terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Que futuro para as lojas do passado?


Que futuro para as lojas do passado?
CLAUDIA CARVALHO SILVA e JOANA GUIMARÃES
03/01/2016 - PÚBLICO

O antigo está na moda e há quem faça o novo parecer velho. Uma oportunidade para as lojas históricas? Um passeio em Lisboa e no Porto revela sucesso, reinvenção, tristeza. E ameaças.

Por entre milhares de braços, pernas e bonecas — novas e velhas, de pano, porcelana ou plástico — Manuela Cutileiro, herdeira do Hospital das Bonecas, aberto desde 1830 na Praça da Figueira, em Lisboa, diz que tudo corre bem com o seu negócio. “Quando vêm ter connosco, as pessoas procuram uma coisa diferente e uma qualidade diferente”, explica.

O sucesso de algumas das lojas antigas de cidades como Lisboa e Porto, passa justamente por isso: oferecem exclusividade, historicidade e qualidade. O crescimento do turismo é decisivo. Mas há diferenças importantes entre as duas cidades.

No Porto, o negócio tem crescido, as lojas mais tradicionais mantêm-se e o cenário é favorável para quem ali trabalha.

Mas em Lisboa há lojas que bamboleiam na incerteza. Os motivos são vários: há concorrência por parte das grandes superfícies e das feiras de rua, e há falta de clientes. Mas, em grande parte, são as novas alterações à lei do arrendamento que estão a causar insegurança, levando alguns estabelecimentos ao encerramento.

Recuperar o antigo
Há lojas centenárias a fechar, mas há ao mesmo tempo novos espaços a abrir, cujo conceito é, justamente, recuperar um gosto antigo e fazer decorações vintage. Casos como a mercearia biológica Maria Granel, em Alvalade, assente no conceito tradicional de venda exclusivamente a granel, sem embalagens. Também a gerência do Botequim da Graça quis, desde o início, que o espaço fosse decorado “à moda antiga”, semelhante à decoração que existia quando era gerido pela poetisa Natália Correia, em 1969. Depois da sua morte, o bar encerrou e foi reaberto em 2010, com gerência de Hugo Costa.

Face à concorrência de outros bares, Hugo Costa, de 34 anos, refere que a solução passa por criar um conjunto de clientes fidelizados. “Este estilo vintage hoje em dia não tem muitas ameaças, aliás, é mais fácil que seja antes visto como uma ameaça para os outros”, diz, explicando que a ideia da decoração atrai muita gente ao Botequim.

Tem clientes dos 16 aos 70 anos, mas de nada adianta ter um “espaço muito bonito se o serviço for mau”. “Apesar de termos um estilo vintage, tentamos sempre inovar”, conta, considerando que o negócio está bom e que as críticas têm sido positivas.

O aparecimento destes novos negócios que incitam a “reviver o passado” surge da “capacidade de regeneração” das cidades, diz o presidente da Associação de Comerciantes do Porto (ACP), Nuno Camilo. Estes negócios fazem com que se procure “um produto que faça a diferença”, o que atrai mais pessoas. É um círculo vicioso que acaba por ser vantajoso para todos: os que abrem novos negócios e os que, há décadas na cidade, têm como bons vizinhos estes novos comerciantes.


Botequim da Graça




No Porto, algumas lojas mais recentes, como o cabeleireiro K-Urban ou a Central Conserveira, apostam, precisamente, numa decoração que mais não é do que uma viagem a outro tempo, mas onde se garante a qualidade do produto. Estes novos espaços tiveram de lutar pelo seu lugar no mercado, mas têm agora público cativo que não se limita aos moradores portuenses.

No caso da Central Conserveira, a sócia-gerente Joana Azevedo defende a selecção de produtos nacionais, que muitas vezes não se encontram nos hipermercados: “Procuramos novos mercados, com novos designs, mais apelativos, novas marcas.”

A escolha da conserva como produto primordial foi uma aposta ganha, mas os sócios da loja não se ficaram por aqui e criaram uma pequena área de restauração, onde os clientes escolhem a conserva que querem e depois a podem comer a quente, com combinações improváveis: “Servimos sardinha com mel ou cavala com compota. Esta área ajudou ao negócio. Por curiosidade, as pessoas aderiram.” A originalidade faz com que sejam uma escolha para os trabalhadores da cidade, que almoçam por lá, e para turistas, que mesmo não repetindo a experiência por estarem de passagem, recomendam a outros que visitam o Porto.

