OPINIÃO
Há guerras onde é muito fácil escolher o lado
Ando desertinho por saber o que é que André Ventura tem a
dizer sobre o tema, mas ele, que fala tanto, sobre o conflito russo-ucraniano
anda mais calado do que um rato.
João Miguel
Tavares
22 de Fevereiro
de 2022, 0:16
https://www.publico.pt/2022/02/22/opiniao/opiniao/ha-guerras-onde-facil-escolher-lado-1996310
Há guerras onde é
muito fácil escolher o lado – mas não para toda a gente. E o conflito na
Ucrânia é um desses casos. Ando desertinho por saber o que é que André Ventura
tem a dizer sobre o tema, mas ele, que fala tanto, sobre o conflito
russo-ucraniano anda mais calado do que um rato. Senhores jornalistas: mandem
lá umas perguntas para a sede do Chega, se faz favor. O país precisa de conhecer
o pensamento político de André Ventura em matérias internacionais. Porquê?
Porque o palco internacional é uma excelente prova do algodão acerca das
convicções democráticas de cada um e da definição do lado em que se está quando
a casa começa a arder.
Vejam o caso de
Marine Le Pen. A sua devoção ao senhor Putin não deixa margem para dúvidas.
Legitimou a anexação da Crimeia e defende que a França “deve manter a
equidistância entre os Estados Unidos e a Rússia”, em nome, claro, “da paz”.
Não faltam histórias do financiamento de partidos populistas de direita por
parte da Rússia, envolvendo Marine Le Pen ou Matteo Salvini. Nós sabemos que a
extrema-direita europeia adora o senhor Putin, e que Ventura adora a
extrema-direita europeia, logo, segundo as regras da propriedade transitiva,
Ventura deveria adorar – de forma mais ou menos declarada – o senhor Putin.
Este é o momento certo para ter a prova dessa devoção.
E sabem porque é
que eu queria ter essa prova? Maldade minha: queria muito ver a direita radical
e a esquerda radical portuguesas unidas no desígnio comum de defender o espaço
vital russo, contra as terríveis investidas do imperialismo americano. Como
seria de esperar, até porque levam muitos anos de avanço, o PCP e o Bloco de
Esquerda já andam a trabalhar nisso.
Queria muito ver a direita radical e a esquerda radical
portuguesas unidas no desígnio comum de defender o espaço vital russo, contra
as terríveis investidas do imperialismo americano
O vigilante
Avante! veio denunciar “a escalada do imperialismo contra a Rússia” com aquela
linguagem irresistível, muito 1950, que começa assim: “A obscena campanha
provocatória do imperialismo contra a Federação Russa intensificou-se
continuamente nas últimas semanas. A coberto da falsa e cínica afirmação de
defesa da Ucrânia, os EUA e a NATO…” Confesso que não consegui ler mais, porque
hoje em dia o Avante! é fechado a subscritores, e o site tem um botão que diz
“Compra o Avante!” – um truque ostensivamente capitalista, que me comoveu. Só
não comprei porque todos sabemos o que diz o PCP ainda antes de o dizer.
O Bloco, justiça
lhe seja feita, é um pouco mais imprevisível. Mas não no caso do conflito
russo-ucraniano. Catarina Martins veio relembrar que o seu partido deseja
Portugal fora da NATO, e Mariana Mortágua, quer na televisão, quer nos jornais,
apressou-se a acusar “os porta-vozes do Ocidente” de quererem “precipitar o
evitável” e de denunciarem “sem provas, a existência de agitadores russos na
Ucrânia”. Sim, Putin é um “autocrata”, mas o Ocidente é responsável pela “humilhação
económica e geopolítica que acompanhou o fim da URSS”. Portanto, esqueçam a
democracia, a soberania de um país que faz fronteira com quatro países da UE ou
as aspirações do povo ucraniano. Tudo se resume a uma “guerra económica” e de
“influências” patrocinada pela “indústria do armamento”, na qual “a Ucrânia é o
pretexto e o seu povo é a última preocupação”.
Nada como um
conflito internacional para revelar os corações radicais e aquilo que realmente
os move. Seja o ódio ao capitalismo e à América (à esquerda), seja o amor à
nação e à autoridade (à direita), há sempre alguma coisa que se sobrepõe ao
simples respeito pela democracia e pela liberdade.
O autor é
colunista do PÚBLICO
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