quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Vivemos o sexto Janeiro mais seco desde 1931

 


SECA

Vivemos o sexto Janeiro mais seco desde 1931

 

Um anticiclone de bloqueio está a afastar a chuva de Portugal e deixou já 45% do país em situação de seca severa ou extrema. Há o risco de os incêndios florestais começarem mais cedo.

 

Clara Barata

2 de Fevereiro de 2022, 18:47

https://www.publico.pt/2022/02/02/ciencia/noticia/vivemos-sexto-janeiro-seco-desde-1931-1994067

 

O mês de Janeiro de 2022 foi o sexto Janeiro mais seco desde 1931, disse ao PÚBLICO Vanda Cabrinha, da Divisão de Clima e Alterações Climáticas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). “Mesmo nestes últimos 20 anos, este Janeiro foi o segundo mais seco, atrás de 2005, que foi igualmente um ano de seca”, completou a cientista.

 

O resultado é que em Janeiro, 34% do território português estava em seca severa e 11% em seca extrema. Só 1% do país estava em seca fraca, enquanto 54% está em seca moderada, explicou Vanda Cabrinha, que é a autora de relatório de avaliação das condições meteorológicas datado de 27 de Janeiro.

 

O valor de precipitação acumulado desde o início do ano hidrológico de 2021/2022 – em Outubro – é inferior ao valor médio do período 1971-2000 e mesmo ao de 2020/2021, que já ficou um pouco abaixo da média. Em todos os distritos, a precipitação é apenas cerca de 25% do valor médio normal, diz o relatório. O resultado é que neste momento, estamos com uma diferença na precipitação, em relação ao ano passado, de 255 milímetros por metro quadrado. Isto é algo que ainda é possível recuperar até ao fim do Inverno?

 

“Possível é, mas vai depender da precipitação que ocorrer, e neste momento as previsões, pelo menos para o mês de Fevereiro, dão-nos valores muito abaixo do que é normal para este mês”, responde Vanda Cabrinha. “Para Março também já há alguns indicadores abaixo do normal e a cada mês que passa, tendo em conta que começamos a ir da Primavera para o Verão, em que por norma os valores da precipitação já são mais baixos, a situação pode ficar mais complicada”, conclui.

 

A origem desta seca é um anticiclone de bloqueio, que está a impedir a chegada de chuva a Portugal. “Chamamos-lhe mesmo de bloqueio, porque impede a passagem das depressões e superfícies frontais, que acabam por passar mais a Norte”, explica Vanda Cabrinha. “Por norma, no Outono-Inverno, o anticiclone tende a estar em latitudes mais baixas e, portanto, permite essa passagem das depressões em Portugal continental. Quando ele fica estacionário, faz com que haja esta ausência de precipitação. E por vezes isto dura algum tempo”, completa.

 

Este anticiclone num sítio inconveniente não é algo que, para já, se possa ligar directamente às alterações climáticas, explica a cientista. “Mas o que acaba por ser é que estes períodos secos, sejam eles associados a estas anticiclones, ou a outras situações de circulação da atmosfera, serão cada vez mais frequentes. E os cenários para as alterações climáticas apontam de facto para o aumento destes fenómenos extremos, e já estamos a ter esse aumento de frequência”, diz Vanda Cabrinha. “É verdade que nestes últimos anos, eu diria desde 2000, tem havido uma maior frequência destas secas de Outono-Inverno, que é o período das chuvas, na nossa região: houve em 2005, 2012, 2017, agora esta novamente.”

 

O seu impacto alarga-se a uma região mais vasta: “Espanha, sobretudo a parte Sul, e a região junta à nossa fronteira, também está com situação de seca. Eles também têm feito alguns boletins, onde mostram que estão a passar uma situação mais complicada”, diz Vanda Cabrinha.

 

Na agricultura já se começam a fazer sentir os efeitos da seca. “Temos um indicador de água no solo e realmente os valores estão muito abaixo daquilo que é normal, sobretudo na região Sul, e também na região Nordeste do território, a região de Trás-os-Montes”, diz a cientista.

 

Mas os incêndios florestais são outro motivo de preocupação. “Este ano podem começar mais cedo do que nos anos anteriores, tendo em conta que temos o solo muito seco, e os valores da temperatura máxima têm sido acima do que é normal. As noites estão frias, mas durante o dia até estão temperaturas bastante amenas para esta época do ano”, diz Vanda Cabrinha. O vento é outro factor a contribuir para esta situação perigosa: “É um vento de Leste, um vento seco, não transporta nenhuma humidade. É um vento mesmo continental. Portanto, estão criadas aqui condições para poderem ocorrer incêndios”, salienta.

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