sábado, 29 de abril de 2023

TAP, mentiras e SIS. Mente João Galamba ou mente o assessor?

 



ANA SÁ LOPES

TAP, mentiras e SIS. Mente João Galamba ou mente o assessor?

 

TAP, mentiras e SIS. A história estrambólica com várias versões da exoneração do assessor que acusa Galamba de querer mentir à CPI

 

Ana Sá Lopes, Marta Moitinho Oliveira e Leonete Botelho

28 de Abril de 2023, 22:59

https://www.publico.pt/2023/04/28/politica/noticia/tap-mentiras-sis-mente-joao-galamba-mente-assessor-2047870

 

O Ministério das Infra-estruturas foi esta semana cenário de um dos mais bizarros episódios que aconteceu a um Governo desde o 25 de Abril (não conta a vez em que o Governo Pinheiro de Azevedo entrou em greve).

 

O adjunto Frederico Pinheiro acusou o ministro de querer ocultar dados à Comissão de Inquérito à TAP, foi proibido de entrar no ministério depois de ser exonerado por telefone, entra para reaver o computador pessoal que não lhe querem dar, parte um vidro com uma bicicleta, as assessoras fecharam-se na casa de banho sob ameaças de agressões físicas, enquanto o ex-adjunto telefonava à polícia para o retirarem do Ministério de onde não conseguia sair.

 

No fim, é o SIS que vai buscar o computador portátil que Frederico Pinheiro leva para casa. O Governo moveu-lhe uma queixa-crime por se apropriar de bens do Estado – o tal computador pessoal.

 

João Galamba, o ministro acusado pelo assessor de querer mentir à Comissão de Inquérito à TAP, demorou duas horas a reagir ao comunicado do seu ex-adjunto. A decisão foi a de não se demitir.

 

Em três parágrafos, diz que “nega categoricamente qualquer acusação de que, por qualquer forma, tenha procurado condicionar ou omitir informação prestada à CPI da TAP” e enfatiza que “pelo contrário, toda a documentação solicitada pela CPI foi integralmente facultada”.

 

O terceiro parágrafo reza assim: “A propósito da exoneração de Frederico Pinheiro, esclarece-se que a mesma decorre do facto de o então adjunto ter repetidamente negado a existência de notas de reunião que eram solicitadas pela CPI, o que poderia ter levado a uma resposta errada à CPI por parte do gabinete do Ministério das Infra-estruturas”.

 

Um comunicado que Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar do PS, disse, em entrevista à SIC na noite desta sexta-feira, não ser “ortodoxo”, manifestando, no entanto, confiança total na versão e na posição do ministro e na decisão de exonerar Frederico Pinheiro.

 

O adjunto Frederico Pinheiro emitiu um comunicado onde faz a sua cronologia dos factos. À SIC, contou como foi sequestrado no Ministério das Infra-estruturas, quando lá foi depois de ter sido exonerado telefonicamente para buscar o computador pessoal.

 

A questão que dividiu ministro e assessor foram as “notas” tiradas durante uma reunião entre o deputado do PS Carlos Pereira, a CEO da TAP e o assessor do ministro a 17 de Janeiro que, segundo João Galamba contou a próximos, nunca mais lhe entregava as notas. A versão do adjunto é que Galamba não queria divulgar as notas.

 

Segundo o comunicado esta sexta-feira emitido por Frederico Pinheiro, o gabinete de Galamba tinha a intenção de responder à Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP “de que não existiam notas da reunião”. “Nesse momento Frederico Pinheiro indica à técnica que, como sabia, tal era falso e que (…) era provável que fosse chamado à CPI e seria obrigado a contradizer a informação que estava naquela proposta, com a qual discordava”.

 

Continua o comunicado de Frederico Pinheiro: “No dia seguinte, 25 de Abril, o ministro das Infraestruturas contacta Frederico Pinheiro por mensagem e por telefone e, em ambas as ocasiões, Frederico Pinheiro deixa claro que a decisão que tomaram de não revelar a existência das notas teria de ser revista. João Galamba teve uma reacção irada”. Uma versão: o ministro terá ameaçado o assessor de lhe dar “um murro” e exonera-o por telefone.

