terça-feira, 25 de abril de 2023

O populismo, segundo António Costa

 



EDITORIAL

O populismo, segundo António Costa

 

Se o populismo é um mal, como o PS diz com frequência, não pode ser nutrido com a sua fonte original de energia: a manipulação ardilosa das palavras ou dos factos

 

Manuel Carvalho

24 de Abril de 2023, 21:30

https://www.publico.pt/2023/04/24/politica/editorial/populismo-segundo-antonio-costa-2047338

 

O primeiro-ministro insurge-se, com razão, contra a “degradação do debate político”, em boa medida causado pelo “vocabulário que a direita vai usando”. Mas é incapaz de deixar uma palavra de apoio à única tentativa clara que Luís Montenegro ousou para se afastar da fonte dessa degradação, o discurso e a prática do Chega. Na entrevista à RTP este domingo, António Costa diz, pelo contrário, que Montenegro quer “manter uma situação equívoca” com o partido de André Ventura.

 

Ele ouviu o que a maioria dos analistas, ou o Presidente, não ouviram. Tentou baralhar o que Montenegro procurou tornar claro. E, dessa forma, alimentou o que tanto critica: a degradação do debate político. Disse Montenegro: “Nós não vamos ter o apoio de políticas ou políticos racistas, xenófobos, que têm posições populistas altamente demagógicas.” Teria necessidade de dizer o óbvio, que se refere ao Chega? Não bastou a resposta de Ventura para se perceber o significado político da declaração?

 

Se o Chega “condiciona e determina a acção política da direita política democrática”, como diz António Costa, com razão, todos os esforços que a direita democrática fizer para escapar a esse condicionamento merecem aplauso. O pedido diário de demissões, a insistência absurda nos cenários de dissolução, a calúnia ou a insinuação respondem à emoção tribal dos extremistas, não à racionalidade dos democratas. Dizer, como Montenegro, que o pacote do Governo para a habitação é “comunista” só se explica pela ignorância ou insensatez

 

Mas se António Costa faz bem em chamar a atenção para o problema, deve reconhecer que o populismo só se vence se o bloco democrático for coeso. Se está empenhado em erradicar esse vírus, tem de assumir as responsabilidades do seu Governo no festim de casos que alimentam o populismo. Não pode pôr o PSD lado a lado com o Chega. E deve reconhecer com aplausos que Montenegro recusou com suficiente clareza qualquer acordo com o Chega. Excluir a decência da política cabe a todos e, em particular, ao chefe do Governo.

 

Percebe-se que a mudança de estratégia do PSD incomode o Governo. Que é mais fácil explorar a ambiguidade da relação com o Chega do que enfrentar o potencial do PSD para disputar o centro político, o que só será possível sem as amarras do extremismo populista. Não se pode é criar realidades paralelas. Se o populismo é um mal, como o PS diz com frequência, não pode ser nutrido com a sua fonte original de energia: a manipulação ardilosa das palavras ou dos factos. Esquecendo esta verdade, o primeiro-ministro fez o que tanto criticou: alimentou o populismo. Nem a proximidade do 25 de Abril o redime dessa falha.

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