domingo, 2 de abril de 2023

Contágio da inflação a outros bens foi mais evidente em Portugal em Março

 


PREÇOS

Contágio da inflação a outros bens foi mais evidente em Portugal em Março

 

Portugal foi o país da zona euro onde os preços mais subiram durante o mês de Março. Peso dos alimentos no cabaz das famílias e contágio a outros bens contribuíram para este resultado.

 

Sérgio Aníbal

1 de Abril de 2023, 6:11

https://www.publico.pt/2023/04/01/economia/noticia/contagio-inflacao-bens-evidente-portugal-marco-2044612

 

O maior peso dos produtos alimentares no cabaz de compras dos portugueses e o alastramento mais rápido das pressões inflacionistas a outros tipos de bens e serviços contribuíram para que, no decorrer do mês de Março, Portugal tivesse sido o país da zona euro onde os preços cresceram mais.

 

De acordo com os dados publicados esta sexta-feira pelo Eurostat, que usa como indicador de referência para os preços o índice de preços harmonizado (que é aquele que é comparável entre todos os países da União Europeia), a inflação mensal em Portugal foi de 2%. No resto da zona euro, os preços também subiram em Março, mas de uma forma menos acentuada: 0,9%.

 

E, tornando ainda mais clara a forma como o país se destacou neste capítulo em Março, a subida de preços de 2% registada em Portugal no decorrer do mês foi, por uma margem significativa, a mais alta entre os 20 Estados da zona euro. O segundo país a apresentar uma inflação mensal mais alta em Março foi a Grécia, com 1,6% e, em 13 dos países, este indicador ficou abaixo de 1%.

 

Os dados da inflação disponibilizados pelo Eurostat e pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) esta sexta-feira, que não são ainda completos e definitivos, revelam, no entanto, algumas explicações para o facto de, em Março, Portugal se ter destacado desta forma entre os diversos países da zona euro.

 

Em primeiro lugar, registou-se em Portugal um valor mais alto em termos mensais daquilo a que se chama a inflação subjacente, que é a taxa de inflação excluindo da análise os bens com preços mais voláteis, os energéticos e os alimentares.

 

No decorrer desta crise inflacionista, a subida dos preços começou inicialmente por se verificar quase exclusivamente nos bens energéticos e alimentares, principalmente depois do impacto trazido pela guerra na Ucrânia no ano passado. Mas, progressivamente, tem vindo a ser evidente o contágio dessas subidas de preços a outros bens, seja pelo peso que a energia tem na estrutura de custos de muitos outros produtos, seja pelo aumento dos salários que algumas empresas têm também agora de suportar, seja pelo alargamento das margens de lucro em alguns sectores.

 

É por isso que, numa altura em que já se verifica um recuo da taxa de inflação homóloga total, a taxa de inflação homóloga subjacente tem continuado a subir.

 

Em Março, a variação mensal dos preços dos bens e serviços excluindo alimentos não-transformados e produtos energéticos foi, na zona euro, de 1,2%, mas em Portugal atingiu os 2%. Pelo menos durante este mês, este efeito de contágio aos outros bens e serviços para além da energia e dos alimentos sentiu-se de forma mais forte em Portugal do que nos outros países da zona euro.

 

Depois, o facto de, nos bens alimentares, se ter continuado a verificar uma subida forte dos preços também não ajudou Portugal. A subida, no caso dos bens alimentares não-transformados, até terá sido maior na zona euro do que em Portugal (na zona euro foi de 2% e em Portugal, no índice não-harmonizado foi de 1,5%), mas esse tipo de bens tem um maior peso no cabaz de compras das famílias portuguesas do que das da média da zona euro.

 

No cálculo do índice de preços harmonizado, os bens alimentares correspondem a 14,6% do cabaz de compras no total da zona euro, mas, no caso de Portugal, esse número ascende a 19,5%. Isto é, as famílias portuguesas, em comparação com a média europeia, são particularmente penalizadas pela actual escalada de preços que se verifica nos bens alimentares.

