sábado, 10 de março de 2018

Camisaria Pitta é mais uma loja histórica a fechar na Baixa / A nau de bacalhau com velas de queijo e corvos de massapão por ANTÓNIO SÉRGIO ROSA DE CARVALHO




Depois da Alfaiataria Nunes Correia e da Alfaitaria Picadilly, agora a Camisaria Pitta ... O que “está a dar” é nítidamente o “pastel de Bacalhau com queijo”, etc.,
Bye Bye Baixa ...
OVOODOCORVO

Camisaria Pitta é mais uma loja histórica a fechar na Baixa
A histórica alfaiataria da baixa lisboeta está em “liquidação total” a preparar-se para fechar as portas no final do mês de Maio. Aberta no final do século XIX, é mais uma loja centenária que fecha na cidade.

 Cristiana Faria Moreira
CRISTIANA FARIA MOREIRA 9 de Março de 2018, 20:27

Sobram poucas casas assim em Lisboa, onde ainda se riscam, cortam e cosem tecidos em oficinas que têm ar de museu. As casas com alfaiates e costureiras tradicionais contam-se pelos dedos das mãos e não há quem queira pegar-lhes nas tesouras. É mais uma loja, onde se fazia por vender o que é feito à medida, que tem o fim anunciado. A Camisaria Pitta, que ocupa os números 195 e 197 da rua Augusta, na baixa de Lisboa, fecha no fim de Maio.

O anúncio foi feito pelo gerente da alfaiataria, Ricardo Teixeira, na sua página de Facebook. “Venho comunicar com muita tristeza a todos os meus amigos que a nossa loja Camisaria Pitta na Baixa vai encerrar, iniciaremos a liquidação total de imediato”, escreveu.

É o ponto final na história daquela que será a camisaria mais antiga da Península Ibérica. Foi em 1887 que A. M. Pitta foi buscar inspiração às casas inglesas, para criar o negócio. E que se instalou, primeiro, na rua de São Julião, mas que havia de passar, em 1903, para a rua Augusta, onde foi esculpida a fachada em madeira, com o detalhe de nela se poder procurar por dois colarinhos esculpidos. Serviu a realeza e, mais tarde, vestiu o corpo diplomático da presidência e as elites da capital.

O gerente da alfaiataria não quis prestar qualquer declaração ao PÚBLICO sobre as razões para o encerramento.

A histórica alfaiataria integra o programa “Lojas com História”, promovido pela câmara de Lisboa, para “preservar e salvaguardar os estabelecimentos [de comércio tradicional] e o seu património material, histórico e cultural”. No entanto, essa distinção não tem impedido que vários negócios "com história" encerrem na cidade. Ainda no início do ano, o PÚBLICO dava conta do fecho da Livraria Aillaud & Lellos na rua do Carmo, que ali abriu em 1931. O aumento do preço das rendas, por conta da pressão imobiliária na cidade, tem obrigado muitas destas casas a fechar as portas.

A Camisaria Pitta começou por ser uma casa que privilegiava o que é feito à medida, tendo em atenção que cada ombro é um ombro, cada manga é uma manga, cada corpo é um corpo. Onde tudo se podia personalizar - do colarinho ao punho ou ao pesponto. Mas a alfaiataria tradicional, que começou por ser um ofício desprezado - diz quem sabe - tornou-se um luxo pouco acessível. Que ainda é procurado por quem têm medidas fora do que o padronizado pronto-a-vestir oferece ou por quem pode pagar milhares de euros por uma "obra de arte" que assenta no corpo como uma segunda pele.

Culpa dos tempos, das modas, da abertura ao mercado internacional, algumas casas obrigaram-se a apostar no pronto-a-vestir para sobreviver. Foi o caso da Pitta, onde ainda se vendem casacos, camisas, polos, blusões, fatos completos, chapéus e gravatas para homem.

Agora, afixados nas montras estão pequenos cartazes que anunciam as “promoções e grandes descontos” que se podem encontrar no interior. Manter-se-á assim até ao final do mês de Maio.

Mas a memória da casa há-de ficar perpetuada no filme O Leão da Estrela (1947), quando António Silva elogia a indumentária de outro personagem: “São camisas de qualidade, são Pitta”.




