ENTREVISTA
Suceder a António Costa? “Nem sequer sou militante do
Partido Socialista”
Na sua primeira entrevista de fundo como ministro da
Cultura, Pedro Adão e Silva despe a pele de comentador e desvaloriza os “casos”
do Governo. A sua leitura de cabeceira actual é a nova biografia de Fernando
Pessoa, que o absorve mais do que a discussão “excêntrica” sobre quem será o
próximo líder do PS.
Inês Nadais
(Texto), Isabel Salema (Texto) e Rui Gaudêncio (Fotografia)
22 de Outubro de
2022, 6:15
Pedro Adão e
Silva: "A discussão sobre as sucessões é bastante excêntrica"
Pedro Adão e
Silva considera que a maioria absoluta cria um “ruído” peculiar na arena
política e que o Governo deve distanciar-se da agitação mediática e
concentrar-se em desenhar políticas públicas de longa duração “sem viver a
angústia do tema dos últimos dez minutos". Sobre as suas ambições
pessoais, aquele que vem sendo apontado como o novo delfim de António Costa
assegura que ser ministro da Cultura não é um estágio para primeiro-ministro.
Faz parte do
núcleo duro de um Governo que dispõe de maioria absoluta e que está há poucos
meses em funções. Devia estar em estado de graça. Como explica tantos casos
polémicos?
Mas qual é o
indicador que nos diz que as condições políticas se deterioraram? Se
compararmos as sondagens actuais com todas as que foram feitas até às eleições,
o resultado é precisamente o mesmo; o resultado das eleições é que foi
excepcional face às indicações das sondagens.
É só agitação
mediática? As divergências quanto ao aeroporto e ao IRC... parece que há uma
certa turbulência interna.
Estava a comentar
o estado de graça, entendido como declínio da aceitação e da popularidade do
Governo, e do qual não se encontra nenhuma evidência. Não estou a dizer que não
existam incidentes políticos, mas tendemos a construir uma leitura da realidade
– os políticos, os jornalistas, os comentadores...
Os
ex-comentadores…
Os
pós-comentadores... O estado de graça e a agitação mediática são conceitos que
existem muito mais nessa bolha da qual eu fiz parte – e de que agora faço parte
noutras condições –, e tento preservar a capacidade de perceber que há outra
observação da realidade. Tendo a desvalorizar esse ciclo político de 24 horas
que é substituído por outro ciclo político de outras 24 horas porque ele
normalmente não acompanha as preocupações das pessoas. O Governo deve
concentrar-se em governar, em desenhar políticas, em executá-las, em
monitorizá-las, sem viver a angústia do tema dos últimos dez minutos.
Tendo a desvalorizar esse ciclo político de 24 horas que
é substituído por outro ciclo político de outras 24 horas porque ele
normalmente não acompanha as preocupações das pessoas
Pedro Adão e
Silva, ministro da Cultura
Então foram
acidentes?
Podemos passar a
entrevista a falar caso a caso. As dinâmicas de maioria absoluta provocam por
si só um ciclo político e mediático diferente. O Governo actual, que é de
partido único e não de coligação, tem um horizonte de previsibilidade e de
estabilidade que cria dificuldades ao espaço público. Os partidos da oposição
têm de gerir uma expectativa e um horizonte temporal que vai muito para além
dos mandatos de quem os lidera – isto também aconteceu ao contrário, quando o
PSD teve maioria absoluta. Mas o contexto mediático alterou-se muito: [o ciclo]
é muito mais curto, vive-se numa ansiedade permanente e da antecipação. Julgo
que é isso que explica o ruído.
Portanto o
Governo tem aproveitado bem a maioria absoluta ao longo destes seis meses?
Essa pergunta
encerra um paradoxo. Aproveitar bem uma maioria absoluta significa aproveitar o
tempo longo.
Já vamos num
oitavo da legislatura.
