domingo, 23 de outubro de 2022

Suceder a António Costa? “Nem sequer sou militante do Partido Socialista”

 


ENTREVISTA

Suceder a António Costa? “Nem sequer sou militante do Partido Socialista”

 

Na sua primeira entrevista de fundo como ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva despe a pele de comentador e desvaloriza os “casos” do Governo. A sua leitura de cabeceira actual é a nova biografia de Fernando Pessoa, que o absorve mais do que a discussão “excêntrica” sobre quem será o próximo líder do PS.

 

Inês Nadais (Texto), Isabel Salema (Texto) e Rui Gaudêncio (Fotografia)

22 de Outubro de 2022, 6:15

https://www.publico.pt/2022/10/22/culturaipsilon/entrevista/suceder-antonio-costa-sequer-militante-partido-socialista-2024982

 

Pedro Adão e Silva: "A discussão sobre as sucessões é bastante excêntrica"

 

Pedro Adão e Silva considera que a maioria absoluta cria um “ruído” peculiar na arena política e que o Governo deve distanciar-se da agitação mediática e concentrar-se em desenhar políticas públicas de longa duração “sem viver a angústia do tema dos últimos dez minutos". Sobre as suas ambições pessoais, aquele que vem sendo apontado como o novo delfim de António Costa assegura que ser ministro da Cultura não é um estágio para primeiro-ministro.

 

Faz parte do núcleo duro de um Governo que dispõe de maioria absoluta e que está há poucos meses em funções. Devia estar em estado de graça. Como explica tantos casos polémicos?

Mas qual é o indicador que nos diz que as condições políticas se deterioraram? Se compararmos as sondagens actuais com todas as que foram feitas até às eleições, o resultado é precisamente o mesmo; o resultado das eleições é que foi excepcional face às indicações das sondagens.

 

É só agitação mediática? As divergências quanto ao aeroporto e ao IRC... parece que há uma certa turbulência interna.

Estava a comentar o estado de graça, entendido como declínio da aceitação e da popularidade do Governo, e do qual não se encontra nenhuma evidência. Não estou a dizer que não existam incidentes políticos, mas tendemos a construir uma leitura da realidade – os políticos, os jornalistas, os comentadores...

 

Os ex-comentadores…

Os pós-comentadores... O estado de graça e a agitação mediática são conceitos que existem muito mais nessa bolha da qual eu fiz parte – e de que agora faço parte noutras condições –, e tento preservar a capacidade de perceber que há outra observação da realidade. Tendo a desvalorizar esse ciclo político de 24 horas que é substituído por outro ciclo político de outras 24 horas porque ele normalmente não acompanha as preocupações das pessoas. O Governo deve concentrar-se em governar, em desenhar políticas, em executá-las, em monitorizá-las, sem viver a angústia do tema dos últimos dez minutos.

 

Tendo a desvalorizar esse ciclo político de 24 horas que é substituído por outro ciclo político de outras 24 horas porque ele normalmente não acompanha as preocupações das pessoas

Pedro Adão e Silva, ministro da Cultura

 

Então foram acidentes?

Podemos passar a entrevista a falar caso a caso. As dinâmicas de maioria absoluta provocam por si só um ciclo político e mediático diferente. O Governo actual, que é de partido único e não de coligação, tem um horizonte de previsibilidade e de estabilidade que cria dificuldades ao espaço público. Os partidos da oposição têm de gerir uma expectativa e um horizonte temporal que vai muito para além dos mandatos de quem os lidera – isto também aconteceu ao contrário, quando o PSD teve maioria absoluta. Mas o contexto mediático alterou-se muito: [o ciclo] é muito mais curto, vive-se numa ansiedade permanente e da antecipação. Julgo que é isso que explica o ruído.

 

 

 

 

Portanto o Governo tem aproveitado bem a maioria absoluta ao longo destes seis meses?

Essa pergunta encerra um paradoxo. Aproveitar bem uma maioria absoluta significa aproveitar o tempo longo.

