HABITAÇÃO
Viver com o ex ou perder a casa? Crise na habitação está
a deixar ex-casais sem saída
A crise na habitação está a “sufocar” ex-casais que não
conseguem pagar uma renda sozinhos, num dilema entre separar-se e perder uma
casa ou ficar e perder liberdade.
Carolina Amado
(texto) e Cátia Mendonça (ilustração)
1 de Abril de
2023, 8:00
Quando o amor
acaba, a vida fica em suspenso: seja pela dificuldade em encontrar nova morada
que se consiga pagar, seja pela ausência de alternativas CÁTIA MENDONÇA /
PÚBLICO
Quase uma década
depois de se despedir do quarto da adolescência em casa da mãe, Diogo voltou.
Com ele, uma sensação de falhanço. Sentia-se um fardo, “num sítio onde não era
bem-vindo”. O desconforto tornou-se uma “dor crónica”, “sufocante”, que atinge
aos fins-de-semana a fase mais aguda: quando se deita para dividir a antiga
cama de solteiro com o filho de seis anos.
“Não era o que
esperava, ter 40 anos e estar nesta situação. Mas vi-me de mãos atadas”, conta,
ao recordar tudo o que mudou na sua vida quando se separou da ex-companheira,
com quem partilhou casa durante oito anos.
Diogo, que
prefere não partilhar o apelido, saiu de casa em Maio passado. Há meses que
sabia que a relação não estava a correr como desejava, mas, sem alternativa de
habitação e para ficar perto do filho, “aguentou”. “Só fiquei por ele”,
reconhece.
Quando pediu
ajuda à mãe, com quem nunca teve uma relação fácil, surpreendeu-se ao perceber
que, à partida, poderia regressar à antiga casa. Mas esse ânimo rapidamente
esmoreceu: “Encontrei um cenário onde não sou desejado. Tenho um quarto, mas
não um lar.”
A crise no
mercado habitacional tem mantido em suspenso a vida de casais que decidem
separar-se, seja pela dificuldade em encontrar nova morada que consigam pagar,
seja pelo regresso a casa dos pais (em alguns casos, inevitável) ou pela
ausência de soluções.
Diogo já desistiu
da ideia de viver no concelho de Lisboa. Mesmo assim, e com um trabalho
estável, sabe que precisa de “um balão de oxigénio” antes de pensar em fazer as
malas. “Decidi tirar a licença de TVDE, trabalho que terei de juntar às sete
horas no meu emprego. Também vai ser uma forma de fugir de um ambiente hostil
em casa. Já que Lisboa vive do turismo, e que também é ele que me está a
dificultar a vida, porque não aproveitar?”
Para a psicóloga
Soraia Queijo, terapeuta familiar e de casal, voltar para casa dos pais na
idade adulta é “como perder o poder de decisão sobre a própria vida”, e há
sinais a que é importante estar atento, mesmo quando se entra em “modo
sobrevivência”: podem existir períodos de maior tristeza, choro mais frequente
ou perda de interesse pelas actividades diárias. “Não é algo que alguém de 40
anos deseje. Não era suposto ninguém passar por isso.”
E quando voltar a morar com os pais não é opção?
Para Alexandra
Monteiro, ao contrário de Diogo, voltar para casa dos pais é uma hipótese que
deixou há muito de estar em cima da mesa. Oito meses depois de terminar um
namoro que já se tinha arrastado por demasiado tempo, ainda partilha o mesmo
tecto com o ex, numa casa que só parece encolher e onde não cabem as novas
vidas dos dois.
Aos 35 anos, está
a terminar um estágio na área de programação que lhe dá alguma esperança para o
futuro, depois de ter ficado desempregada por causa da pandemia.
“Já estive pior,
agora estou mais esperançosa. Mas há dias em que não vejo solução”, admite
Alexandra. “A dada altura cheguei a pedir ajuda à minha mãe, que me respondeu:
‘Quando me chateava com o teu pai não ia pedir guarida.’ Aí senti-me
desamparada, e decidi que voltar não seria bom, nem para mim, nem para eles.”
Nesse momento,
sem o apoio da família, sem estabilidade laboral, e numa relação que não estava
a correr bem, viu-se num beco sem saída. “A minha cabeça esteve num lugar mais
depressivo, cheguei a pensar em suicídio”, conta. “De repente senti-me sozinha,
sem certezas sobre nada. Os pilares da vida são um tecto, trabalho e relações
interpessoais. E tudo isso foi destruído, como numa avalanche.”
Dividir casa com
um ex-companheiro é, antes de mais, confuso, diz a psicóloga Soraia Queijo. “Se
duas pessoas terminam uma relação é porque não querem estar juntas, e serem
obrigadas a permanecer onde não querem estar é de uma exigência emocional e
psicológica imensa”, explica.
