OPINIÃO
O torniquete que desgasta António Costa
Dois anos são uma imensidão e são-no ainda mais em
política.
São José Almeida
2 de Outubro de
2021, 7:22
https://www.publico.pt/2021/10/02/politica/opiniao/torniquete-desgasta-antonio-costa-1979538
Os resultados das
autárquicas trouxeram alterações no ambiente político e a sensação de mudança
iminente. O facto de o PS ter ganho as eleições ao conquistar a presidência de
149 câmaras, contra as 114 presidências do PSD, dá-lhe a vitória. Todavia, a
diminuição do número de câmaras que separam os dois partidos, que baixou de 63
para 38, e a importante e surpreendente vitória de Carlos Moedas, encabeçando a
coligação Novos Tempos, em Lisboa, deram ao PSD um novo ânimo e possibilitam
que a direita democrática volte a acreditar que pode construir um caminho que a
leve, de novo, ao Governo.
Essa mudança de
clima dá a Rui Rio condições para se recandidatar à liderança do PSD e aí
tentar permanecer. Assim como coloca Carlos Moedas no ranking de personalidades
do PSD que podem vir a ser líderes do partido e candidatos a primeiro-ministro.
É também verdade
que a derrota na capital e a perda de 12 câmaras, em relação ao recorde de 161
que tinha atingido em 2017, apresenta o PS como um partido fragilizado e que
poderá estar a entrar numa inversão de ciclo de crescimento e, assim, vir a
perder o poder governativo, a prazo mais ou menos curto. Isto quando o PS é
Governo há seis anos, sendo que os últimos 18 meses foram um desafio à
capacidade governativa devido à pandemia de covid-19.
Com este quadro
político geral é normal que o primeiro-ministro seja visto como um político e
um governante desgastado. Mas há, para além das razões políticas normais em
Portugal, um torniquete que desgasta António Costa e que move personagens
diversas.
Por um lado, o
Presidente da República age, em público ou através de informações que são dadas
do Palácio de Belém a jornalistas, de forma a desgastar a imagem do
primeiro-ministro. O caso mais recente tem que ver com a substituição do chefe
do Estado-Maior da Armada, Mendes Calado, pelo vice-almirante Gouveia e Melo.
Em que, em vez de se reunir com o primeiro-ministro e resolver a questão de
forma institucional, Marcelo Rebelo de Sousa optou por reivindicar o seu
estatuto, em declarações aos jornalistas, no final de uma cerimónia na Casa do
Artista, em Lisboa, e revelar a sua discordância em relação à decisão tomada
pelo Governo.
Só que este não
foi o primeiro momento. Basta lembrar que, ainda antes das eleições, numa
notícia baseada em informações do Palácio de Belém, o Expresso divulgou a
leitura que Marcelo Rebelo de Sousa fazia do Congresso do PS e em que era
anunciado o prazo de validade de António Costa como primeiro-ministro. A tese
de que António Costa deixa a liderança do PS em 2023 está, aliás, a
transformar-se num mantra de vários comentadores políticos, que parecem mais
apostados em prever o futuro do que em analisar o presente.
Dois anos são uma
imensidão e são-no ainda mais em política. É verdade que António Costa pode ou
não sair em 2023, mas só nesse ano a decisão pode ser tomada pelo agora
primeiro-ministro. É também evidente que, se António Costa dissesse, agora, o
que vai fazer no fim desta legislatura, estaria a anular-se e a perder toda a
autoridade como primeiro-ministro.
Mais: ninguém
sabe se o actual Governo cumpre o mandato. Não é possível dizer hoje se tal
acontece, embora se possa considerar pouco previsível que não cumpra, tendo em
conta o que se sabe agora. Mas António Costa até pode demitir-se antes devido a
um escândalo que envolva o Governo ou por uma crise económica que surja em
período de pós-pandemia. Basta pensarmos nas eventuais consequências que a
crise financeira da empresa chinesa Evergrande terá na economia mundial e,
logo, na europeia, para perceber a instabilidade e a turbulência em que a
economia pode entrar, como salientou Manuel Carvalho, em editorial no PÚBLICO.
O torniquete que
desgasta António Costa tem também actores internos no PS. É visível a
persistência de Pedro Nuno Santos em demarcar-se e alargar o seu espaço
político interno. Um objectivo legítimo e que não é, por si, minimamente
criticável. Pedro Nuno Santos é um protagonista político de primeira linha e
tem todo o direito a ter ambições de chegar à liderança do PS.
O que surge aos
olhos do país como invulgar e estranho é que Pedro Nuno Santos, ministro das
Infra-Estruturas e da Habitação, faça declarações aos
jornalistas disparando contra o ministro de Estado e das Finanças, João
Leão, responsabilizando-o pela demissão de Nuno Freitas da presidência da
CP. A imagem que transparece é a de que o primeiro-ministro não tem
autoridade e que os ministros se guerreiam em público através de declarações
aos jornalistas.
Caberá a António Costa saber libertar-se do torniquete que o desgasta e relançar-se na gestão governativa para o ciclo de dois anos que ainda tem de mandato, para depois decidir o que quer para a sua vida política. Ou deixar-se afogar enleado em polémicas estéreis e jogos de adi


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