sábado, 4 de junho de 2016

Consagrar o cimento do poder / SÃO JOSÉ ALMEIDA


Consagrar o cimento do poder
SÃO JOSÉ ALMEIDA 03/06/2016 – PÚBLICO

O PS em formação só pode estar, por agora, indefinido. É um híbrido entre o PS de António Guterres e o futuro.

António Costa chega ao congresso como primeiro-ministro depois de ter perdido eleições. Em termos partidários e políticos conseguiu o que nenhum outro líder conseguiu em Portugal: ser primeiro-ministro fruto de entendimentos que nem sequer têm a formalidade de uma coligação de governo nem mesmo de acordo de incidência parlamentar.

E conseguiu também a proeza de obter o apoio parlamentar não só do BE mas também do PCP, em entendimentos bilaterais separados sob a forma de posições comuns que incidem apenas em alguns assuntos sobre os quais há possibilidade de posição conjunta mas que são suficientes para garantir a governabilidade.

Costa conseguiu assim o poder baseado na legitimidade parlamentar e constitucional e com um tipo de entendimentos que dinamizam a vertente parlamentar cada vez mais esquecida e adormecida nos quarenta anos de democracia. Mas fê-lo também forçando uma relação até aqui contranatura entre o PS e o PCP, a qual foi histórica e tradicionalmente impossível. Uma relação em que o PS está a ser levado ao limite, pelo menos o PS que é formado pelas gerações mais velhas com memória e formação partidária no PREC.

Tudo isto acontece em parte possibilitado por uma conjuntura em que é manifesta uma transformação central na política europeia que passa pela lenta agonia da social-democracia sob o efeito contaminador da pressão neoliberal. Essa conjuntura que interfere directamente com o PS surge também no momento em que a União Europeia vive uma crise política e económica que, por sua vez, amplia a erosão do eleitorado do centro e acelera a radicalização da política europeia.

Foi no âmbito dessa radicalização política que decorre há mais de uma década que uma nova geração do PS se formou. É nesse sentido que o sociólogo e antigo dirigente do PS Pedro Adão e Silva identifica mesmo a origem da clivagem no PS na Guerra do Iraque. Uma nova geração que se formou na perspectiva de que não é possível uma cultura de compromisso com um PSD que esteve na base da cimeira das Lages e que apoiou a invasão. É também preciso ter em conta que o PS em formação só pode estar, por agora, indefinido. É um híbrido entre o PS de António Guterres e o futuro, sob a liderança daquele que deverá ser o último secretário-geral que junta a linhagem António Guterres e a estripe de Mário Soares.

Mas esse PS, que no imediato surge aparentemente mais radicalizado, tem de encontrar caminhos que permitam a sobrevivência a uma crise da social-democracia e ao desgaste de uma aliança contranatura. Isto porque o PS vive um ciclo de mudança histórica que pode significar o seu fim como partido. Acresce que os militantes socialistas são tradicionalmente anticomunistas. Há necessidade de uma aprendizagem de trabalho em conjunto com aquele que foi até agora adversário, olhado até com preconceito, para que ambos construam conteúdos de governação real. Mais: esta experiência está a ser feita ao vivo e em directo governando numa época híper mediatizada.

Isto além de gerir uma relação do mesmo tipo com o BE, partido que tem uma forte corrente interna herdeira do trotskismo e, por isso, com a ambição genética de ocupar o espaço político de um partido social-democrata como o PS. Ou que, pelo menos, vive nesse mito.

Quando Costa passar à história — e um dia isso acontecerá —, o PS estará forçosamente marcado por esta experiência que também moldará da política portuguesa. Por agora, é uma incógnita saber que PS será esse e qual será a reacção no futuro do eleitorado ao PS que sobrevier a governação de Costa. O que é possível perceber é que os militantes socialistas estão assustados com a experiência e com o seu risco. Mas estão também muitos deles sedentos de poder e à espera na fila para acederem aos lugares disponíveis que lhes caibam em vez na cartelização do Estado que há décadas dividem com o PSD.

É por isso, porque o poder é o cimento que, como nenhum outro, cola os partidos e obtém uma silenciosa unanimidade política, que Costa deverá ter apenas como opositores os que já se anunciaram. Francisco Assis representando a posição exterior, pela aproximação que no passado fez a António José Seguro, e Sérgio Sousa Pinto, a oposição que nasceu dentro da sua própria linhagem política feita por quem chegou a ser visto como um seu delfim.


O 21.º Congresso deverá assim ser um congresso pacífico em que não serão dadas respostas às interrogações que assolam o PS e o seu futuro. E como congresso da consagração do poder governamental será nulo em termos de preocupação com a necessidade de olear a máquina do partido, a qual, diga-se de passagem, bem precisa ser afinada de modo a sobreviver aos trambolhões que a esperam. A começar já nas eleições autárquicas, que terão de ser geridas de forma ao PS ir a jogo para manter a maioria das câmaras e a Associação Nacional dos Municípios Portugueses, mas sem intenção de cavar em terrenos comunistas evitando criar turbulência no Governo.

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