domingo, 3 de outubro de 2021

Como manter a centralidade atlântica

 



OPINIÃO

Como manter a centralidade atlântica

 

A questão essencial é como tirar partido da força somada das duas maiores economias do mundo para conseguir preservar os padrões internacionais do comércio numa fase em que a pandemia obrigou a olhar para a globalização dos mercados de uma outra forma, porventura mais prudente.

 

Teresa de Sousa

3 de Outubro de 2021, 6:06

https://www.publico.pt/2021/10/03/opiniao/opiniao/manter-centralidade-atlantica-1979682

 

1. António Costa aproveitou uma intervenção no Fórum La Toja, na Galiza, sobre o futuro da Europa para esclarecer em meia dúzia de frases onde se situa Portugal no debate europeu em torno das relações transatlânticas, nomeadamente no domínio da segurança e defesa. Esta parte da sua intervenção teve pouca repercussão nacional — outros assuntos como as minas de lítio e a cooperação transfronteiriça ocuparam quase todos os destaques —, mas ela surge num momento em que várias capitais europeias deram sinais idênticos.

 

Vamos então ao discurso. Logo no início, o primeiro-ministro começa por dizer que, quanto mais forte for a União Europeia, “mais relevante será também para os Estados Unidos e para outros parceiros”. O que não faz sentido, acrescenta, é ser forte para sobreviver sozinha num mundo multipolar ou “ao serviço das prioridades de alguns dos seus Estados-membros”.

 

É nessa perspectiva, diz ainda o primeiro-ministro, que deve ser vista a sua autonomia estratégica. No domínio particular da segurança e defesa, precisa de aumentar as suas capacidades, “mas não numa lógica de isolamento ou de duplicação de meios em relação à NATO”, antes para reforçar “o elo transatlântico e não o seu esvaziamento (…)”.

 

Lembra ainda que o “Brexit” enfraqueceu a vertente atlântica da União Europeia e que os sucessivos alargamentos acentuaram a sua dimensão continental, ao mesmo tempo que a China desviou o olhar dos EUA mais para o Pacífico, como ficou provado com a acelerada saída do Afeganistão e a nova aliança com o Reino Unido e a Austrália. “A União Europeia não deve reagir a esse movimento com a sua própria retracção, fechando-se sobre si própria ou tornando-se prescindível enquanto parceiro e aliado”. Como? Combatendo o isolamento europeu, mantendo a sua abertura ao mundo e tentando reforçar a centralidade atlântica — valorizando a importância não apenas do Atlântico Norte, mas também da sua parte Sul.

 

Em ambas as dimensões, António Costa pensa que há um papel a desempenhar pelos dois países ibéricos. Pela sua vocação universal e pelos laços que mantêm com a África Ocidental e com a América Latina, mas também porque podem funcionar como “importante porta de entrada na Europa das rotas de abastecimento energético, do comércio internacional marítimo e da conectividade digital”.

 

Dá dois exemplos. É em Sines que se encontra amarrado o “EllaLink”, a primeira ligação digital de alta velocidade por cabo submarino entre a América do Sul e a Europa para a transmissão e armazenamento de dados; Sines e os portos da Galiza estão a funcionar como plataforma para a importação de gás natural liquefeito dos EUA, “contributo importantíssimo para a diversificação e segurança energética da Europa”, reduzindo a dependência em relação à Rússia.

 

Por outras palavras, redescobrir alguma centralidade do Atlântico “é a melhor forma de fazer face à alteração do equilíbrio de poder no mundo, no qual alguns países se vêm tornando cada vez mais assertivos, combinando formas de poder económico com força diplomática, militar e tecnológica”. Não menciona quais, mas a China é sem qualquer dúvida um dos visados. A conclusão é simples: “Não existe alternativa duradoura ao bloco euro-atlântico”, que é “um pilar insubstituível da defesa da democracia, da segurança, da estabilidade e da prosperidade global”.

