OPINIÃO
Janja Lula da Silva, Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique
A condecoração de Janja por serviços relevantes prestados
à cultura portuguesa é aquilo a que tecnicamente se chama uma “marcelice”.
“Marcelices” são gestos gratuitos ou insensatos.
João Miguel
Tavares
25 de Abril de
2023, 0:47
Como se não
bastasse ter enfiado Lula da Silva a martelo nas comemorações do 25 de Abril,
criando a polémica que se conhece, Marcelo Rebelo de Sousa resolveu aproveitar
a visita do Presidente do Brasil para agraciar o casal Lula com duas
condecorações. Lula da Silva recebeu o Grande-Colar da Ordem de Camões, por
promover as relações “entre os povos e as comunidades que se exprimem em
português” – o que me parece apropriado. Rosângela Lula da Silva recebeu a
Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, atribuída a quem promove a “expansão
da cultura portuguesa e dos seus valores” – o que me parece ridículo.
Rosângela Lula da
Silva – uma socióloga de 56 anos que começou a namorar com Lula em 2018, tinha
ele enviuvado há alguns meses da segunda mulher e quando ainda se encontrava na
prisão – casou-se com o Presidente do Brasil em Maio de 2022. Foi há menos de
um ano, e ainda se sente um certo entusiasmo de lua-de-mel. Todos conhecem
Rosângela por Janja, o que dá um toque de familiaridade popular, e a sua
ascensão mediática foi fulminante. Janja não desgruda de Lula; adora ser
primeira-dama; é uma das suas principais conselheiras; e foi uma das grandes
estrelas da campanha eleitoral. E pergunta o caro leitor: mas o que é que isso
tem que ver com o facto de ela ter sido condecorada com a Grã-Cruz da Ordem do
Infante D. Henrique? O ponto é mesmo esse: não tem nada que ver.
A condecoração de
Janja por serviços relevantes prestados à cultura portuguesa é aquilo a que
tecnicamente se chama uma “marcelice”. "Marcelices" são gestos gratuitos
ou insensatos, em que o sentido de Estado nem sempre abunda, e que só mesmo
Marcelo se lembraria de fazer. Por que raio é que a mulher de Lula da Silva foi
condecorada com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique? Que “serviços
relevantes” prestados a Portugal e à “expansão da cultura portuguesa” é que ela
praticou nos últimos 11 meses? Ninguém sabe e, até agora, nada foi explicado –
talvez porque a única explicação seja esta: as “marcelices” expandiram-se
imprudentemente até às ordens honoríficas.
As 'marcelices' expandiram-se imprudentemente até às
ordens honoríficas
Graças à
condecorada Janja, a pátria descobriu que o gesto não só não é inédito, como
está à beira de se tornar tradição: Marcelo passou a atribuir condecorações por
osmose e partilha de leito. Em 2017, condecorou o Presidente de Cabo Verde e a
primeira-dama de Cabo Verde. Em 2018, condecorou o Presidente de Angola e a
primeira-dama de Angola. As condecorações masculinas vão variando; a das
mulheres é sempre a mesma: Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Atribui-se
uma comenda como quem oferece um conjunto de pratos Vista Alegre.
Saloio, não?
Desde a sua eleição, Lula da Silva já foi a muito lado, e Janja foi atrás dele.
Os dois foram à Argentina – e Janja não foi condecorada. Foram ao Uruguai – e
Janja não foi condecorada. Foram aos Estados Unidos – e Janja não foi
condecorada. Foram à China – e Janja não foi condecorada. Vieram a Portugal – e
pimba, uma banda a tiracolo e uma placa dourada para Janja, que, segundo a sua
página de Wikipédia, é a primeira que recebeu até hoje. Grande Marcelo.
Parece um episódio
irrelevante? Sim, se não levarmos nada a sério. No seu convite para o 25 de
Abril, Marcelo desvalorizou a questão da corrupção, ignorou a guerra na Ucrânia
e ainda resolveu brincar à endogamia honorífica. Lula é um grande amigo de
Portugal, donde, Janja também deve ser. É o novo provérbio de Belém: por trás
de um Grande-Colar, há sempre uma Grã-Cruz.
O autor é
colunista do PÚBLICO



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