Consagrar
o cimento do poder
SÃO JOSÉ ALMEIDA
03/06/2016 – PÚBLICO
O
PS em formação só pode estar, por agora, indefinido. É um híbrido
entre o PS de António Guterres e o futuro.
António Costa chega
ao congresso como primeiro-ministro depois de ter perdido eleições.
Em termos partidários e políticos conseguiu o que nenhum outro
líder conseguiu em Portugal: ser primeiro-ministro fruto de
entendimentos que nem sequer têm a formalidade de uma coligação de
governo nem mesmo de acordo de incidência parlamentar.
E conseguiu também
a proeza de obter o apoio parlamentar não só do BE mas também do
PCP, em entendimentos bilaterais separados sob a forma de posições
comuns que incidem apenas em alguns assuntos sobre os quais há
possibilidade de posição conjunta mas que são suficientes para
garantir a governabilidade.
Costa conseguiu
assim o poder baseado na legitimidade parlamentar e constitucional e
com um tipo de entendimentos que dinamizam a vertente parlamentar
cada vez mais esquecida e adormecida nos quarenta anos de democracia.
Mas fê-lo também forçando uma relação até aqui contranatura
entre o PS e o PCP, a qual foi histórica e tradicionalmente
impossível. Uma relação em que o PS está a ser levado ao limite,
pelo menos o PS que é formado pelas gerações mais velhas com
memória e formação partidária no PREC.
Tudo isto acontece
em parte possibilitado por uma conjuntura em que é manifesta uma
transformação central na política europeia que passa pela lenta
agonia da social-democracia sob o efeito contaminador da pressão
neoliberal. Essa conjuntura que interfere directamente com o PS surge
também no momento em que a União Europeia vive uma crise política
e económica que, por sua vez, amplia a erosão do eleitorado do
centro e acelera a radicalização da política europeia.
Foi no âmbito dessa
radicalização política que decorre há mais de uma década que uma
nova geração do PS se formou. É nesse sentido que o sociólogo e
antigo dirigente do PS Pedro Adão e Silva identifica mesmo a origem
da clivagem no PS na Guerra do Iraque. Uma nova geração que se
formou na perspectiva de que não é possível uma cultura de
compromisso com um PSD que esteve na base da cimeira das Lages e que
apoiou a invasão. É também preciso ter em conta que o PS em
formação só pode estar, por agora, indefinido. É um híbrido
entre o PS de António Guterres e o futuro, sob a liderança daquele
que deverá ser o último secretário-geral que junta a linhagem
António Guterres e a estripe de Mário Soares.
Mas esse PS, que no
imediato surge aparentemente mais radicalizado, tem de encontrar
caminhos que permitam a sobrevivência a uma crise da
social-democracia e ao desgaste de uma aliança contranatura. Isto
porque o PS vive um ciclo de mudança histórica que pode significar
o seu fim como partido. Acresce que os militantes socialistas são
tradicionalmente anticomunistas. Há necessidade de uma aprendizagem
de trabalho em conjunto com aquele que foi até agora adversário,
olhado até com preconceito, para que ambos construam conteúdos de
governação real. Mais: esta experiência está a ser feita ao vivo
e em directo governando numa época híper mediatizada.
Isto além de gerir
uma relação do mesmo tipo com o BE, partido que tem uma forte
corrente interna herdeira do trotskismo e, por isso, com a ambição
genética de ocupar o espaço político de um partido
social-democrata como o PS. Ou que, pelo menos, vive nesse mito.
Quando Costa passar
à história — e um dia isso acontecerá —, o PS estará
forçosamente marcado por esta experiência que também moldará da
política portuguesa. Por agora, é uma incógnita saber que PS será
esse e qual será a reacção no futuro do eleitorado ao PS que
sobrevier a governação de Costa. O que é possível perceber é que
os militantes socialistas estão assustados com a experiência e com
o seu risco. Mas estão também muitos deles sedentos de poder e à
espera na fila para acederem aos lugares disponíveis que lhes caibam
em vez na cartelização do Estado que há décadas dividem com o
PSD.
É por isso, porque
o poder é o cimento que, como nenhum outro, cola os partidos e obtém
uma silenciosa unanimidade política, que Costa deverá ter apenas
como opositores os que já se anunciaram. Francisco Assis
representando a posição exterior, pela aproximação que no passado
fez a António José Seguro, e Sérgio Sousa Pinto, a oposição que
nasceu dentro da sua própria linhagem política feita por quem
chegou a ser visto como um seu delfim.
O 21.º Congresso
deverá assim ser um congresso pacífico em que não serão dadas
respostas às interrogações que assolam o PS e o seu futuro. E como
congresso da consagração do poder governamental será nulo em
termos de preocupação com a necessidade de olear a máquina do
partido, a qual, diga-se de passagem, bem precisa ser afinada de modo
a sobreviver aos trambolhões que a esperam. A começar já nas
eleições autárquicas, que terão de ser geridas de forma ao PS ir
a jogo para manter a maioria das câmaras e a Associação Nacional
dos Municípios Portugueses, mas sem intenção de cavar em terrenos
comunistas evitando criar turbulência no Governo.

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