 

Segundo o comunicado divulgado por Frederico Pinheiro, houve ainda uma reunião entre o ministro e a CEO da TAP na véspera da tal 'reunião secreta', encontro que nunca havia sido divulgado antes.

 

Depois de exonerado, Frederico Pinheiro decidiu deslocar-se ao ministério para levar o computador onde tinha os documentos referentes à reunião, com o objectivo de fazer um “back-up”, até para se defender no quadro da comissão de inquérito. O ministério chamou o SIS para reaver o computador do Estado que o adjunto usava e instaurou um processo-crime ao ex-assessor.

 

Versões contraditórias

Segundo um relato feito ao PÚBLICO por fonte próxima de Galamba, contudo, tudo terá começado a 5 de Abril, quando se fez o levantamento de toda a informação relativa à reunião 'secreta" entre um deputado do PS, a então CEO da TAP e adjuntos do ministro das Infra-estruturas, realizada na véspera da audição de Christine Ourmières-Widener na Comissão Parlamentar de Economia. Numa reunião do gabinete de João Galamba para preparar a documentação a enviar à comissão de inquérito, Frederico Pinheiro terá garantido - segundo alguns dos presentes - que não tinha notas nem grande memória sobre a reunião de 17 de Janeiro.

 

A 24 de Abril, último dia do prazo de resposta à solicitação da CPI, quando um dos elementos do gabinete disse que ia responder às questões colocadas e referir a ausência de notas, Frederico Pinheiro terá afirmado que, afinal, tinha notas pessoais escritas mas que teria de as reescrever para serem perceptíveis e que as enviaria mais tarde. Só que não as terá enviado e deixou de responder a telefonemas e mensagens durante várias horas. Foi nessa altura que o Ministério terá pedido à comissão de inquérito um prolongamento do prazo para entrega das respostas até 26 de Abril.

 

Ao longo do dia 25 de Abril, a chefe de gabinete do ministro e o próprio João Galamba terão tentado, por múltiplas vezes, insistir com Frederico Pinheiro para o envio das notas, tendo este respondido que era impossível enviá-las porque estava sem o seu computador. Só as terá enviado por e-mail cerca das 22h30 desse dia, ou seja, mais de 24 horas depois de lhe ter sido solicitado que as enviasse.

 

Na quarta-feira os documentos foram então enviados para a CPI, incluindo as notas do adjunto, identificadas como pessoais porque não tinham sido confirmadas por nenhum dos presentes na reunião. Nessa mesma noite, quando aterrou de uma viagem a Singapura, João Galamba informa Frederico Pinheiro da sua exoneração devido a esses antecedentes, considerando que tinha tido um comportamento não conforme com as responsabilidades de um adjunto de um gabinete ministerial. E ter-lhe-á comunicado também que ficava proibido de voltar ao Ministério das Infra-estruturas.

 

Pouco depois, porém, Frederico Pinheiro terá voltado ao edifício do Ministério para recolher o computador portátil que usava em funções, altura em que terá sido interceptado por outros membros do gabinete (todos mulheres) que tentaram evitar que levasse o equipamento. Houve gritos, confrontos físicos e até há relatos de socos nas pessoas que o rodeavam, e Frederico Pinheiro consegue fugir pelas escadas do prédio, pelo que a polícia terá sido chamada ao local.

 

As saídas foram fechadas e Frederico Pinheiro terá ficado retido no edifício e terá arremessado a sua bicicleta contra os vidros da fachada. Mas quando foi interceptado pela polícia, deixaram-no sair pois não havia ninguém para contrariar a sua versão dos factos. Isto porque as cinco pessoas do gabinete que tinham estado envolvidas nos confrontos ter-se-ão refugiado na casa de banho feminina, de onde só saíram quando a polícia as foi buscar. Uma delas terá sido conduzida ao hospital para realizar exames médicos.

 

PSD, Bloco de Esquerda, Iniciativa Liberal e Chega afirmaram que João Galamba já não tem condições para continuar como ministro. Marcelo Rebelo de Sousa ainda não se pronunciou sobre o inaudito episódio.

Sem comentários: