OPINIÃO
O PSD e o futuro
O futuro do PSD passa seguramente por uma nova estratégia
para a acção, um novo perfil para a comunicação e uma nova rede para a
interacção.
Paulo Rangel
3 de Fevereiro de
2022, 6:01
https://www.publico.pt/2022/02/03/politica/opiniao/psd-futuro-1994087
1. Os resultados
do PSD nas eleições de 30 de Janeiro configuram uma séria derrota política que
não deve ser tomada apenas pelo seu valor facial. Se é certo de que nada
adianta chorar sobre leite derramado, é fundamental ler os sinais políticos
dados pelos portugueses. Para lá da rejeição de uma governação do PSD, ocorreu
uma alteração substancial da paisagem político-partidária. Há, por isso, novos
desafios e novos reptos para o PSD; uma reflexão e um debate profundos a fazer.
Mas há também uma agenda política que prossegue e que o PSD não pode nem deve
descurar.
2. Muitos são os
que sublinham que o PSD deve repensar a sua identidade e o seu posicionamento
político. Alguns agitam até o fantasma de uma crise existencial. Julgo que
estão errados. Olhando ao código genético e à constância da praxis política, o
PSD não enferma de um problema de identidade ideológica. O PSD perfilhou sempre
uma base programática que ficou conhecida como a social-democracia portuguesa.
Essa identidade ideológica aposta na centralidade da pessoa, na liberdade, na
autonomia e no dinamismo da sociedade civil e do mercado, na realização
permanente da equidade social. O PSD foi sempre um defensor do primado da
pessoa e da economia social de mercado. Opôs-se a uma sociedade estatista e
colectivista e, por isso, foi e é um partido liberalizador, rejeitando porém o
liberalismo puro ou selvagem que secundariza as preocupações sociais.
3. Não me parece
também que o PSD deva rever o seu tradicional posicionamento no espectro
político. O PSD foi sempre um partido capaz de agregar o espaço que vai do
centro-esquerda até à direita moderada. Não se deve, pois, ter medo das
palavras: o PSD é um partido do centro-direita, que junta correntes provindas
de uma inspiração plural (sociais-democratas, liberais, democratas-cristãos,
conservadores). Esta qualificação corresponde aliás à posição relativa do PSD
no leque partidário e que é consensualmente adoptada por todos os que não fazem
parte do PSD. Neste sentido, uma deriva que ignore esta matriz de
centro-direita e que hostilize a direita moderada está em contradição com o
código genético e com a história do partido. É óbvio que para vencer eleições,
o PSD tem sempre de ser capaz de conquistar o centro político (ao qual pertence
naturalmente) e para obter maiorias absolutas terá de chegar a franjas do
centro esquerda. Numa palavra, o PSD é o grande partido histórico do espaço não
socialista e é esse posicionamento que deve adoptar e honrar.
O debate ainda mal começou, mas, ao contrário de muitos,
não acho que se inicia agora a época das trevas. Tenho absoluta confiança que o
PSD tem futuro e futuro radioso.
4. Tudo isto
serve para dizer que as questões da identidade (ideológica) e do posicionamento
(político-partidário) não são os grandes reptos dos anos difíceis que se
adivinham. Os grandes desafios põem-se, isso sim, do lado da praxis política,
da prestação política e da renovação do partido. É caso para dizer que o tempo
está para “arregaçar as mangas” e “pôr mãos à obra”! É, por isso, no terreno da
acção, da comunicação e da interacção com a sociedade civil e a opinião pública
que se joga o relançamento do PSD. O que não impede, antes exige, a renovação
programática, onde ela se revele necessária.
5. O primeiro
desafio, directamente confiado pelo povo, é liderar a oposição de um modo
visível, afirmativo, construtivo. Liderar a oposição, em contexto de maioria
absoluta, é um imperativo democrático. Olhando para a inovação da IL, para a
agressividade do Chega ou para o regresso da oposição da esquerda radical, vai
ser uma tarefa muitíssimo exigente. A liderança do PSD e o novo grupo
parlamentar terão todas as condições para conduzir com êxito este processo fora
e dentro do Parlamento. Devemos apostar na reintrodução dos debates quinzenais,
que asseguram a presença do escrutínio parlamentar no espaço público.
6. O segundo
desafio é religar ao partido à sociedade civil e aos seus sectores mais vivos e
dinâmicos, residam dentro ou fora de fronteiras. Apesar da experiência positiva
do Conselho Estratégico Nacional, o PSD precisa de investir de novo nas
ligações à ciência e à cultura, às escolas, às empresas, aos parceiros sociais,
às igrejas, às instituições de solidariedade, aos grupos e causas de todo o tipo.
O PSD tem de ter uma estratégia programática, discursiva e organizacional para
cativar e mobilizar as gerações jovens e para reganhar a confiança das gerações
mais seniores. Dois nichos geracionais em que precisa de ganhar massa crítica.
7. O terceiro
desafio é o da renovação do partido, seja em termos de novos rostos, seja em
termos de organização e funcionamento. A comunicação política da era digital
tem de ser uma prioridade na reforma das estruturas e da organização do PSD. A
capacidade de recrutamento de novos quadros, capazes de representar a sociedade
actual e de fazer a ligação ao tecido humano e social, é condição essencial
para a afirmação de um projecto político moderno, atraente, potencialmente
vencedor.
8. O debate ainda
mal começou, mas, ao contrário de muitos, não acho que se inicia agora a época
das trevas. Tenho absoluta confiança que o PSD tem futuro e futuro radioso. Mas
o futuro do PSD passa seguramente por uma nova estratégia para a acção, um novo
perfil para a comunicação e uma nova rede para a interacção. Só assim o PSD
estará de novo enraizado no país e sintonizado com os portugueses.
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