 

2. No outro extremo da Europa, em Helsínquia, o Presidente Sauli Niinisto aproveitou um seminário organizado pelo Instituto de Assuntos Internacionais para dizer que o seu país vai prestar particular atenção à Aliança Atlântica, mantendo aberta a perspectiva de adesão. Na mesma intervenção, o Presidente finlandês elogiou a “densa rede” de parcerias de defesa com os outros países nórdicos, os EUA, mas também com a França e o Reino Unido.

 

A Finlândia ainda é um país oficialmente neutral, que tem uma fronteira de 1300 quilómetros com a Rússia — a maior de qualquer outro país da União Europeia. O seu passado de luta pela independência ameaçada pelo seu grande vizinho de Leste ensinou-lhe que tem de estar sempre preparada para o pior. A contínua pressão militar de Moscovo sobre repúblicas bálticas e a operação que a NATO mantém na região para garantir a sua segurança, levaram-na agora a dar mais um passo, que aliás, não é único. Suécia, Dinamarca e Noruega assinaram na sexta-feira mais um acordo de cooperação no domínio da defesa, em resposta à crescente tensão com a Rússia no Báltico.

 

Perante a crise nas relações transatlânticas em resultado da saída abrupta do Afeganistão e do reforço americano das suas alianças na região do Indo-Pacífico, houve a necessidade de alguma clarificação dos aliados europeus, que acabou por ser útil para desanuviar o ambiente e ajudar a esclarece o lugar da Europa

 

Este acordo serve, em primeiro lugar, a vontade sueca de reforçar os seus laços militares com a NATO e, em particular, com os EUA, precisamente porque é o único dos três países que não pertence à Aliança. Este acordo torna-se necessário  para fazer frente à “predisposição” da Rússia de usar a força militar para atingir fins políticos, disse o ministro da Defesa de Estocolmo, Peter Hultqvist, durante a assinatura do acordo. A Suécia desmantelou parte do seu poderoso dispositivo militar com o fim da Guerra Fria. Está agora a fazer o caminho contrário. A Dinamarca demarcou-se publicamente do conflito aberto pelo AUKUS entre Washington e Paris.

 

Em resumo, perante a crise nas relações transatlânticas em resultado da saída abrupta do Afeganistão e do reforço americano das suas alianças na região do Indo-Pacífico, houve a necessidade de alguma clarificação dos aliados europeus, que acabou por ser útil para desanuviar o ambiente e ajudar a esclarece o lugar da Europa num mundo cada vez mais dominado pela competição entre grandes pólos de poder.

 

3. Entretanto, e apesar da sugestão francesa para um adiamento, manteve-se o calendário da primeira reunião do Conselho de Cooperação para o Comércio e a Tecnologia entre os dois lados do Atlântico, criado já durante a Administração Biden, que pode significar uma tentativa menos ambiciosa de relançamento da Parceria Transatlântica para o Investimento e o Comércio (o famoso TTIP), negociada no tempo de Obama para criar a maior e mais avançada zona de comércio livre do mundo — tinha na altura como objectivo ir mais longe do que a clássica redução de tarifas, incluindo a compatibilização de standards. A diferença é que estas negociações recomeçam num clima de maior tentação proteccionista do lado de lá do Atlântico.

 

A reunião decorreu como estava previsto em Pittsburgh (Pensilvânia) nos dias 29 e 30 de Setembro, para definir um programa de trabalho sobre questões relativas à regulação das plataformas digitais, ao enquadramento legal da Inteligência Artificial, à penúria de semicondutores ou ainda ao controlo do investimento estrangeiro e das exportações em alguns sectores estratégicos. O “pomo da discórdia” está na relação com a China.

 

Os EUA defendem uma política de “decoupling” mais vigorosa, a Europa não quer seguir por aí ou, pelo menos, hesita sobre até onde deve ir.

 

A questão essencial é como tirar partido da força somada das duas maiores economias do mundo para conseguir preservar os padrões internacionais do comércio numa fase em que a pandemia obrigou a olhar para a globalização dos mercados de uma outra forma, porventura mais prudente. Mas também, voltando ao discurso do primeiro-ministro, como manter a centralidade atlântica num mundo em acelerado reequilíbrio em direcção ao Indo-Pacífico, perante o qual a Europa não pode ficar parada. Desde que não se esqueça a que mundo pertence.

 

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