Paulo Guedes, cabeleireiro do K-Urban, também defende que a qualidade é o que mantém os espaços em funcionamento. O salão tem a decoração inspirada na Barbearia Tinoco, que ali começou a funcionar em 1929 e que não pode ser modificada por ser património da cidade, mas a aposta é na modernização de serviços e nas parcerias. “Estamos a crescer todos os anos, até conseguimos fidelizar turistas. Temos também parcerias com hotéis, pelo que temos muito público estrangeiro”, diz o cabeleireiro.


Central Conserveira



O negócio vai bem
Em Lisboa, as lojas que têm um carácter exclusivo são das que mais clientes atraem. Um desses casos é a Luvaria Ulisses, no Chiado. Será uma das lojas mais pequenas do mundo, com apenas quatro metros quadrados na área do atendimento. Carlos Carvalho, co-proprietário, diz que o que fascina os visitantes é precisamente o facto de ser uma loja minúscula, de ter uma decoração elegante e “o artigo em si, que é a base de tudo”.

Todas as luvas são manufacturadas por trabalhadores da Ulisses, num outro espaço em Lisboa, mantendo o mesmo processo de fabricação usado nos anos 1920. “Estamos aqui há 90 anos. Quem resistiu a todo este tempo, com certeza que se vai manter”, garante Carlos Carvalho. É verdade que há um século todas as senhoras usavam luvas — mesmo no Verão — e que agora as usam apenas por necessidade, quando está frio. Ou seja, “o mercado nacional passou a ser sazonal e isso sentiu-se no negócio”. “Mas no Verão temos os estrangeiros”, diz. E assim equilibram as contas.

Também o Hospital das Bonecas se insere na categoria “exclusividade”. É dos únicos estabelecimentos deste género no mundo e, para além do restauro de bonecas, também “cura” peluches e objectos de cerâmica. Outro dos serviços é a confecção à medida de trajes de Carnaval tradicionalmente portugueses — ainda que também façam fatos de príncipes e princesas —, uma oferta que gera anualmente “muitas encomendas”.

“Já passámos por tantas crises que, mais crise, menos crise, vamos sobrevivendo e o negócio está estável”, diz Manuela Cutileiro. “As coisas não vêm aqui parar pelo valor comercial, mas pelo valor afectivo”, diz a dona do hospital, que também funciona como museu, o que faz com que receba diariamente visitas de muitos turistas.


Todas as luvas da Luvaria Ulisses, no Chiado, são manufacturadas




No Porto, a Rua Sá de Bandeira é um dos muitos exemplos do poder do comércio na Baixa da cidade. Para além das inúmeras lojas, a artéria é a ligação para muitas outras ruas onde o comércio tradicional está vivo e de boa saúde, e onde a oferta mais moderna encontrou espaço.
Luísa Vilas Boas é sócia-gerente do Bazar Paris há 23 anos, mas o espaço tem mais de 100. A loja, que a princípio vendia outro tipo de produtos, como perfumes vindos de Paris, especializou-se em brinquedos e artigos de coleccionismo: “Acredito que o nosso sucesso vem da oferta de produtos diferenciados, que não se encontram nas grandes superfícies.”

António Almeida Reis, dono da Pérola do Bolhão, uma mercearia com 98 anos numa das ruas do mercado, acredita que, no seu caso, a escolha recai muitas vezes na sua mercearia e não noutras porque “pesa a granel” e tem “o bacalhau como especialidade”.

O comerciante não sentiu a crise: “Nunca pensámos em fechar!”, exclama. E nem a grande quantidade de mercearias do género à sua volta o demoveu: “Esta zona agora é um sítio de muita passagem, dá para todos!” O aumento dos turistas é visto como uma vantagem. Em 2015, exemplifica, vendeu muito vinho do Porto e café a estrangeiros.


O Hospital das Bonecas está aberto desde 1830 na Praça da Figueira, em Lisboa




Já se viveram melhores dias
A atracção que estas lojas exercem é fácil de explicar — lá dentro estão bocadinhos da história das cidades, um local onde muitas vezes o interlocutor é alguém que, também ele, tem muitos saberes para partilhar. “Quando perdemos estas lojas, perdemos também o saber-fazer, porque muitas delas têm associados pequenos ateliers”, diz Catarina Portas, fundadora da cadeia de lojas A Vida Portuguesa.

