opinião
Pedro Santos
Guerreiro
Diretor executivo
CNN Portugal
O cinismo da demissão de Cabrita, o ministro que foi
sempre “passageiro”
3 dez, 18:52
Eduardo Cabrita
demitiu-se simultaneamente tarde de mais e cedo de mais. É um timing cínico,
depois de manter-se alapado apesar de tudo o fez, e antes de ser onerado por
isso em eleições. Vitimizou-se como sempre. Escusou-se como sempre. No banco de
trás como sempre. No lugar do vivo. “Eu sou passageiro”, dissera sobre o
acidente na A6 horas antes de se demitir – ou de fazer de conta que não foi
demitido. A palavra aplica-se duplamente: fez-se de “passageiro” e não de
condutor em todas as polémicas; e acabou como sendo passageiro num tempo
político longo mas vazio.
Nem vale a pena
aprofundar os “casos” – o acidente na A6 de um automóvel a 163km/h que matou um
trabalhador; a morte de Ihor Homeniuk nas instalações do SEF; os migrantes em
Odemira; os festejos no campeonato do Sporting em pandemia; as golas
inflamáveis -, basta recordar o contraste entre a sua responsabilidade e a sua
responsabilização. Foi sempre “vítima de aproveitamento político”, foi sempre
inimputável, foi sempre ninguém na assunção das consequências políticas – e foi
sempre o amigo do primeiro-ministro até que o primeiro-ministro pôs as eleições
à frente do seu amigo. Não sabemos que conversas houve entre os dois amigos,
mas a própria reação de Ana Paula Vitorino – sua mulher, a quem por isso mesmo
não se pode exigir o distanciamento que ninguém no seu lugar teria – fala da
“gentalha” do PS. Gentalha.
Defenestraram
Eduardo Cabrita porque ele ia ser um problema para o PS nas eleições. O mesmo
PS que o suportou durante meses insustentáveis, na arrogância do poder que
agora arriscam perder. Há eleições dia 30 de janeiro e isso explica tudo o que
antes ninguém conseguia explicar: que Eduardo Cabrita se mantivesse ministro.
O ministro que só
caiu depois do Parlamento cair despediu-se com uma conferência de imprensa de
anúncio de demissão inenarrável no autoelogio e na vitimização. Eduardo
Cabrita, já vai tarde mas vai cedo, na repetição da desresponsabilização em
tempos políticos diferentes. É por isso que o cinismo maior neste desfecho é do
PS.
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