domingo, 2 de abril de 2023

Como o uso da Euribor expõe mais Portugal às subidas de juros do BCE

 



JUROS

Como o uso da Euribor expõe mais Portugal às subidas de juros do BCE

 

Taxa de juro média dos empréstimos à habitação em vigor disparou em Portugal nos últimos meses, ultrapassando as registadas em países como a Alemanha e a França, onde as taxas fixas são dominantes

 

Sérgio Aníbal

1 de Abril de 2023, 6:22

https://www.publico.pt/2023/04/01/economia/noticia/uso-euribor-expoe-portugal-subidas-juros-bce-2044625

 

Com níveis de endividamento ainda relativamente elevados e com a maioria dos empréstimos a taxas variáveis, as famílias portuguesas estão, ao nível europeu, entre as que mais rapidamente estão a sentir o impacto financeiro do agravamento do custo do crédito que o Banco Central Europeu está a impor para contrariar a inflação.

 

Cada vez que o BCE sobe as suas taxas de juro de referência, aquilo que acontece é um agravamento dos custos de crédito que, passando pelo sistema bancário, acaba por chegar às empresas e às famílias. Os bancos vêem o acesso ao financiamento do banco central ficar mais caro e repercutem esse aumento de custos nos empréstimos que concedem às empresas e às famílias.

 

É esta a forma encontrada pelos bancos centrais para, limitando o recurso ao crédito, abrandar o consumo e o investimento, na esperança de que, por via de uma redução da procura, os preços abrandem.

 

O BCE tenta que as suas subidas de taxas de juro sejam capazes de recolocar a inflação no médio prazo dentro do objectivo de 2%, sem lançar as economias da zona euro para uma recessão. Mas o risco de se poder ir longe de mais neste aperto da política monetária existe e pode tornar-se ainda mais evidente para alguns dos Estados-membros, tendo em conta que o banco central define a sua política para o total da zona euro, sendo que a união monetária europeia conta com países com características substancialmente diferentes.

 

E Portugal tem duas características que fazem com que a subida das taxas de juro por parte do BCE possa ter um impacto mais forte e imediato no rendimento das famílias portuguesas do que aquilo que acontece na média da zona euro: por um lado, o nível de endividamento das famílias, embora esteja a revelar uma forte tendência de redução deste 2012 (com uma breve interrupção durante a pandemia), ainda é relativamente elevado dentro do panorama europeu; e, por outro lado, o facto de em Portugal os contratos de empréstimo, principalmente para compra de casa, serem maioritariamente estabelecidos com taxas de juro variáveis, indexadas ao valor das taxas Euribor.

 

Isto faz com que um número maior de famílias sinta, nos seus rendimentos, um efeito directo e imediato das subidas de taxas de juro decididas pelo BCE.

 

Na Alemanha e França, por exemplo, países onde os empréstimos com taxas de juro variáveis são uma minoria e a prática mais corrente é a concessão de crédito a taxas fixas, todas as pessoas que tenham contraído um empréstimo para compra de casa antes de o BCE ter iniciado, em meados do ano passado, a sua escalada dos juros, mantém as suas prestações mensais ao mesmo nível relativamente baixo. Só quem está agora a pedir um empréstimo é que se depara com um agravamento dos custos a suportar com juros.

 

Mas em Portugal – e nos outros países com uma prevalência de contratos de crédito a taxa de juro variável – não só quem está a pedir um empréstimo agora mas também aqueles que têm as suas prestações de empréstimos passadas indexadas à Euribor suportam um aumento das suas despesas, que lhes reduz o rendimento disponível para outras compras.

 

É por isso que, de acordo com os dados do BCE, a taxa de juro média de todos os empréstimos para compra de casa em vigor subiu, entre Janeiro de 2022 e Janeiro de 2023, de 0,8% para 2,6% em Portugal, enquanto na Alemanha e na França praticamente não se alteraram, registando uma subida que não chega sequer a 0,1 pontos percentuais.

 

Portugal é um dos países da zona euro onde, nos últimos anos, os contratos de crédito a taxas de juro variáveis têm sido mais prevalecentes, a par de países como a Finlândia, os bálticos, Chipre ou Malta. É, por isso, na actual conjuntura de inflação alta que leva o BCE a agir, um dos que irão sentir um maior efeito da subida de taxas de juro nos níveis de consumo que as famílias conseguem manter.

 

Isso mesmo é assumido pelo Banco de Portugal nas suas últimas projecções para a economia nacional. Apesar de colocar o PIB português a crescer mais do que o da média da zona euro nos próximos anos, a entidade liderada diz que tal irá acontecer por via das exportações, do recebimento de fundos europeus e do aumento da produtividade e não do consumo. “O consumo cresce mais moderadamente em Portugal do que na área do euro, condicionado pela maior exposição à subida das taxas de juro, devido ao peso expressivo dos empréstimos a taxa variável”, afirma o boletim económico do banco publicado na semana passada.

 

Ainda assim, olhando para os últimos anos, dificilmente os portugueses se podem queixar desta característica que os deixa mais sensíveis ao rumo de política seguido pelo BCE. No passado, por exemplo quando o BCE desceu taxas de juro de forma acentuada a seguir à crise de 2008, aconteceu o efeito simétrico, com as famílias portuguesas a sentirem de forma mais generalizada e rápida na sua situação financeira a aplicação por parte do banco central de uma política monetária mais expansionista.

 

E em todo o período desde Abril de 2009 a Setembro de 2022, as taxas de juro suportadas em média nos empréstimos à habitação em Portugal foram mais baixas — por causa do valor mínimo das Euribor — do que na Alemanha e na França

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