EDITORIAL
O populismo, segundo António Costa
Se o populismo é um mal, como o PS diz com frequência,
não pode ser nutrido com a sua fonte original de energia: a manipulação
ardilosa das palavras ou dos factos
Manuel Carvalho
24 de Abril de
2023, 21:30
https://www.publico.pt/2023/04/24/politica/editorial/populismo-segundo-antonio-costa-2047338
O
primeiro-ministro insurge-se, com razão, contra a “degradação do debate
político”, em boa medida causado pelo “vocabulário que a direita vai usando”.
Mas é incapaz de deixar uma palavra de apoio à única tentativa clara que Luís
Montenegro ousou para se afastar da fonte dessa degradação, o discurso e a
prática do Chega. Na entrevista à RTP este domingo, António Costa diz, pelo
contrário, que Montenegro quer “manter uma situação equívoca” com o partido de
André Ventura.
Ele ouviu o que a
maioria dos analistas, ou o Presidente, não ouviram. Tentou baralhar o que
Montenegro procurou tornar claro. E, dessa forma, alimentou o que tanto
critica: a degradação do debate político. Disse Montenegro: “Nós não vamos ter
o apoio de políticas ou políticos racistas, xenófobos, que têm posições
populistas altamente demagógicas.” Teria necessidade de dizer o óbvio, que se
refere ao Chega? Não bastou a resposta de Ventura para se perceber o
significado político da declaração?
Se o Chega
“condiciona e determina a acção política da direita política democrática”, como
diz António Costa, com razão, todos os esforços que a direita democrática fizer
para escapar a esse condicionamento merecem aplauso. O pedido diário de
demissões, a insistência absurda nos cenários de dissolução, a calúnia ou a
insinuação respondem à emoção tribal dos extremistas, não à racionalidade dos
democratas. Dizer, como Montenegro, que o pacote do Governo para a habitação é
“comunista” só se explica pela ignorância ou insensatez
Mas se António
Costa faz bem em chamar a atenção para o problema, deve reconhecer que o
populismo só se vence se o bloco democrático for coeso. Se está empenhado em
erradicar esse vírus, tem de assumir as responsabilidades do seu Governo no
festim de casos que alimentam o populismo. Não pode pôr o PSD lado a lado com o
Chega. E deve reconhecer com aplausos que Montenegro recusou com suficiente
clareza qualquer acordo com o Chega. Excluir a decência da política cabe a
todos e, em particular, ao chefe do Governo.
Percebe-se que a
mudança de estratégia do PSD incomode o Governo. Que é mais fácil explorar a
ambiguidade da relação com o Chega do que enfrentar o potencial do PSD para
disputar o centro político, o que só será possível sem as amarras do extremismo
populista. Não se pode é criar realidades paralelas. Se o populismo é um mal,
como o PS diz com frequência, não pode ser nutrido com a sua fonte original de
energia: a manipulação ardilosa das palavras ou dos factos. Esquecendo esta
verdade, o primeiro-ministro fez o que tanto criticou: alimentou o populismo.
Nem a proximidade do 25 de Abril o redime dessa falha.


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