PREÇOS
Contágio da inflação a outros bens foi mais evidente em Portugal
em Março
Portugal foi o país da zona euro onde os preços mais
subiram durante o mês de Março. Peso dos alimentos no cabaz das famílias e
contágio a outros bens contribuíram para este resultado.
Sérgio Aníbal
1 de Abril de
2023, 6:11
O maior peso dos
produtos alimentares no cabaz de compras dos portugueses e o alastramento mais
rápido das pressões inflacionistas a outros tipos de bens e serviços
contribuíram para que, no decorrer do mês de Março, Portugal tivesse sido o
país da zona euro onde os preços cresceram mais.
De acordo com os
dados publicados esta sexta-feira pelo Eurostat, que usa como indicador de
referência para os preços o índice de preços harmonizado (que é aquele que é
comparável entre todos os países da União Europeia), a inflação mensal em
Portugal foi de 2%. No resto da zona euro, os preços também subiram em Março,
mas de uma forma menos acentuada: 0,9%.
E, tornando ainda
mais clara a forma como o país se destacou neste capítulo em Março, a subida de
preços de 2% registada em Portugal no decorrer do mês foi, por uma margem
significativa, a mais alta entre os 20 Estados da zona euro. O segundo país a
apresentar uma inflação mensal mais alta em Março foi a Grécia, com 1,6% e, em
13 dos países, este indicador ficou abaixo de 1%.
Os dados da
inflação disponibilizados pelo Eurostat e pelo Instituto Nacional de
Estatística (INE) esta sexta-feira, que não são ainda completos e definitivos,
revelam, no entanto, algumas explicações para o facto de, em Março, Portugal se
ter destacado desta forma entre os diversos países da zona euro.
Em primeiro
lugar, registou-se em Portugal um valor mais alto em termos mensais daquilo a
que se chama a inflação subjacente, que é a taxa de inflação excluindo da
análise os bens com preços mais voláteis, os energéticos e os alimentares.
No decorrer desta
crise inflacionista, a subida dos preços começou inicialmente por se verificar
quase exclusivamente nos bens energéticos e alimentares, principalmente depois
do impacto trazido pela guerra na Ucrânia no ano passado. Mas,
progressivamente, tem vindo a ser evidente o contágio dessas subidas de preços
a outros bens, seja pelo peso que a energia tem na estrutura de custos de
muitos outros produtos, seja pelo aumento dos salários que algumas empresas têm
também agora de suportar, seja pelo alargamento das margens de lucro em alguns
sectores.
É por isso que,
numa altura em que já se verifica um recuo da taxa de inflação homóloga total,
a taxa de inflação homóloga subjacente tem continuado a subir.
Em Março, a variação
mensal dos preços dos bens e serviços excluindo alimentos não-transformados e
produtos energéticos foi, na zona euro, de 1,2%, mas em Portugal atingiu os 2%.
Pelo menos durante este mês, este efeito de contágio aos outros bens e serviços
para além da energia e dos alimentos sentiu-se de forma mais forte em Portugal
do que nos outros países da zona euro.
Depois, o facto
de, nos bens alimentares, se ter continuado a verificar uma subida forte dos
preços também não ajudou Portugal. A subida, no caso dos bens alimentares
não-transformados, até terá sido maior na zona euro do que em Portugal (na zona
euro foi de 2% e em Portugal, no índice não-harmonizado foi de 1,5%), mas esse
tipo de bens tem um maior peso no cabaz de compras das famílias portuguesas do
que das da média da zona euro.
No cálculo do
índice de preços harmonizado, os bens alimentares correspondem a 14,6% do cabaz
de compras no total da zona euro, mas, no caso de Portugal, esse número ascende
a 19,5%. Isto é, as famílias portuguesas, em comparação com a média europeia,
são particularmente penalizadas pela actual escalada de preços que se verifica
nos bens alimentares.
De igual modo, o
facto de os bens com uma evolução mais favorável dos preços (com uma variação
mensal negativa de 2,2% em Março) serem os energéticos também acabou por
prejudicar Portugal face aos outros países. No total da zona euro, a
electricidade, gás e outros combustíveis consumidos em casa representam 6,1% do
orçamento familiar e os combustíveis automóveis 4,2%, enquanto em Portugal
estes valores são mais baixos, de 4,6% e de 3,5%, respectivamente.
