segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Sem pena de Donald Trump

 


David Pontes

EDITORIAL CORONAVÍRUS

Sem pena de Donald Trump

 

À luz dos valores de humanidade somos convocados a avaliar quem sempre os desprezou e contribuiu para que o vírus se tenha espalhado nos EUA.

 

4 de Outubro de 2020, 22:30

https://www.publico.pt/2020/10/04/opiniao/editorial/pena-donald-trump-1933986

 

O mesmo princípio básico de humanidade e empatia que nos leva a desejar que o Presidente norte-americano, como qualquer outro infectado pelo coronavírus, se possa restabelecer o mais depressa e sem sequelas abre a porta para que ninguém tenha de sentir um peso na consciência por não sentir pena por aquilo que aconteceu a Donald Trump.

 

Porque à luz desses mesmos valores somos convocados a avaliar quem sempre os desprezou e, ainda pior do que isso, quem, de forma desumana e irresponsável, contribuiu activamente para que o vírus que agora o afecta se tenha espalhado de tal forma nos Estados Unidos que já provocou mais de 200 mil mortes e tornou o país mais poderoso do mundo um dos mais pobres no combate à pandemia.

 

São as atitudes deste homem que fazem com que olhemos com uma sensação de estranheza, de quase irrealidade, para o facto de a campanha democrata ter decidido suspender a publicidade negativa logo que soube da infecção do Presidente. A agressividade cultivada por um lado, que é capaz de ridicularizar a doença de um adversário (Hillary Clinton) ou gracejar sobre os cuidados de protecção básicos, como usar uma máscara (como fez com Joe Biden), faz com que estranhemos algo que há pouco tempo seria razoavelmente banal. E essa é uma ideia insuportável – porque a regra não pode ser a divisão, a agressividade, a ideia de que vale tudo, que Donald Trump cultiva diariamente. A regra deve ser a decência sobre a qual o seu adversário, Joe Biden, tem estabelecido a sua campanha. E isso deve prevalecer sobre as inclinações políticas de cada um.

 

Se as sondagens mostram que os americanos já exibem algum cansaço em relação à figura, o mais expectável é que essa inclinação possa ser reforçada quando, pela sua situação pessoal, o tema covid-19 fica no centro da campanha eleitoral, o que, pelo péssimo registo, Trump não pretendia de forma alguma.

 

Mas esta figura conseguiu dividir de tal forma o país, alienar a normalidade a um tal ponto, que ninguém é capaz de apostar nisso com profunda convicção. Afinal, hoje este é o país em que muitos, perante o anúncio da doença de Trump, hesitaram em acreditar que tudo não passasse de um logro.

 

Apesar de sem pena pela lição que lhe deu o karma, deseja-se as melhoras. Mas, acima disso, deseja-se algo mais importante: que os EUA melhorem, livrando-se definitivamente do vírus que representa para a decência e para os valores da humanidade o actual ocupante da Casa Branca.

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