 

De igual modo, o facto de os bens com uma evolução mais favorável dos preços (com uma variação mensal negativa de 2,2% em Março) serem os energéticos também acabou por prejudicar Portugal face aos outros países. No total da zona euro, a electricidade, gás e outros combustíveis consumidos em casa representam 6,1% do orçamento familiar e os combustíveis automóveis 4,2%, enquanto em Portugal estes valores são mais baixos, de 4,6% e de 3,5%, respectivamente.

 

Inflação homóloga recua

A subida mais forte dos preços em Março em Portugal contribuiu para que a taxa de inflação homóloga portuguesa também tenha recuado menos do que a da zona euro.

 

Em Portugal, este indicador — que representa a variação de preços face ao mesmo mês do ano passado e que é o indicador habitualmente mais seguido para avaliar a inflação — passou de 8,6% em Fevereiro para 8% em Março, enquanto na zona euro o recuo foi mais significativo, de 8,5% para 6,9%.

 

Portugal, que em Fevereiro registava uma inflação homóloga harmonizada que ficava acima da média da zona euro em apenas 0,1 pontos percentuais, passou assim a ter 1,1 pontos percentuais a mais, naquela que é a maior diferença registada desde que a Europa entrou na presente crise inflacionista.

 

À primeira vista, pode parecer surpreendente que, num mês em que os preços continuaram a subir de forma significativa, a taxa de inflação homóloga diminua. Mas a verdade é que o recuo deste indicador já era largamente esperado e tem uma razão simples: ao passar a calcular-se a variação dos preços anual com o mês de Março de 2022, passa a sentir-se um efeito-base provocado pela guerra. Foi em Março do ano passado que os preços de vários bens, em particular os energéticos, dispararam de forma muito significativa (inflação mensal de 2,5%, o valor mais alto desde os anos 1990) e, por isso, a comparação que agora é feita com os preços actuais dá lugar a variações homólogas mais baixas.

 

É evidente nos números publicados pelo INE (do índice de preços no consumidor não-harmonizado) o contributo que os bens energéticos deram para este resultado, já que passaram em Março deste ano a ficar a um nível mais baixo do que aquele que registaram em Março do ano passado, no início da guerra na Ucrânia. Em Março, os preços dos produtos energéticos caíram 0,4% e a variação face ao mesmo mês do ano passado evoluiu de 1,9% em Fevereiro para -4,4%.

 

Já nos bens alimentares, que mês após mês têm reforçado o seu papel como principais motores das pressões inflacionistas em Portugal, os sinais de um abrandamento dos preços são quase inexistentes. De acordo com o INE, os preços dos produtos alimentares não-transformados voltaram, tal como tinha acontecido em Fevereiro, a subir 1,5% durante o mês de Março. E a variação homóloga, face a Março do ano passado, manteve-se a um nível extremamente alto, de 19,3%, com um ligeiro abrandamento (provocado pelo efeito-base) face aos 20,1% de Fevereiro.

 

Sinais contrários para o BCE

Atentos aos dados da inflação agora divulgados pelas autoridades estatísticas terão estado certamente os responsáveis do Banco Central Europeu, que terão de decidir, na sua próxima reunião, se continuam a subir taxas de juro ao mesmo ritmo para travar a inflação ou se abrandam ou param de o fazer. A descida de 1,6 pontos percentuais registada na taxa de inflação homóloga na zona euro em Março é a mais acentuada de que há registo e poderia, por isso, transmitir ao BCE sinais de que o combate contra a subida de preços está já a produzir resultados e que pode não ser necessário ir muito mais longe da subida dos juros.

 

No entanto, em Frankfurt, o sentimento dominante parece ser o de que a redução da taxa de inflação homóloga em Março não chega para declarar uma pausa na guerra contra a inflação.

 

O argumento usado é o de que a taxa de inflação homóloga apenas recuou por causa da variação negativa dos preços energéticos face a Março do ano passado, no início da guerra. A principal preocupação está na taxa de inflação homóloga subjacente, que retira da análise os bens energéticos e alimentares e que, ao contrário da inflação total, não recuou. Pelo contrário subiu de 7,4% para 7,5% na zona euro.

 

Foi este número que, logo esta sexta-feira, a presidente do BCE, na reacção aos números publicados pelo Eurostat, decidiu destacar, afirmando que a inflação subjacente estava ainda “demasiado alta”.

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