Herdade da Torre Bela só disponibilizou 105 selos para a
montaria onde terão sido abatidos 540 animais
Fonte da Quinta da Torre Bela explica que foram cedidos
40 selos para abater veados e 65 para javalis, mas as autoridades encontraram
canhotos de 270 selos. O ICNF já pediu vária documentação à empresa promotora
do evento, nomeadamente as licenças dos seis matilheiros contratados para
ajudar os caçadores.
Sónia Trigueirão
e Ana Henriques
24 de Dezembro de
2020, 17:57
A Sociedade
Agrícola da Quinta do Convento da Visitação, proprietária da Quinta da Torre
Bela e que era detentora da licença de caça, entretanto suspensa pelo Instituto
da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), no âmbito da investigação ao
alegado abate de 540 javalis e veados, apenas cedeu 105 selos para abater
animais na montaria, realizada a 17 e 18 de Dezembro.
Fonte da Quinta
da Torre Bela explicou ao PÚBLICO que foram cedidos 40 selos para abater veados
e 65 para javalis. Estes selos eram ainda de 2019. Segundo a mesma fonte, os
selos para realizar montarias, e que são aplicados em cada animal morto, são
cumulativos e adquiridos pelas sociedades que têm licença de caça, neste caso,
a Associação Nacional de Proprietários Rurais - Gestão Cinegética e
Biodiversidade (ANPC).
Acresce que a
Sociedade Agrícola da Quinta do Convento da Visitação cedeu os direitos de
exploração da Quinta da Torre Bela a Avelino Almeida Carvalho para os anos de
2020 e 2021. E foi este que a empresa espanhola Monteros de la Cabra, de
Mariano Moralles, contactou para realizar a montaria.
Quando elementos
do ICNF e da GNR foram à Quinta da Torre Bela encontraram 270 canhotos dos
selos, números que não batem certo com os que a proprietária terá cedido (105)
e com o número de animais que terão sido mortos (540).
Acresce que os
elementos do ICNF, entre a documentação que recolheram, encontraram uma factura
de aquisição de 550 selos para caça maior (50 para javalis e 500 para veados)
por parte da Sociedade Agrícola da Quinta do Convento da Visitação à ANPC, com
data de 23 de Janeiro de 2020.
Fonte da Quinta
da Torre Bela garante que nenhum destes selos foi usado na montaria de 17 e 18
de Dezembro. E que destes 550 selos, a Sociedade apenas gastou 85, tendo ainda
na sua posse 465.
Em declarações à
TSF, o secretário-geral da ANPC, João Carvalho, admitiu a venda de vinhetas à
proprietária da Quinta da Torre Bela para épocas de caça anteriores,
rejeitando, contudo, quaisquer responsabilidades na alegada matança de mais de
500 animais.
João Carvalho
disse ainda que “fará todo o sentido que uma quinta com uma população de
veados, gamos e javalis com aquela dimensão possa abater, durante uma época de
caça, um grande número de indivíduos — e 270 não estará nada longe daquilo que
será normal”.
Segundo o
secretário-geral da ANPC, cada entidade que pretende adquirir selos tem de
preencher um formulário e fica devidamente identificada pelo processo da zona
de caça. Há um termo de responsabilidade assinado pelo responsável dessa zona
de caça e são distribuídos selos dos dois tipos: cervídeos (selos verdes) e
javalis (selos amarelos).
João Carvalho
levantou ainda dúvidas sobre a forma como foram colocados os selos: “Naquelas
imagens vemos, por exemplo, cervídeos marcados com selos amarelos, o que, desde
logo, indicia que houve ali situações… E também se vêem nas fotografias selos
vermelhos. Os selos vermelhos nem sequer são vendidos, são distribuídos,
mediante uma autorização de correcção de densidades que tem de ser obtida
previamente pelo ICNF, exclusivamente nessa situação. E, segundo sabemos, o
ICNF não autorizou nenhuma correcção de densidades na Torre Bela”.
"Só fui para
ganhar alguma coisita”, diz matilheiro português
Ao que o PÚBLICO
apurou, nesta caçada participaram 16 caçadores estrangeiros, que terão pago
entre sete a oito mil euros, e foram contratados seis matilheiros cada um com
20 a 25 cães: são eles a Matilha Colmeia, Matilha Portalegre, Matilha Estremoz,
Matilha Tempestade (os quatro portugueses), Matilha Sebastian e Matilha Los
Nenes (sendo estes espanhóis).
Os matilheiros
têm como função auxiliar os caçadores nas montarias. Largam as matilhas em
sítios específicos e depois os cães perseguem os animais a abater, levando-os
na direcção dos caçadores.
Ao PÚBLICO, um
dos matilheiros, com 40 anos de experiência, que é da zona do Alentejo, explicou
que recebeu 200 euros para participar na montaria, mas apenas no dia 17 de
Dezembro. Explicou que não foi no segundo dia porque não ia compensar os gastos
que ia ter com a viagem. “Só fui porque com isto da covid-19 não se tem feito
nada. Fui para ganhar alguma coisita”, afirmou.
Este matilheiro
não viu a quantidade de animais mortos, porém sublinha que, tendo em conta o
tamanho da herdade e a quantidade de animais, os 540 que se falam não seriam um
exagero. “Às vezes, os caçadores gabam-se do que caçam e não caçam e às vezes
também por questões de publicidade”, sublinha, acrescentando que em Espanha já
esteve em montarias onde foram mortos mais animais e que, numa caça às
perdizes, às vezes também se matam mais de 300.
O matilheiro
conta ainda que o local onde estiveram a fazer a montaria na Quinta da Bela
Torre “até tinha poucas árvores e parecia haver pouca vegetação para alimentar
tanto animal”. E acrescenta que já foi contactado pela entidade promotora da
montaria para enviar a documentação da sua matilha, uma vez que a empresa está
a ser alvo de fiscalização.
A carne dos
javalis e dos veados mortos na Quinta da Torre Bela foi para Espanha, tendo
sido adquirida por um comerciante de carne: Jaime Herrera Cabanillas, da
povoação de Talarrubias, Badajoz.
Na montaria
esteve presente um veterinário português da zona de Elvas. O PÚBLICO tentou
contactá-lo para perceber em que moldes teve lugar a sua participação, mas não
obteve resposta.
Segundo Jorge
Cid, da Ordem dos Médicos Veterinários, este profissional não é responsável
pelo sucedido, uma vez que não é a ele que cabe a colocação dos selos.
A proprietária da
Torre Bela emitiu, esta quinta-feira, um comunicado onde descarta qualquer responsabilidade
no alegado abate dos 540 animais e diz que está a colaborar com as autoridades
para a descoberta da verdade.

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