela tragédia shakespeariana, no ano da graça de 2022 António Costa assassinou sem dó nem piedade aqueles que lhe salvaram a vida em 2015.

 

João Miguel Tavares

3 de Fevereiro de 2022, 0:36

https://www.publico.pt/2022/02/03/opiniao/opiniao/tres-enganos-noite-eleitoral-1994080

 

Há três grandes enganos sobre a noite eleitoral que convém desmontar. Engano número 1: António Costa ganhou em toda a linha. Não ganhou. O PS perdeu muitos votos para a direita, nomeadamente para Rui Rio. A votação no PSD subiu 120 mil votos. A votação no PS subiu 338 mil. Juntos, o Bloco, o PCP e o PAN perderam 448 mil votos, apesar do aumento da participação eleitoral (mais 140 mil votantes em relação a 2019, uma subida de 2,7%, sem contar com os círculos de emigração). Descontemos a estes 448 mil os 12 mil votos que o Livre conquistou a mais em relação a 2019. Isso significa que o PS teve à sua disposição 436 mil votos perdidos pela esquerda, mais uma parte significativa do crescimento na população eleitoral (imaginemos 40%, 56 mil votos). Isso dá perto de meio milhão de votos a entrar no PS pela esquerda. Mas a subida foi só de 338 mil. Logo, António Costa teve pelo menos 160 mil votos a saírem pelo centro-direita.

 

Na verdade, foram muitos mais, porque a direita do PSD (Chega e Iniciativa Liberal) cresceu 520 mil votos em relação a 2019, e o CDS apenas perdeu 135 mil. Mesmo descontando os 2,7% de crescimento dos votantes, isto significa que Chega e IL tiveram de ir buscar 375 mil votos a algum lado. Onde? É impossível saber com rigor, claro. Alguns poderão ser do PCP e do Bloco, mas muitos mais serão do PSD. Donde, se o PSD, apesar do brutal crescimento à sua direita, ainda assim viu aumentar a sua votação em relação a 2019, Rui Rio teve de ir buscar muitos votos ao centro e ao PS. Pergunta do milhão de bazucas: então como é que o PS conseguiu atingir a maioria absoluta? Simples: o espantoso feito socialista de domingo foi totalmente produzido à custa da destruição da sua esquerda. Como numa bela tragédia shakespeariana, no ano da graça de 2022 António Costa assassinou sem dó nem piedade aqueles que lhe salvaram a vida em 2015.

 

Engano número 2: O PS vai deslocar-se para o centro. Não vai. A razão matemática está exposta nos dois parágrafos anteriores, e a razão política é esta: o PS precisa de fixar os (e agradar aos) ex-eleitores do Bloco e do PCP, porque foram eles, e só eles, que lhe ofereceram a maioria absoluta nestas eleições. Quem estiver à espera de que António Costa altere a sua narrativa, e guine à direita, mais vale esperar sentado. Claro que o PS tem agora campo aberto para, na retaguarda da Assembleia da República e nos rodapés do Diário da República, ir impondo a sua austeridade silenciosa. Mas sempre que os microfones estiverem abertos e as câmaras por perto, António Costa garantirá que palavra dada é palavra honrada, e que as convicções da sua terceira legislatura são iguaizinhas às da primeira. Não admira: ele receia muito mais a contestação de rua à esquerda do que o confronto parlamentar à direita.

 

Engano número 3: O poder de Marcelo ficou reduzido. Só se ele quiser. Embora Marcelo vá ser o primeiro Presidente da República da nossa democracia a conhecer um só primeiro-ministro ao longo dos seus dois mandatos em Belém, nada obriga que esta relação umbilical seja marcada pela impotência. Basta recordar Mário Soares entre 1987 e 1995: duas maiorias absolutas de Cavaco Silva, sem que ninguém possa dizer que tenha sido um Presidente da República manso, manietado ou morno. Bem pelo contrário. Com António Costa em modo todo-poderoso, Marcelo pode divertir-se no papel de contrapoder, sem sequer correr o risco de pagar um preço demasiado elevado pelas suas maldades.

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