 

Já vamos num oitavo da legislatura.

É um tempo inicial. O que há a fazer é definir prioridades e desenhar políticas. Não têm de ser todas implementadas a correr nos primeiros seis meses.

 

Nasceu em 1974. Antes ou depois do 25 de Abril?

Quinze dias depois.

 

Como definiria a sua geração?

As gerações são atravessadas por outras clivagens além das geracionais, portanto há várias gerações nascidas depois de 1974, marcadas pela sua inscrição social, cultural e até regional. Em todo o caso, a minha geração em particular, daqueles que têm perto de 50 anos, beneficiou muito da modernização e do crescimento económico e da transformação cultural do país. Sou um beneficiário objectivo e subjectivo dessa transformação, nas oportunidades que tive, umas contextuais, outras que resultam da minha posição de classe, para utilizar uma expressão sociológica.

 

Tenho os meus consumos culturais desde quase sempre. O que mudou é que tenho visto muita coisa que desconhecia"

Pedro Adão e Silva, ministro da Cultura

 

Na sua playlist mais recente só incluiu três músicos portugueses: Samuel Úria, Max e Fausto.

Falso! Também há Old Jerusalem. Mas espero não começar a ser policiado nos meus gostos.

 

As suas preferências transfiguraram-se com a vinda para o ministério?

Não, tenho os meus consumos culturais desde quase sempre. O que mudou é que tenho visto muita coisa que desconhecia e que me tem entusiasmado muito.

 

Enquanto influencer, gostaria de recomendar alguma coisa do que anda a ler ou a ver?

Na música e na leitura sou um bocado compulsivo. Cinema vejo muito menos e tenho até alguma dificuldade em recomendar. Mas ando a ler duas coisas. Uma é um livro muito bonito, de uma pequena editora portuguesa, a Sr Teste, de poemas eróticos do e. e. cummings, com pinturas da Daniela Krtsch. Recomendo muito. E comecei a ler há três dias, pensando que era uma empreitada difícil, a biografia do [Fernando] Pessoa do Richard Zenith. Estou com aqueles entusiasmos, só dá vontade de ir para casa ler. De música, há um nome que se destaca na última década e que de facto está à parte, o Kendrick Lamar. Não é português.

 

Estou com aqueles entusiasmos [biografia de Fernando Pessoa, de Richard Zenith], só dá vontade de ir para casa ler"

Pedro Adão e Silva, ministro da Cultura

 

Se fizesse um espectáculo de stand-up comedy, como Nuno Artur Silva, como é que resumiria a sua experiência no Ministério da Cultura nestes seis meses?

Ao contrário do Nuno, nunca tive talento para a escrita humorística.

 

Vai escrever um ensaio, então.

Há um lado muito enriquecedor nesta experiência, apesar dos desafios e de algumas dificuldades. Tenho procurado estar o menos possível fechado no gabinete. Aliás, as memórias políticas mais engraçadas desse ponto de vista são as de Robert B. Reich, que foi o primeiro-ministro do Trabalho do [Bill] Clinton: Locked in Cabinet ["Fechado no Gabinete”, precisamente]. Mas o que tenho sentido lá fora, e há aqui um lado quase auto-depreciativo em relação ao Governo e ao país, é a surpresa. As pessoas não esperam que um membro do Governo se interesse pelo que fazem. Isso merece também uma reflexão.

 

Ser ministro da Cultura é um estágio para primeiro-ministro?

Não. Ser ministro da Cultura é mesmo uma experiência com princípio, meio e fim. É preciso gostar do que se faz, e estes primeiros seis meses permitem-me ter uma leitura mais precisa do que é ser primeiro-ministro [risos]. E acho que com isso respondo… Mas nessa discussão sobre as sucessões, que a meu ver é bastante excêntrica e tira a concentração da governação, eu tenho uma dificuldade adicional. É que nem sequer sou militante do Partido Socialista.

 

Isso a qualquer momento se poderia resolver.

Mas não sou.

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