“São lojas que marcam as cidades em que se inserem”, sublinha Carla Salsinha, presidente da União de Associações do Comércio e Serviços (UACS). Ajudam a definir “o carácter e a personalidade de uma cidade”, nas palavras de Catarina Portas. E, no entanto, sucedem-se os casos de encerramento. Porquê? “Indiscutivelmente, a lei do arrendamento”, responde Salsinha. “A maior parte destas lojas são arrendadas.”
É o caso da papelaria Au Petit Peintre, na Baixa de Lisboa desde que abriu portas, em 1909. “As nossas casas, infelizmente, estão sentenciadas à morte”, diz José Dominguez, dono da papelaria mas não do imóvel. “Quando não se é proprietário de uma loja, não se podem criar sonhos porque podem ser destruídos em um ou dois dias.” A loja vende tudo o que tem a ver com papelaria, pintura e tipografia. “Se temos gráficos de vendas que vão mal, a pique, não é por falta de coisas para vender”, diz, explicando que nota uma diferença na procura e acredita que há uma política de medo: “Antes de se comprar alguma coisa, a pessoa tem de pensar três ou quatro vezes.”

Dominguez reconhece que os centros comerciais são importantes para as cidades, mas sublinha a grande diferença no atendimento feito nas grandes superfícies e nas lojas tradicionais. “São precisos contadores de histórias, pessoas que tenham material puro e verdadeiro.” Por exemplo: em 1928, a Au Petit Peintre, conta, editou o Jornal da Mulher, uma publicação defensora da emancipação da mulher.

Na sua papelaria, chegaram a trabalhar seis pessoas. Hoje, é só ele. José Dominguez é artista plástico e está aqui desde 1963.
“Temos dias bons, dias menos bons e dias maus. Hoje, vejo esta parte nobre de Lisboa transformada em feiras”, lamenta. “E as lojas que têm os seus encargos a nível de fisco e de licenças estão sujeitas a uma concorrência desleal.”

Celestino Almeida trabalha há 52 anos na mercearia Pérola de São Mamede, no número 19 da Rua Nova de São Mamede, em Lisboa. “Antes trabalhava aqui eu e a minha mulher, agora sou só eu. Qualquer dia nem eu, estou a ficar velho.” Tem 83 anos e diz que o negócio está “péssimo”. Explica que as grandes superfícies são uma das razões para o mau negócio. Outra é o aumento da renda: passou de 37 euros para 172. “O futuro está muito incerto, em tudo.” Não sabe se a mercearia conseguirá sobreviver. Para já, salvam-na os “velhinhos”, clientes habituais, e os turistas.


A papelaria Au Petit Peintre, na Baixa de Lisboa, abriu portas em 1909




No Porto, apesar de parecer que este tipo de negócios não enfrenta problemas, nem sempre foi assim — a última recessão económica, em 2011, fez baixar os lucros. No entanto, para estes comerciantes, fechar nunca foi alternativa. Uns reinventaram-se, aproveitando a nova vaga de turismo. O pior é quando os turistas não são compradores, apenas curiosos. “Os turistas só entram para tirar fotografias!”, queixa-se Israel Matos, dono da Cardoso Cabeleireiros. Um problema que levou a Livraria Lello, um ícone histórico da cidade, a começar a cobrar entradas.

Israel vende perucas, naturais e sintéticas, numa loja que abriu em 1906. Apesar de não ter sentido qualquer efeito da recessão, os motivos pelos quais tal acontece não são os melhores: “Esta loja viveu muitos anos do teatro, vendíamos para muitos pontos do país. Actualmente, a loja sobrevive da doença da morte”, explica Israel, referindo-se a doenças oncológicas. “Antigamente vendia-se uma peruca por vaidade, hoje é por necessidade.”

O investimento e a inovação parecem ser o segredo destas lojas, que querem manter-se de pedra e cal na cidade. Na Cabeleireiros Cardoso, Israel diz querer “continuar a investir no mesmo ramo, mas noutras tecnologias”: “Temos de acompanhar a evolução, é o que vou continuar a fazer.”

