quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tsipras cedeu um pouco: a tragédia grega segue dentro de momentos / Bagão Félix. “As autoridades europeias querem livrar-se da Grécia”


Tsipras cedeu um pouco: a tragédia grega segue dentro de momentos

Sorrisos prenunciavam progressos no encontro entre Alexis Tspiras, Angela Merkel e François Hollande em Bruxelas

Primeiro-ministro grego reuniu-se em Bruxelas com François Hollande e Angela Merkel, que acredita que o compromisso é possível. “Quando há vontade as soluções aparecem”, garantiu a chanceler alemã

Rita Siza / 11-6-2015 / PÚBLICO

O primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, apareceu na reunião com a chanceler alemã Angela Merkel, e o Presidente francês, François Hollande, com um ramo de oliveira na mão, depois de ter rejeitado como inaceitáveis as exigências da troika em troca do derradeiro pagamento do programa de resgate financeiro (e que é indispensável para o país honrar os seus compromissos internacionais). Para provar que não vai arriscar a bancarrota ou a saída do país do euro, confirmou que estava preparado para aceitar um excedente orçamental primário de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, como pedem os credores, “sob determinadas condições”.
As metas orçamentais eram um dos mais fortes pontos de contenda entre as instituições credoras (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia) e o Governo de Atenas. A Grécia pretendia fixar o superávit primário, ou seja, o balanço das receitas e das despesas sem o pagamento de juros, nos 0,6% do PIB, mas Alexis Tsipras sabia que esses eram os termos onde a sua margem de manobra negocial era mais “elástica”. Ao fim do dia, fontes do Governo grego confirmavam a disponibilidade para aceitar a meta definida pela troika — e mais do que os reflexos financeiros desse acerto, os observadoras destacavam a importância do gesto.
Os três líderes europeus reuniramse ao início da noite em Bruxelas: foi preciso esperar pelo fim do jantar oficial que encerrou os trabalhos da cimeira entre a União Europeia e os países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), que concentrou as atenções durante o dia. Mas as movimentações já se tinham intensificado antes do ansiado encontro em pessoa desta nova espécie de troika negocial: a conta-gotas, foram-se sucedendo sinais de “abertura”, “flexibilização”, “cedências” e “concessões” de uma e outra parte, que indicavam uma “aproximação de posições”.
“A mensagem que quero deixar é esta: nenhuma solução será má para a Grécia, para a União Europeia ou para a zona euro”, sublinhou François Hollande, elevando as expectativas de um desfecho positivo do processo, que se arrasta há cinco meses. “Quando há vontade, as soluções aparecem”, vaticinou Angela Merkel. Mas segundo o porta-voz do Governo alemão, a solução não passará por negociações ad-hoc, ou o “relaxamento” das regras do programa: informações avançadas pela Bloomberg, sobre a suposta disponibilidade da chanceler em facilitar o pagamento da última tranche de 7,2 mil milhões de euros à Grécia, mediante a aprovação imediata de pelo menos uma das reformas defendidas pelos credores, foram desmentidas como “uma pura invenção” pelo assessor de Merkel.
Deixando para trás a tensão da última semana, o presidente da Comissão Europeia e anfitrião da cimeira, Jean-Claude Juncker, recebeu efusivamente Tsipras, com beijos e abraços e um sorriso aberto. “Os dois trocaram ideias, numa conversa detalhada e um clima muito construtivo, e concordaram em voltar a ver-se amanhã [hoje]”, informaram os assessores gregos. Um encontro com o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, também estava a ser combinado.
A Grécia não conseguiu convencer os credores com a sua contraproposta avançada no início da semana, que foi considerada “insuficiente” informou um porta-voz da Comissão Europeia. Ainda assim, o BCE acedeu a um aumento de 2,3 mil milhões de euros dos fundos disponíveis para a banca grega através do programa de Assistência de Liquidez de Emergência, que passou para os 83 mil milhões de euros. A medida não impediu, porém, que a agência de notação financeira Standard and Poor’s rebaixasse a nota da Grécia para “CCC” (apenas dois pontos acima do default), por entender que, sem um acordo, o país não terá condições para pagar a dívida a partir de Setembro.
O prolongamento do impasse deixa tanto o primeiro-ministro grego como a chanceler alemã à mercê das críticas dos seus apoiantes, que não querem cedências. Na Alemanha, os conservadores exigem firmeza quanto ao cumprimento do programa dos credores. “Ou então já não estamos a falar de um programa de ajuda, mas antes do sustento de um sistema que simplesmente não funciona”, criticou Michael Frieser, do partido social cristão da Bavária (CSU).
Do lado grego, os sinais de descontentamento também se multiplicam, e aumenta a pressão sobre o Governo para rejeitar qualquer compromisso que implique novas medidas de austeridade. Os comunistas prometeram trazer os seus militantes para a rua em protesto contra as políticas económicas de Tspiras, e falaram numa “frente de resistência combativa” ao que designam como o quarto memorando de entendimento de Atenas.

Em declarações em Estrasburgo, o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, criticou a abordagem das instituições durante as negociações com a Grécia, que na sua opinião se concentrou em ganhos de curto prazo que dificilmente conseguirão ser sustentados. . “Temos de ser honestos e reconhecer que, o que quer que seja que venha a ser decidido nesta semana ou na próxima, não vai resolver os problemas da Grécia”, disse. Para Schulz, a solução passa por uma “estratégia de longo prazo” que garanta o retorno ao crescimento, e não medidas como a subida do IVA ou o corte das pensões, com as quais não concorda.


Bagão Félix. “As autoridades europeias querem livrar-se da Grécia”
CLÁUDIA SOBRAL
11/06/2015 00:03:00 / Jornal i online

Economista disse no seu espaço de comentário que lhe parece que "estão todos a fazer figura de presença apenas" nas negociações.

Foram palavras fortes as que Bagão Félix usou para descrever o impasse nas negociações entre Atenas e os parceiros europeus enquanto decorria uma reunião do primeiro-ministro Alexis Tsipras com Angela Merkel e François Hollande à margem de uma cimeira entre a UE e os países da América Latina e das Caraíbas.

“Eu vou ser muito honesto: já não consigo perceber a situação na Grécia”, começou por dizer o economista quando questionado sobre o problema grego no seu habitual espaço de comentário na SIC Notícias. “A campanha eleitoral começou por uma espécie de trapezismo, como se fosse possível tudo e mais alguma coisa, estes últimos quatro meses têm sido meses de relativo malabarismo, entre as instituições da União Europeia e a Grécia, e finalmente, depois do trapezismo e do malabarismo, a Grécia está a ser sujeita ao contorcionismo.”

E foi mais longe o ministro das Finanças do governo de Santana Lopes: “A minha intuição é que as autoridades europeias querem livrar-se da Grécia.” Para o economista, “só ainda não se livraram porque não têm a certeza dos riscos” que podem advir dessa decisão.

Bagão Félix reconhece que “a situação grega é muito difícil” mas alerta por outro lado para o facto de a Grécia ser “praticamente o único país” da União Europeia que no primeiro trimestre deste ano voltou à recessão. Por isso mesmo, rematou, “devia haver menos ilusão por parte das autoridades” gregas.

No seu entender, a reunião desta quarta-feira não dará, mais uma vez, em nada, e concretizou: “Dá-me a sensação que estão todos a fazer figura de presença apenas.”

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