terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Nasce Marcelo III, o tutor da maioria absoluta

 


ELEIÇÕES LEGISLATIVAS 2022

Nasce Marcelo III, o tutor da maioria absoluta

 

Miguel Poiares Maduro acha que o facto de António Costa ter utilizado o argumento da “vigilância” do Presidente da República para descansar os portugueses sobre uma maioria absoluta do PS agora “dificulta muito que não [se] preste atenção ao que Marcelo Rebelo de Sousa disser publicamente”.

 

Ana Sá Lopes

1 de Fevereiro de 2022, 6:00

https://www.publico.pt/2022/02/01/politica/noticia/nasce-marcelo-iii-tutor-maioria-absoluta-1993800?ref=hp&cx=stories_featured_t_tt--507490&ref=hp&cx=stories_featured_t_tt--507490

 

Começa uma nova fase do mandato do Presidente da República. Depois de ter chegado a Belém com um recém-empossado primeiro-ministro António Costa, com o apoio da “geringonça” de 2015, após ter assistido à vitória de Costa sem maioria em 2019, arranca uma etapa inédita na presidência de Marcelo Rebelo de Sousa: ser chefe de Estado em tempos de maioria absoluta.

 

Ao receber nesta terça-feira os partidos no Palácio de Belém, Marcelo pode ter imaginado (como muita gente) que a sua influência seria determinante para um qualquer “acordo de cavalheiros” PS-PSD, a que de resto já tinha aludido no discurso em que anunciou a dissolução da Assembleia da República, quando lembrou que uma das soluções de governabilidade passava pelo segundo partido mais votado apoiar o Governo do primeiro, exemplificando com o que ele próprio, enquanto líder do PSD, tinha feito com o primeiro-ministro António Guterres.

 

Mas, com a maioria absoluta do PS, as audições acabarão por ser actos meramente protocolares. Os encontros do Presidente começam nesta terça-feira às 15h com o Livre, seguindo-se o PAN, o Bloco de Esquerda e o PCP; na quarta-feira, Marcelo recebe a Iniciativa Liberal, o Chega, o PSD e o PS. Naturalmente, convidará o PS a formar Governo.

 

“Mais responsabilidades”

Miguel Poiares Maduro, ex-ministro e professor de Ciência Política, acha que, se a maioria absoluta liberta Marcelo do “ónus de ser o garante da estabilidade”, “dá-lhe mais responsabilidades no escrutínio do executivo assente numa maioria absoluta”, nomeadamente a obrigação de “controlo de uma certa ‘mexicanização’ do regime”. Poiares Maduro lembra que, quando esta legislatura chegar ao fim, em 2026, o PS terá estado “em 31 anos, 25 no poder”.

 

O ex-ministro acredita que o papel do Presidente na prevenção de eventuais abusos da maioria absoluta vai ser “fundamental” e que o poder da palavra “não é pouco”. Há outros poderes – Marcelo não é obrigado a nomear o presidente do Tribunal de Contas, tal como fez recentemente, quando o Governo insistiu em substituir o anterior titular do cargo. E argumenta com o papel que teve Soares, no segundo mandato, na sua vigilância à segunda maioria absoluta de Cavaco Silva: “O segundo mandato de Mário Soares desgastou politicamente Cavaco Silva.”

 

Miguel Poiares Maduro acha que o facto de António Costa ter utilizado o argumento da “vigilância” do Presidente da República para descansar os portugueses sobre uma maioria absoluta do PS agora “dificulta muito que não [se] preste atenção ao que Marcelo Rebelo de Sousa disser publicamente”.

 

O ex-ministro alerta ainda que, durante a legislatura que agora irá começar, Marcelo pode vir a confrontar-se com o mesmo problema que Jorge Sampaio teve de enfrentar em 2004. “Se António Costa optar por abandonar o Governo para ir para um cargo europeu, Marcelo Rebelo de Sousa fica colocado numa situação semelhante à de Jorge Sampaio.” Para já, Poiares Maduro argumenta que, “goste-se ou não do resultado eleitoral”, é certo que “há uma validação da decisão do Presidente de dissolver a Assembleia da República”. Ou seja, mais uma vez, e como aconteceu em todas as anteriores dissoluções parlamentares, não ficou tudo na mesma – como muitos temeram que viesse a acontecer se as eleições confirmassem a correlação de forças do Parlamento eleito em 2019.

 

“Poderes do PR diminuem”

Para o politólogo António Costa Pinto, “sob o ponto de vista formal, perante uma maioria absoluta de um só partido, é evidente que os poderes do Presidente da República diminuem em relação ao Governo e ao Parlamento”.

 

No entanto, António Costa Pinto não acredita que haja grandes mudanças nas relações entre Presidente e primeiro-ministro. “Não acredito que a relação entre Presidente da República e Governo se altere significativamente.” Afirma que “Marcelo vai continuar ora a demarcar-se, ora a ensaiar um modelo informal de influência política, ora a utilizar o seu modelo habitual discursivo”, não desistindo de continuar a bater-se por convergências. “Marcelo vai ensaiar modelos de convergência entre o Governo e o principal partido da oposição.”

 

António Costa promoveu Marcelo a “tutor” da maioria absoluta e esse facto “vai criar uma pressão sobre o Presidente da República, mas também sobre Costa”.

 

António Costa Pinto afirma que “não é do interesse de António Costa radicalizar-se”, uma vez que os desafios dos próximos quatro anos são difíceis: “António Costa já tem seis anos de governação, vai conhecer uma oposição à direita mais polarizada, vai ter conflitualidade social por parte das estruturas sindicais, numa conjuntura económica que se prevê difícil”, com o aumento da inflação que já se faz sentir.

 

O professor de Ciência Política do Instituto de Ciências Sociais acredita que, pelo menos nos primeiros tempos, Costa vai esforçar-se por esbater a arrogância que ficou colada às maiorias absolutas do passado: “Nos primeiros tempos, António Costa ensaiará um modelo de quase dissolução da maioria absoluta”, promovendo “negociação com partidos e acordos parlamentares à direita e à esquerda”. Na realidade, António Costa Pinto espera de Costa o que também espera de Marcelo: que ao ensaiarem “convergências” entre a maioria absoluta do PS e outros partidos, o peso do “poder absoluto” acabe institucionalmente diluído. Pelo menos para já.

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