Como governará Moedas em minoria: batalha campal ou
experiência política de ponta?
Em 17 mandatos, a lista de Moedas conquistou sete. Na
oposição à esquerda tem dez vereadores. O que fará para conseguir governar a
cidade? O que acontecer em Lisboa pode ser um caso de estudo para os anos
políticos que aí vêm.
por Frederico Raposo
28.09.2021
Moedas num bolso do passado
(Daniel Oliveira,
in Expresso Diário, 20/09/2021)
https://estatuadesal.com/2021/09/20/moedas-num-bolso-do-passado/
Daniel Oliveira
Quando Carlos
Moedas concorreu, parecia que vinha ungido. A imagem de comissário europeu, e
parece que fez um bom mandato, muito mais do que a sua passagem pelo governo de
Passos Coelho, que só para quem não percebeu o que aconteceu ao país profundo
naqueles anos é que é visto como um ativo político, dava-lhe todas as condições
para uma boa campanha. Mas, da lista à campanha, tudo foi capturado pelo PSD de
Lisboa. Uma estrutura local medíocre que conquistou, há quatro anos, uns
miseráveis 11% (28 mil votos). São as mesmíssimas pessoas. Até Daniel
Gonçalves, patriarca do clã Gonçalves que tinha sido afastado há quatro anos
por decoro (é fazerem uma busca nas notícias de há quatro anos), regressou como
candidato à Junta de Freguesia das Avenidas Novas.
A forma como este
PSD capturou a lista e a campanha de alguém que ambicionava ser líder do
partido exibe a maior fragilidade de Moedas: não é um líder. Toda a
descoordenação que vemos na Câmara de Medina seria multiplicada por muito, caso
vencesse. Nisso, o atual presidente apanhou-lhe bem o ponto fraco: diz sempre
que sim a quem estiver à sua frente. É só mudar a plateia que muda o discurso.
Perante esta
característica, a campanha polarizada não podia ser mais desajustada. Moedas
não polariza com ninguém. E quando o faz, sai-lhe mal. E se não polariza, era
noutro campeonato que devia ter apostado: o da proposta, da sua boa imagem e de
alguém com um estatuto acima de mero perseguidor de Medina. Moedas desceu para
o patamar do PSD de Lisboa e de uma direita em crise, que julga que a violência
retórica fará com que os eleitores que fazem ganhar eleições se sintonizem com
o seu grau de indignação e revolta.
Moedas começou
por escolher a corrupção como tema. Se não resulta contra Rui Moreira, diretamente
acusado pela justiça e em risco de perda de mandato, como poderia resultar com
Medina, que tem um ex-vereador como arguido? Se não resultou há quatro anos,
com os mesmíssimos casos, porque resultaria agora? O pior é que Moedas nem
escolheu Manuel Salgado como alvo, mas Inês Lobo, uma arquiteta conceituada que
venceu um concurso público e que, com a sua candidatura, só perde a
oportunidade de acompanhar o que já era seu.
Mas não foi nisto
que Moedas foi capturado pelo velho e falido PSD de Lisboa. Em relação às
ciclovias, agarrou-se à de Avenida Almirante Reis (um calcanhar de Aquiles de
Medina), mas é incapaz de assumir o resto do projeto de tornar a capital
totalmente ciclável. Mesmo sabendo que essa é a posição da maioria dos
lisboetas. Ao seu lado, num dos dias mais importantes da campanha, tivemos
Manuela Ferreira Leite a dizer isto: “Para que servem as ciclovias? Não são os
velhos que andam de bicicleta, não são os pobres que andam de bicicleta. Os
pobres vão ser atropelados pelas ciclovias, porque, como sabem, é um tipo de
transporte que não faz barulho, que a pessoa tem de ir atenta e os velhos
deixaram de poder andar atentos em Lisboa.” Isto foi dito numa capital
europeia, em 2021.
Em vez do Carlos
Moedas europeu, que conhece outras cidades e sabe que este é um futuro sem
recuo, temos o Moedas que mantém Carlos Barbosa, presidente da ACP que se opôs
a todas as perdas de espaço do carro na cidade, na Assembleia Municipal. Um
Carlos Moedas que tem como uma das grandes propostas para a mobilidade reduzir
o preço do estacionamento para os lisboetas. E um Carlos Moedas amarrado a um
PSD local que sempre foi contra as ciclovias, só cedendo quando a vida provou
que não tinham razão.
O passado também
persegue Carlos Moedas. É verdade que quer distribuir passes gratuitos aos
lisboetas com mais de 65 anos e menores. Mas o PSD foi contra a redução do
preço dos passes. E governo de que fez parte acrescentou ao memorando, numa
negociação com a troika em que Moedas participou pessoalmente, a concessão da
Carris a privados. Sem a municipalização da empresa o que propõe era muitíssimo
difícil, se não mesmo impossível.
Moedas podia
fazer campanha contra a gentrificação da cidade. Alguém que trabalhou para uma
grande imobiliária e no setor financeiro pode não ser a pessoa mais indicada –
isto não tem de valer só para Ricardo Robles. Mas o seu problema é acima de
tudo político: o governo que aprovou a lei das rendas de Assunção Cristas, que
promoveu a desregulação do alojamento local e que bramou contra as “taxas e taxinhas”
que obrigassem o turismo a contribuir para o seu impacto na cidade não teria
grande autoridade para este discurso.
Restava o único
caminho acertado, que Moedas até seguiu, mas não conseguiu segurar: a crítica
ao fracasso da política de habitação de Medina. Só que, em vez de se basear no
exemplo de tantas capitais europeias, algumas bem liberais do ponto de vista
económico, que têm mercados públicos de arrendamento pujantes para a classe
média, e apontar para o falhanço de Medina nesse objetivo, veio com a proposta
de redução do IMT para jovens. Ainda por cima, escolheu com exemplo casas a 250
mil euros, não percebendo que a entrada que se exige é tal que fica evidente o
IMT é o menor dos problemas de um jovem normal. Mas, acima de tudo, regressa ao
erro de promover a compra, que se mostrou catastrófico para a mobilidade e para
o endividamento do país e das famílias. Como em relação as bicicletas, o
candidato dos “Novos Tempos” surge como um candidato do passado.
Carlos Moedas
deixou fugir todos os temas relevantes para falar do medo que se vive em Lisboa
ou da partidarização da Carris, assuntos para jornalistas e malta da campanha.
Dizem zero aos lisboetas. Olhando para os resultados da concelhia de Lisboa nos
últimos 14 anos, Moedas devia saber uma coisa: é para fazer tudo ao contrário
do que eles acham. Mas se nem a eles se conseguiu impor, imaginem à máquina
camarárias e aos interesses na cidade.
Carlos Moedas
falha porque quiseram fazer dele o candidato que não é. Porque nem a uma
estrutural partidária local em ruínas se conseguiu impor. E perante um passado
em que a direita esteve sempre contra todas as mudanças modernizadoras, um
Moedas com mundo e sem anticorpos deixou-se ofuscar pelas vistas curtas se quem
vale menos do que ele. Moedas falha porque foi capturado. E se foi capturado
tão cedo, capturado seria se chegasse a presidente.


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