Já Luísa Vilas Boas apostou em manter o produto, mas aumentar a oferta aos clientes: “Quando fiquei na gerência, abri mais uma loja, na Boavista. Há dois anos abrimos a loja online, para que mais pessoas consigam chegar até nós.” A aposta acaba por levar o Bazar Paris a todo o país, e parece estar a dar frutos: “Desde o início que teve sucesso, mas neste Natal atingimos todos os picos de vendas.”


Mercearia Pérola de São Mamede, em Lisboa




O segredo do negócio na Bazar Paris é o mesmo de todas as outras lojas: “É importante que se alie a tradição à modernidade”, defende a gerente. E é por isso que investe sempre em produtos que recordem os velhos tempos: “Continuamos a ter o brinquedo tradicional, como o pianinho, o cavalo de baloiço, o pião. São artigos modernos, mas que remetem para o antigamente.”

Na Pérola do Bolhão a aposta é na continuidade: “Temos de manter a qualidade, aviar bem os clientes, manter os preços de mercado”, relata o proprietário, que não avista o fim da mercearia: “Espero, pelo menos, chegar aos cem anos [da loja]! Depois, alguém tomará conta.”

Para Paulo Guedes, do K-Urban, o caminho deverá fazer-se sempre focado no cliente: “Na Suíça, onde cresci, há o label ‘qualidade suíça’. As pessoas apostam na qualidade e deveríamos todos fazer o mesmo no nosso país. Apostar menos na embalagem e mais na qualidade do produto ou do serviço.” Já Joana Azevedo, que sentiu alguma relutância quando abriu o negócio — “ainda havia um grande preconceito em relação à conserva” —, acredita que apostar na restauração aliada à mercearia de conservas foi um bom impulso para o negócio, uma vez que serão a única loja na cidade que serve conservas “a quente”.

Sentença de morte?
Voltando a Lisboa, o panorama é muito menos brilhante do que no Norte. O restaurante Palmeira fechou há uns dias, depois de ter sido decretada a venda do edifício em hasta pública e de os novos proprietários terem decidido fazer obras no prédio.


Perucas, naturais e sintéticas, na Cardoso Cabeleireiros, que abriu em 1906



Também a loja da fábrica de Sant’Anna, que faz 100 anos este mês, recebeu uma ordem de despejo para que o grupo Visabeira possa avançar com a construção de um hotel no mesmo edifício. Foi apresentada uma contestação pelos dirigentes da loja, daí que ainda se encontrem na Rua do Alecrim, a aguardar resposta.

A Ginjinha sem Rival esteve à beira de fechar para que no edifício nas Portas de Santo Antão nascesse mais um hotel, o que não chegou a acontecer por intervenção da câmara municipal. “Qualquer dia, vem-se a Lisboa para ver hotéis”, ironiza José Dominguez, ao balcão da Au Petit Peintre.

“Há cerca de um ano, ouvimos o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, dizer que por ele nunca o histórico café Guarany sairia de onde estava. Em Lisboa, nunca ouvi nenhuma declaração dessas, não há um único sinal público em relação às lojas históricas”, diz Catarina Portas. Aliás, sublinha, pelo contrário. O Lojas com História, programa lançado em 2015 pelo município, “está parado”.

A fundadora de A Vida Portuguesa integra o conselho consultivo deste programa. Ainda chegaram a ser definidos os critérios de acordo com os quais um estabelecimento emblemático da cidade poderia receber o selo Lojas com História, explica. Era suposto iniciar-se agora o levantamento dos que poderiam receber uma protecção especial, à luz desses critérios. “E estudou-se o que foi feito noutras cidades, porque este problema não existe apenas nas cidades portuguesas. O comércio mudou muito, profundamente”, em muitas partes do mundo. “Não vejo, contudo, neste momento, ninguém para continuar esse programa”, lamenta Portas.


O Bazar Paris já chegou a vender perfumes vindos de Paris mas especializou-se em brinquedos e artigos de coleccionismo




E, no entanto, as lojas da cidade vivem os efeitos de uma espécie de tempestade perfeita, criada pela conjugação de três factores que, “por si só, seriam positivos”, mas que juntos “são uma tragédia”: a lei do arrendamento; “o pico de turismo que se vive em Lisboa” e “o interesse de vários fundos de investimento estrangeiros em imobiliário”.

