OPINIÃO
Lost in translation
Tão ou mais premente do que a criação de um exército
europeu, é a existência de um canal público de televisão da União Europeia.
Graça Castanheira
3 de Outubro de
2021, 8:33
https://www.publico.pt/2021/10/03/opiniao/opiniao/lost-in-translation-1979545
Conhecemos mal a União de que fazemos parte e um canal de
notícias não basta
A larga maioria
das línguas faladas na União Europeia (UE) pertence à família indo-europeia, de
onde derivam as línguas germânicas, românicas, eslavas e célticas. O grego, o
lituano e o letão, apesar de línguas indo-europeias, não fazem parte de nenhuma
das ramificações principais. O húngaro, o finlandês e o estónio vêm do grupo de
línguas urálicas, e há ainda o maltês da família do árabe e do hebraico, com
influências italianas. Entende-se bem a dificuldade que a UE, palco de tantas
confluências, terá em se traduzir e dar a ver a si própria enquanto território
comum. Espantoso é que uma comunidade com esta diversidade e que se quer unida
tenha por único órgão de informação vagamente seu, o Euronews, que, apesar
do esforço e por provável falta de meios, é mais conhecida pelo loop que faz
das notícias do que pelas notícias em si.
O projecto do
Euronews é ambicioso e merece apreço: trata-se de cobrir um território
atravessado por pelo menos 27 identidades e de o resumir e traduzir em breves
peças de reportagem. Como estratégia, o canal investe em dobragens, para nove
línguas da comunidade — faladas por vozes ora masculinas, ora femininas. É
sobreposta e assíncrona que a voz dos protagonistas dos principais
acontecimentos europeus chega aos espectadores.
Em Portugal,
porque no início da televisão saía mais barato legendar do que pagar a
locutores e atores, nunca se chegou a abandonar o dispositivo de legendagem e
ainda bem, vendo agora. A dobragem das vozes impede que se conheça quem fala,
os trejeitos, as hesitações, a convicção, o tom, a atitude geral; tudo o que é
possível ler no acto de falar aqui se perde. Quem é a dirigente do Partido
Verde alemão, como fala, como sorri, como se atrapalha, terá sentido de humor?
Apesar de tudo, é
no Euronews que temos acesso a aspectos que mais nenhum canal se dedica,
como as eleições na Lituânia, mas sem ouvirmos a voz de nenhum lituano.
Conhecemos os
países da Europa quando para lá viajamos mas não temos destes uma representação
imagética rica e diversa: o que sabemos sobre a paisagem alemã a não ser que
por detrás de qualquer campo verde espreita uma montanha?
Conhecemos mal a
União de que fazemos parte e um canal de notícias não basta: é fundamental
desenhar uma estação que englobe informação, cultura, ficção, documentário,
animação, reportagem e entretenimento — com produção europeia. Tão ou mais
premente do que a criação de um exército europeu, é a existência de um canal
público de televisão da União Europeia.
Poder-se-ia
chamar simplesmente canal Europa e aqui se deixam algumas sugestões de
programação. A começar pela exibição de séries: Bonusfamiljen (Netflix), série
sueca sobre uma família alargada que, apesar de igualmente delicodoce, é mais
interessante e próxima de nós do que a americana This Is Us; a série francesa
Hipocrates (FilmIn), que conseguiu a proeza de fazer a primeira ficção
verdadeiramente interessante passada num hospital e com um casting admirável.
Em programas de cultura discutem-se estas e outras séries, procurando conhecer
os criadores, as escolhas de conteúdos e os modelos de produção em campo.
Outros programas
culturais dão a conhecer o território, não de forma aérea ou turística, mas com
detalhe, estando nos espaços e com as pessoas. Pode dar-se o caso de ser um
programa sobre bolos: um, espantoso, que só existe em Valletta, outro de que
poucos têm a receita em Tallinn; importa ver os lugares e saber o que por lá se
come.
Um outro programa
destaca o projecto educativo Erasmus que será, na Europa, aquele que mais
derruba fronteiras, linguísticas e não só. Outra emissão dá conta de momentos
críticos da História da Europa, num passeio pelas turras do passado, muitas
ainda a ecoar no presente.
Em programas de
informação e debate, com a participação de comentadores e de políticos europeus
destacados, discutem-se questões internas: as assimetrias do salário mínimo nos
países da UE — um bom ponto de partida para discutir a coesão económica do
território. Seria interessante perceber porque optaram os três países
escandinavos por não fixar salário mínimo; que outras medidas vêm substituir
esta formulação?
Tão ou mais
premente do que a criação de um exército europeu, é a existência de um canal
público de televisão da União Europeia
Queremos, com
toda a certeza, ver neste canal europeu uma grande reportagem sobre o papel do
Estado social nos países nórdicos e sobre porque continuam estes a ficar em
primeiro nos índices de felicidade no mundo. Perceber até que ponto, numa
lógica win win, faria sentido trocar alguma da melancolia sulista por nacos de
felicidade nórdica.
O canal teria
também um programa sobre transição energética, expondo boas práticas que
ajudassem a saber separar medidas fidedignas do greenwashing praticado por um
grande e lamentável número de empresas europeias.
Uma rubrica dá a
conhecer os contextos sociais e políticos de jovens ativistas envolvidos na
justiça ambiental — outros tantos que não Greta Thunberg. Num programa
inteiramente dedicado à legislação, discute-se de forma aberta e acessível as
propostas de lei europeias sobre proteção de dados e a de limitações a
monopólios digitais.
Mas o canal,
naturalmente, teria também entretenimento: imaginemos que os países da União
eram instados a produzir localmente um programa do tipo I Love Portugal que,
depois de ligeiros ajustes de gosto, seria o formato eleito para ficarmos a
conhecer a cultura pop europeia. Teríamos assim oportunidade de perceber quem
na Europa compete com a simpatia de Vasco Palmeirim, bem como ficar a conhecer
o Carlão francês e a Carolina Deslandes da Finlândia.
É fundamental desenhar uma estação que englobe
informação, cultura, ficção, documentário, animação, reportagem e
entretenimento
Estes e outros
conteúdos da estação, para poderem circular de forma ágil, teriam de ser
maioritariamente legendados, reservando dobragens e traduções simultâneas para
situações em que tal se justificasse. Veja-se como a legendagem resolveu o
problema da internacionalização das peças de teatro: foi com uma versão
legendada de O Cerejal que Tiago Rodrigues abriu o Festival de Avignon ou que
Gus van Sant pôde vir a Lisboa produzir um espectáculo inteiramente falado e
cantado em inglês.
A legendagem tem ainda o benefício de nos expor a outras línguas, facilitando a aprendizagem das mesmas. Este canal, de recorte europeu, com uma sólida implantação digital, quando for criado, e deveria sê-lo em breve, poderá não ser como aqui o imagino, mas fica a ideia de uma televisão europeia de serviço público, sem a qual é provável que nunca consigamos passar de um grupo de desconhecidos em redor de uma moeda comu

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