OPINIÃO
Justiça, sempre. Justiça, nunca
Quem poderá tomar a iniciativa? Que órgão de soberania,
Presidente, Governo ou Parlamento, poderia tomar a iniciativa de mandar
elaborar um Livro Branco e um roteiro de reformas?
António Barreto
1 de Abril de
2023, 6:20
https://www.publico.pt/2023/04/01/opiniao/opiniao/justica-justica-2044636
É um dos mais
misteriosos problemas da vida nacional: a permanente degradação da justiça.
Quais são as verdadeiras causas deste estado de coisas? A política? As leis? As
magistraturas? Os orçamentos? A sociedade? Os interesses? As faculdades de
Direito? Nenhum diagnóstico parece completo. Mas não há dúvidas de que a
evolução, ao longo das últimas décadas, tem sido negativa. A justiça portuguesa
teve dificuldades em adaptar-se a tudo o que de importante aconteceu. À
democracia. Aos direitos dos cidadãos. À economia de mercado. À União Europeia.
À globalização. Ao digital. E à liberdade de informação. Na verdade, ficou para
trás e foi-se atrasando.
Só num aspecto os
diagnósticos são convergentes: a situação é difícil ou grave. Uns acentuam os
interesses das magistraturas. Outros sublinham as pressões dos poderosos da
política, da economia, dos sindicatos e das instituições. Alguns garantem que
as responsabilidades são dos partidos políticos, do legislador e do ministério.
Enquanto outros apontam para a venalidade dos magistrados e a tibieza perante
as solicitações dos bandidos. Mas há ainda, finalmente, quem garanta que o
essencial se deve ao espírito jurídico nacional, ao formalismo das tradições
portuguesas e ao conservadorismo do ensino do Direito. Quais são as verdadeiras
causas? Mistério.
Não se conhecendo
as causas, é difícil encontrar os remédios. Talvez seja esse o sentido de outro
dos mais enigmáticos problemas da sociedade contemporânea: por que razão nenhum
partido político, nenhum governo, nenhum Presidente da República, nenhum
conselho superior da magistratura judicial ou do Ministério Público, nenhum
Supremo Tribunal, nenhum procurador-geral e nenhum sindicato tentou ou
protagonizou um processo de reforma?
Entre os
diagnósticos, há uns mais certeiros do que outros. Por exemplo, a falta de
preparação das leis, dos magistrados, dos tribunais e das polícias para tratar
do crime organizado e da alta criminalidade ligada à corrupção política e
económica. Ou então, a tradição burocrática nacional a que se juntou o excesso
de garantias de todo o sistema. Ou ainda, finalmente, o livre-trânsito dos
magistrados entre os tribunais, as empresas, os partidos e os cargos políticos.
Tudo isso é possível. Mas não se trata realmente de respostas. São novas
perguntas às quais é necessário responder.
Uma das grandes
dificuldades reside no facto de que reformar a justiça pode matar a liberdade e
a democracia. Como pode destruir a independência dos magistrados e dos
tribunais, valores insubstituíveis. Reformar eficazmente a justiça, em
democracia e garantindo a independência dos magistrados é a grande dificuldade,
o dilema da política de reformas. A justiça tem um paralelo possível com as
Forças Armadas. São ambas essenciais à liberdade. Mas o seu funcionamento não é
ou é pouco democrático. As decisões não dependem do voto dos cidadãos e dos
utentes. O princípio da eleição não é geralmente aceite nestas organizações.
Nem poderia ser. Mas ambas estão submetidas a uma génese democrática que lhes
dá legitimidade. Em poucas palavras, a justiça não é democrática, mas a
democracia depende dela.
O Tribunal
Constitucional revela-se incapaz de substituir os seus membros, o que fere a
sua própria legitimidade. Com suspeitas fundadas, a distribuição de processos
continua inquinada. Sucedem-se as avarias dos sistemas, com quebras de
comunicação que podem durar horas ou dias. Aumentam, com ou sem greve, os
atrasos de julgamentos e outros actos. Seria interessante que alguns políticos,
jornalistas e académicos visitassem os tribunais, reparassem nas testemunhas
que esperam horas, nos adiamentos dos processos e nos julgamentos que não se
realizam sem que as testemunhas sejam informadas. Quem pensa nas centenas ou
milhares de pessoas, arguidos, assistentes, testemunhas e advogados que perdem
horas e dias à espera, a “meter” baixas nos seus empregos, a ter de voltar uma,
duas e três vezes?
A duração, os
incidentes, as perturbações e as decisões contraditórias e incompreensíveis dos
grandes processos de políticos e poderosos, as famosas causas célebres, já não
se explicam nem justificam, mas deixam a sensação e a certeza de que a justiça
portuguesa está cativa, é desigual e foi capturada por interesses ilegítimos.
Será que os
magistrados, os membros dos conselhos superiores, as associações judiciais e a
Ordem dos Advogados não se dão conta do mal que se está a fazer aos
portugueses, à democracia e à justiça? Será que não percebem que o que fazem
agora garantirá, por décadas, a má reputação da justiça? E os governantes que
se ocupam directamente da justiça, os deputados que têm o exclusivo de
competências em matéria judicial e os altos funcionários judiciais não se dão
conta dos danos que estão a ser infligidos à Justiça e à democracia? E os
magistrados que não são cúmplices, que cumprem os seus deveres, que respeitam
as declarações dos direitos humanos, esses magistrados não se dão conta que,
sem culpa nem proveito, sofrem da má fama que o sistema e as autoridades lhes
infligem e provocam?
Será que os
magistrados, os membros dos conselhos superiores, as associações judiciais e a
Ordem dos Advogados não se dão conta do mal que se está a fazer aos
portugueses, à democracia e à justiça?
Os magistrados
têm evidentemente culpas e responsabilidades no estado em que a justiça se
encontra. Mas não tenhamos dúvida de que há outros responsáveis com o mesmo
grau de culpa ou maior ainda: o legislador e o poder executivo. E os órgãos
superiores do sistema judicial que se entendem bem com este estado de coisas. A
entrada e a saída da profissão, a porta giratória com a política e a economia pública
e privada, assim como a vizinhança com entidades políticas e partidárias,
ajudam a explicar a inércia e a atitude conservadora da magistratura, do
legislador e do Governo.
Quem poderá tomar
a iniciativa de um movimento de reforma? Quem poderá iniciar um debate com
sentido das realidades e eficiência? Que órgão de soberania, Presidente,
Governo ou Parlamento poderia tomar a iniciativa de mandar elaborar um Livro
Branco e um roteiro de reformas para a justiça? Que fundação privada,
universidade ou academia poderia dar o sinal de partida para uma análise, um
apuramento e um programa de reformas? Uma coisa é certa: aquilo com que sonham
os antidemocratas e radicais de vária penugem, a “vassourada” ou a “barrela”,
não é aconselhável. Além de que seria contraproducente: transformaria o caos
democrático num caos autoritário, com sacrifício da liberdade e da democracia.
O autor é
colunista do PÚBLICO


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