Mesmo que
continuasse a viver em Loures, nos arredores da cidade de Lisboa, um ordenado
mínimo não seria suficiente para viver sozinha num T0 ou T1. Depois de muita
pesquisa “desesperante” que, dia sim, dia sim, a desiludia, desistiu de
percorrer constantemente sites como o portal imobiliário Idealista.
Em 2022, quando
Alexandra começou esta procura por algo que hoje parece uma miragem, os preços
das casas vendidas em Portugal aumentaram ao ritmo mais acelerado de que há
registo (desde 2009): quase 13% num ano.
Embora o ano
passado também tenha sido aquele em que mais casas se venderam em Portugal, no
segundo semestre essa tendência abrandou, devido à subida das taxas de juro e
quebra de rendimentos das famílias.
Se fizermos o
mesmo percurso de Alexandra e entrarmos no portal Idealista, o preço médio por
metro quadrado em Loures é de 3213 euros. Ou seja, uma casa com 50m² custaria,
em média, 160.650 euros. Na mesma lógica, se essa casa fosse alugada, a renda
custaria, em média, 754 euros – ou seja, um salário mínimo nacional.
“Isto
acontece à classe média, ao casal em que cada um ganha mil euros”
Miguel (nome
fictício) viveu com a ex-namorada quase dois anos. Durante meses, assistiu à
degradação da relação, à medida que se apercebia de que algo não batia certo.
No último Verão, quando teve a sensação de estar a ser enganado, confrontou-a.
Ela negou, mas o namoro não voltaria a ter a força de outros tempos.
“Ela tem uma
doença mental grave e existiram momentos em que a relação estava muito
deteriorada. Eu estava a sofrer e quis acabar. Mas e a casa? Isso pesa na
decisão”, conta. A namorada tinha vivido num contexto abusivo em casa da
família, por isso, até encontrarem uma solução, foi Miguel a mudar-se para casa
da mãe.
A estadia
provisória foi-se prolongando. Primeiro um mês, depois dois meses. As
alternativas, essas, continuavam por aparecer.
A vida em
conjunto tinha deixado de ser uma hipótese, mas nenhum dos dois podia pagar
sozinho a renda da casa onde viviam, um T2 no centro de Lisboa, que tinham
alugado por um valor mais baixo do que o normal por causa da pandemia.
Aos 24 anos, os
rendimentos de Miguel ultrapassam, em várias centenas, o salário da maioria dos
jovens portugueses. Enquanto, em 2022, 65% dos jovens abaixo dos 30 anos
recebiam menos de mil euros por mês, o ordenado mais baixo que já teve, afirma,
foi de 1200 euros a recibos verdes. “Não devia ter problemas [em pagar uma casa
sozinho]. E se eu tenho, imagino quem ganha menos”, diz, reconhecendo algum
privilégio.
Ana Morais
Cardoso, advogada na área de direito de família, identifica uma mudança do
perfil de quem a procura por dificuldades no processo de separação. “Hoje isto
acontece à classe média, ao casal em que cada um ganha 1000 euros e que tem uma
renda de 800 euros – nenhum deles consegue pagar casa [sozinho]”, afirma. “Noto
pela diversidade de pessoas, que antes não era habitual: contabilistas,
gestores, enfermeiros, professores.”
A começar uma vida em conjunto?
As despesas relativas à habitação devem ser sempre pagas
pelos dois, seja a divisão 50/50 ou na proporção adequada face aos
rendimentos de cada um. Esses pagamentos devem também ficar documentados;
Se vai viver com alguém que já tem um contrato de
arrendamento, pedir ao senhorio para passar a fazer parte desse contrato (o que
não é motivo para um aumento da renda);
Casar no regime de separação total de bens.
Depois de
regressar ao T2 onde a ex-namorada continuava, Miguel viveu semanas num
ambiente “tóxico”. No mesmo dia em que confirmou as antigas suspeitas e
percebeu que lhe tinha sido contada uma série de mentiras, ela saiu de casa.
Não voltaram a conversar.
Hoje divide o
mesmo apartamento com um amigo, mesmo depois de o senhorio aumentar a renda em
25% face ao valor inicial. “É um bom negócio, tendo em conta a zona”,
considera, ainda que custe mais de 900 euros por mês.
“Fiz parte do
luto da relação em casa da minha mãe, mas foi tudo por água abaixo quando
voltei. O dia em que ela saiu foi como um segundo final da nossa relação”,
recorda. “E ainda tive de aprender a lidar com continuar a viver na casa que
tínhamos partilhado. Desde aí que não consigo lá estar com outra pessoa, nunca
levei lá ninguém.”
O luto de uma
relação, diz a psicóloga Soraia Queijo, traduz-se num processo de reconstrução,
“um repensar de si e do outro”. “Quando tem de se partilhar casa, o luto fica
comprometido, não há distanciamento físico, emocional, nem a construção de uma
nova vida sem a outra pessoa.”