É um tempo
inicial. O que há a fazer é definir prioridades e desenhar políticas. Não têm
de ser todas implementadas a correr nos primeiros seis meses.
Nasceu em 1974.
Antes ou depois do 25 de Abril?
Quinze dias
depois.
Como definiria a
sua geração?
As gerações são
atravessadas por outras clivagens além das geracionais, portanto há várias
gerações nascidas depois de 1974, marcadas pela sua inscrição social, cultural
e até regional. Em todo o caso, a minha geração em particular, daqueles que têm
perto de 50 anos, beneficiou muito da modernização e do crescimento económico e
da transformação cultural do país. Sou um beneficiário objectivo e subjectivo
dessa transformação, nas oportunidades que tive, umas contextuais, outras que
resultam da minha posição de classe, para utilizar uma expressão sociológica.
Tenho os meus consumos culturais desde quase sempre. O
que mudou é que tenho visto muita coisa que desconhecia"
Pedro Adão e
Silva, ministro da Cultura
Na sua playlist
mais recente só incluiu três músicos portugueses: Samuel Úria, Max e Fausto.
Falso! Também há
Old Jerusalem. Mas espero não começar a ser policiado nos meus gostos.
As suas
preferências transfiguraram-se com a vinda para o ministério?
Não, tenho os
meus consumos culturais desde quase sempre. O que mudou é que tenho visto muita
coisa que desconhecia e que me tem entusiasmado muito.
Enquanto
influencer, gostaria de recomendar alguma coisa do que anda a ler ou a ver?
Na música e na
leitura sou um bocado compulsivo. Cinema vejo muito menos e tenho até alguma
dificuldade em recomendar. Mas ando a ler duas coisas. Uma é um livro muito
bonito, de uma pequena editora portuguesa, a Sr Teste, de poemas eróticos do e.
e. cummings, com pinturas da Daniela Krtsch. Recomendo muito. E comecei a ler
há três dias, pensando que era uma empreitada difícil, a biografia do
[Fernando] Pessoa do Richard Zenith. Estou com aqueles entusiasmos, só dá
vontade de ir para casa ler. De música, há um nome que se destaca na última
década e que de facto está à parte, o Kendrick Lamar. Não é português.
Estou com aqueles entusiasmos [biografia de Fernando
Pessoa, de Richard Zenith], só dá vontade de ir para casa ler"
Pedro Adão e
Silva, ministro da Cultura
Se fizesse um
espectáculo de stand-up comedy, como Nuno Artur Silva, como é que resumiria a
sua experiência no Ministério da Cultura nestes seis meses?
Ao contrário do
Nuno, nunca tive talento para a escrita humorística.
Vai escrever um
ensaio, então.
Há um lado muito
enriquecedor nesta experiência, apesar dos desafios e de algumas dificuldades.
Tenho procurado estar o menos possível fechado no gabinete. Aliás, as memórias
políticas mais engraçadas desse ponto de vista são as de Robert B. Reich, que
foi o primeiro-ministro do Trabalho do [Bill] Clinton: Locked in Cabinet
["Fechado no Gabinete”, precisamente]. Mas o que tenho sentido lá fora, e
há aqui um lado quase auto-depreciativo em relação ao Governo e ao país, é a
surpresa. As pessoas não esperam que um membro do Governo se interesse pelo que
fazem. Isso merece também uma reflexão.
Ser ministro da
Cultura é um estágio para primeiro-ministro?
Não. Ser ministro
da Cultura é mesmo uma experiência com princípio, meio e fim. É preciso gostar
do que se faz, e estes primeiros seis meses permitem-me ter uma leitura mais
precisa do que é ser primeiro-ministro [risos]. E acho que com isso respondo…
Mas nessa discussão sobre as sucessões, que a meu ver é bastante excêntrica e
tira a concentração da governação, eu tenho uma dificuldade adicional. É que
nem sequer sou militante do Partido Socialista.
Isso a qualquer
momento se poderia resolver.
Mas não sou.
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