A nau de bacalhau com velas de queijo e corvos de massapão

A autenticidade e a sobrevivência da nossa identidade está ameaçada pelo triunfo efémero do Híbrido.

ANTÓNIO SÉRGIO ROSA DE CARVALHO
9 de Janeiro de 2016, 1:25

Em Lisboa, os últimos dias de 2015 foram dominados na opinião pública, pelo polémico e imposto desaparecimento do Palmeira.

O Palmeira era um restaurante “atascado” de consideráveis dimensões em notável espaço térreo Pombalino, conjugando respectivas abóbodas e pilares com antiga e genuína decoração “Portugal/Português”.

Aqui, azulejos e ferragens junto a autênticos pastéis de bacalhau (sem queijo) permitiam associações mentais em “viagens por serras e vales” no tempo das estradas nacionais, com árvores ancestrais apresentando bandas brancas reveladas por redondos faróis pejados de mosquitos, feixes luminosos invasores de silhuetas campestres sobre um glorioso e estrelado céu nocturno, dominado pelas abóbodas do Firmamento.

Tudo isto terminou abruptamente. A C.M.L. decidiu vender o edifício, na parte superior uma ruína, sem acautelar a garantia de sobrevivência deste notável e autêntico estabelecimento. Isto, depois de apregoar aos quatro ventos a criação do Projecto “Lojas com História”., que garantiu a formulação de extensas e completas listas de estabelecimentos a preservar, definidas por notáveis seguidores de Ulisses.

Estas heróicas listas e intenções só apresentavam uma sombra. A C.M.L. não garantia a protecção perante a implacável e arbitrária Lei do Arrendamento. Assim, declarava-se impotente e também vítima, numa mítica, heróica e eterna luta entre as intenções, a defesa do valor único cultural de tais estabelecimentos, e a realidade dos valores e interesses dos investidores que se sobrepunham aos valores culturais.

Havia portanto uma essência pura de “Dr. Jeckill” no organismo da C.M.L., que sucumbia assim por impotência, ás maléficas intenções vindas do “exterior”.

Mas a perversidade reside precisamente no facto de que tal como na conhecida novela, “Dr. Jeckill” e “Mr. Hyde” são duas facetas da mesma pessoa. E não se trata aqui, apenas. de um conflicto entre duas essências no mesmo organismo, em luta interna e permanente.

Não, mais perversamente, aqui, a existência de “Dr. Jeckill” é um falso mito criado por “Mr. Hyde”.

Por outras palavras, a principal causa do desaparecimento dos Estabelecimentos é a política urbanística desenvolvida pela C.M.L. e respectivos licenciamentos concedidos.

Na avalanche de projectos de hóteis e residências turísticas permitida e licenciada pela C.M.L. está presente uma ausência total de estratégia ou visão futura. Cada projecto, no actual estado de coisas, implica inevitávelemente o desaparecimento de qualquer estabelecimento existente, independentemente da sua antiguidade ou do seu reconhecido e apregoado insubstituível valor cultural.

Embora todos reconheçam que a autenticidade e a diferença local e cultural, constituem a principal e determinante razão da visita turística, Lisboa está a ser destruída sistemáticamente na sua identidade e a ser transformada numa artificial plataforma onde a banalidade, o pastiche e o híbrido triunfam.

Numa grave crise económica, repentinamente o Turismo surgiu como balão de oxigénio salvador.

Como em Portugal nada se medita, reflecte ou se planeia, tudo simplesmente parece nos acontecer, aceitamoss estes processos como inevitáveis. No entanto estes processos conhecem responsáveis e são estimulados ou contrariados por alguém.

Numa Lisboa onde o “pastel de bacalhau com queijo” triunfa, a autenticidade e a sobrevivência da nossa identidade está ameaçada pelo triunfo efémero e irreversivelemente destruidor do Híbrido.

A nau heráldica e respectivos atributos iconográficos originalmente símbolo das características, virtudes e valores da nobre Urbe, está a ser lentamente mas irreversívelmente transformada numa “nau de bacalhau, com velas de queijo e corvos de massapão.”

Historiador de Arquitectura

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