Inflação homóloga recua
A subida mais
forte dos preços em Março em Portugal contribuiu para que a taxa de inflação
homóloga portuguesa também tenha recuado menos do que a da zona euro.
Em Portugal, este
indicador — que representa a variação de preços face ao mesmo mês do ano
passado e que é o indicador habitualmente mais seguido para avaliar a inflação
— passou de 8,6% em Fevereiro para 8% em Março, enquanto na zona euro o recuo
foi mais significativo, de 8,5% para 6,9%.
Portugal, que em
Fevereiro registava uma inflação homóloga harmonizada que ficava acima da média
da zona euro em apenas 0,1 pontos percentuais, passou assim a ter 1,1 pontos
percentuais a mais, naquela que é a maior diferença registada desde que a
Europa entrou na presente crise inflacionista.
À primeira vista,
pode parecer surpreendente que, num mês em que os preços continuaram a subir de
forma significativa, a taxa de inflação homóloga diminua. Mas a verdade é que o
recuo deste indicador já era largamente esperado e tem uma razão simples: ao
passar a calcular-se a variação dos preços anual com o mês de Março de 2022,
passa a sentir-se um efeito-base provocado pela guerra. Foi em Março do ano
passado que os preços de vários bens, em particular os energéticos, dispararam
de forma muito significativa (inflação mensal de 2,5%, o valor mais alto desde
os anos 1990) e, por isso, a comparação que agora é feita com os preços actuais
dá lugar a variações homólogas mais baixas.
É evidente nos
números publicados pelo INE (do índice de preços no consumidor não-harmonizado)
o contributo que os bens energéticos deram para este resultado, já que passaram
em Março deste ano a ficar a um nível mais baixo do que aquele que registaram
em Março do ano passado, no início da guerra na Ucrânia. Em Março, os preços
dos produtos energéticos caíram 0,4% e a variação face ao mesmo mês do ano
passado evoluiu de 1,9% em Fevereiro para -4,4%.
Já nos bens
alimentares, que mês após mês têm reforçado o seu papel como principais motores
das pressões inflacionistas em Portugal, os sinais de um abrandamento dos
preços são quase inexistentes. De acordo com o INE, os preços dos produtos
alimentares não-transformados voltaram, tal como tinha acontecido em Fevereiro,
a subir 1,5% durante o mês de Março. E a variação homóloga, face a Março do ano
passado, manteve-se a um nível extremamente alto, de 19,3%, com um ligeiro
abrandamento (provocado pelo efeito-base) face aos 20,1% de Fevereiro.
Sinais contrários para o BCE
Atentos aos dados
da inflação agora divulgados pelas autoridades estatísticas terão estado
certamente os responsáveis do Banco Central Europeu, que terão de decidir, na
sua próxima reunião, se continuam a subir taxas de juro ao mesmo ritmo para
travar a inflação ou se abrandam ou param de o fazer. A descida de 1,6 pontos
percentuais registada na taxa de inflação homóloga na zona euro em Março é a
mais acentuada de que há registo e poderia, por isso, transmitir ao BCE sinais
de que o combate contra a subida de preços está já a produzir resultados e que
pode não ser necessário ir muito mais longe da subida dos juros.
No entanto, em
Frankfurt, o sentimento dominante parece ser o de que a redução da taxa de
inflação homóloga em Março não chega para declarar uma pausa na guerra contra a
inflação.
O argumento usado
é o de que a taxa de inflação homóloga apenas recuou por causa da variação
negativa dos preços energéticos face a Março do ano passado, no início da
guerra. A principal preocupação está na taxa de inflação homóloga subjacente,
que retira da análise os bens energéticos e alimentares e que, ao contrário da
inflação total, não recuou. Pelo contrário subiu de 7,4% para 7,5% na zona
euro.
Foi este número
que, logo esta sexta-feira, a presidente do BCE, na reacção aos números
publicados pelo Eurostat, decidiu destacar, afirmando que a inflação subjacente
estava ainda “demasiado alta”.

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