Apelos à mudança de lei
No final de Novembro, foi criada pelo movimento Fórum Cidadania Lx uma petição online intitulada “Por uma nova alteração à lei do arrendamento, pela salvaguarda das lojas históricas”, que tem mais de 850 assinaturas. Face ao “encerramento em avalancha de lojas antigas”, são apontados como motivos algumas das alterações introduzidas na lei do arrendamento, nomeadamente os “aumentos exorbitantes” das rendas, a não consideração da especificidade dos estabelecimentos comerciais, a denúncia do contrato no caso de haver projectos de remodelação ou restauro nos edifícios em que se inserem as lojas, muitas vezes para fins turísticos.

Assim, é pedido que seja introduzida na lei uma cláusula de salvaguarda específica para estas lojas. Uma moção também apoiada pela União de Associações do Comércio e Serviços, que considera fundamental fazer tudo para salvar estas memórias vivas das cidades.

“São lojas que estão localizadas nas zonas nobres da cidade e que estão inseridas em prédios que são vendidos para fundos imobiliários com o objectivo de, a maior parte deles, serem transformados em estruturas de hotelaria”, explica a presidente da associação, afirmando que as empresas fazem obras profundas e dão ordem de despejo, o que, aliás, “têm todo o direito de fazer, não é uma ilegalidade”.

Mas pode ser uma “incoerência”, já que faria “todo o sentido se as lojas permanecessem inseridas dentro de um hotel, por exemplo, seria até uma mais-valia”, defende Carla Salsinha.

Além das responsabilidades assacadas à lei do arrendamento e aos apetites imobiliários pelo encerramento das lojas, soma-se a falta de rentabilidade do negócio, mas a presidente da UACS diz que esses serão casos “minoritários”.

Salsinha espera que sejam implementados os mecanismos de salvaguarda deste comércio, já definidos — falta a aprovação pela Câmara Municipal de Lisboa. “Enquanto não estiver tudo regularizado, acredito que muitas mais lojas irão fechar ao longo de 2016”, afirma, dando como motivo a crescente afluência de turismo na cidade, o que não deixa de ser bom, mas apenas “por um lado”. É que, como diz Catarina Portas, é em nome do turismo — nomeadamente da construção de hotéis para o receber — que se deixam as lojas históricas fechar, o que é um contra-senso.

Há quem não veja problemas nas ordens de despejo dadas às lojas históricas, pois estas poderão sempre abrir noutro sítio. Mas Carla Salsinha contrapõe que, com a mudança, perderiam totalmente a sua essência. “Se mudarmos o comércio de tradição da Baixa para Campo de Ourique ou para a Avenida de Roma, não será a mesma coisa”, diz, acrescentando que “são também estas lojas que fazem os turistas ir à Baixa, à procura delas”. É uma simbiose: as lojas precisam dos turistas e os turistas procuram as lojas.

No Porto, é diferente. Tanto as lojas históricas como as mais modernas atraem cada vez mais população a uma zona da cidade que sofreu com a descentralização, aquando da abertura de centros comerciais. Hoje, o comércio volta a dar vida à Baixa da cidade e a chamar turistas. O mercado não parece, de todo, saturado, e o presidente da ACP, Nuno Camilo, vê mais possibilidades para diferentes públicos num futuro próximo: “O Porto precisa de dar um salto para o turismo de negócio à escala internacional, começar a receber eventos com pessoas com mais poder de compra.” O S. João ou os jogos de futebol a nível internacional são uma forma de atrair mais públicos, considera.

Mas, mesmo agora, o cenário é de optimismo: “Na área do comércio e serviços, fecham duas lojas por dia na zona da Grande Lisboa; na do Grande Porto, abre uma”, diz Nuno Camilo. Na sua opinião, há um segredo para este sucesso do Porto: sinergia — toda a cidade se envolve, toda a cidade se empenha.

Mais pessimista está Carla Salsinha: “Acredito que no Porto vá acontecer exactamente a mesma coisa que está a acontecer agora em Lisboa.” O problema, defende, tem muito que ver com a pressão turística, “boa para a cidade, mas que tem estas repercussões”, nota. “No Porto, esta pressão começou ligeiramente mais tarde.” com A.S.


Texto editado por Ana Fernandes

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