Independência financeira e igualdade de género
Ainda que
agravado pela crise habitacional e pela galopante inflação, este não é um
problema novo nem se limita a casais no início de uma vida em conjunto. Aos 60
anos, Margarida (nome fictício) vive separada há mais de 20, mas continua na
mesma casa com a pessoa com quem se casou e de quem nunca se divorciou
oficialmente.
Dedicou a vida a
cuidar dos filhos (que entretanto já se fizeram adultos), sem nunca ter
conseguido acabar o curso de Medicina e sem ter tido um emprego estável. As
ambições da juventude eram bem diferentes, mas a vida complicou-se e as
prioridades mudaram. Margarida foi diminuindo, diminuindo, até se anular quase
por completo.
Reconhece na sua
situação uma história anacrónica, mesmo que, uma geração mais tarde, a
igualdade de género continue uma utopia. “Não conheço ninguém na mesma situação
que eu no século em que vivemos. Era comum na geração dos meus pais, em que as
mulheres viviam dependentes do homem e por isso não se divorciavam, em que o
trabalho delas era estar em casa e cuidar dos filhos.”
O aumento do
custo de vida afecta, de modo particular, as mulheres: são elas que têm, por
norma, salários mais baixos; que estão em minoria nas posições de liderança;
que gastam uma maior percentagem do ordenado em alimentos e noutras compras
para a casa.
No ano passado,
2022, a diferença salarial entre homens e mulheres em Portugal era de 13,3% na
sua base mensal, e de 16,1% no valor ganho por hora. Estima-se que sejam
precisos mais 30 anos para acabar com esse fosso salarial no nosso país.
Quanto a trabalho
não pago, as mulheres continuam a dedicar, em média, mais duas horas por dia a
tarefas domésticas e à prestação de cuidados, em comparação com os homens.
Heloísa Perista e Pedro Perista, do CESIS – Centro de Estudos para a
Intervenção Social, calcularam o valor deste trabalho e o peso que teria na
criação de riqueza a nível nacional. Se o valor de referência for o ganho médio
horário no país, só em 2019, o trabalho doméstico e de cuidados representaria
78 mil milhões de euros — uma subida de 36,2% do PIB.
“Eu fiz imenso,
fiz muito pelos meus filhos. Mas quem não tem um trabalho, não tem valor”, diz,
revendo em segundos as últimas seis décadas de vida. Nem quase 30 anos na mesma
morada a tornaram mais acolhedora para Margarida, que foi alimentando a
esperança de que esse tecto fosse apenas provisório.
No último ano,
Soraia Queijo notou um aumento de casos como este, em que a dependência
financeira impede uma separação. E não foi a única: a advogada Ana Morais
Cardoso também encontra vários cenários que se vão tornando mais frequentes, de
pessoas que não podem separar-se por não terem outra casa para onde ir, a
casais separados que, a viver na mesma casa, têm de gerir a guarda dos filhos.
Quando um casal
se separa – e, relembra, a protecção dada a quem é casado e a quem nunca casou
é a mesma –, o tribunal tem de atribuir a casa de morada de família, mesmo que
exista um proprietário (que pode não ficar com a casa) ou que apenas um dos
dois tenha o nome no contrato.
“Como é que um
deles vai sair, pagar uma casa, pagar pensão de alimentos? Se a única solução
for ir para um abrigo, é suposto alguém ficar acampado com filhos menores e a
viver com outras famílias?” questiona. “[Conheço] um casal com três filhos
que vive junto e o marido não deixa que a mulher jante à mesa com as crianças
quando é a sua semana de estar com elas.”
Margarida admite
que um dos motivos para não ter avançado com o processo de divórcio, além de o
marido nunca ter concordado (algo que hoje já não é necessário), foi a
preocupação de proteger os filhos.
Há muitos anos
que a relação com o ex-companheiro é distante e o convívio apenas
circunstancial. Têm rotinas diferentes, vêem-se pouco, conversam ainda menos.
Diz que só depois de casar percebeu que pensavam de forma totalmente oposta:
ela adorava a liberdade, ele achava que o lugar da mulher era em casa.
Entre sucessivas
desilusões e a total dependência financeira do marido, sentiu várias vezes que
"a vida andava para trás, em vez de para a frente”. Teve várias
depressões, foi acompanhada por vários médicos. “Um dia disse ao meu
psiquiatra: 'Sinto-me sem-abrigo’."
O que fazer quando tenho de viver com o ex?
Para quem, como
Margarida ou Alexandra, ainda vive com um ex-companheiro, a terapeuta Soraia
Queijo deixa algumas sugestões:
Procurar apoio
psicológico (para limitar os custos, optar por profissionais do Serviço
Nacional de Saúde ou de associações com preços mais acessíveis);
Tentar manter
actividades diárias prazenteiras e de autocuidado;
Caso estejam a
pensar na separação, procurar recursos na comunidade, como respostas sociais
das câmaras municipais, juntas de freguesia e associações locais.

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