EDITORIAL
A democracia não pode ser refém de quem não a quer
A boa notícia é esta: Trump vai deixar de ser a caução
destes autocratas. A má notícia é que estes poderão não ter assento em
Washington, mas continuarão a ter o seu lugar à mesa em Bruxelas. A democracia
europeia não pode ser refém de quem a recusa.
AMÍLCAR CORREIA
19 de Novembro de
2020, 5:30
https://www.publico.pt/2020/11/19/mundo/editorial/democracia-nao-refem-nao-quer-1939746
A União Europeia
(UE) adiou a adesão da Turquia para as calendas gregas, com o receio não
assumido da integração de um país muçulmano, baseando-se no argumento sensível
e sensato do incumprimento do Estado de direito. Erdogan encontrou nessa recusa
dissimulada os argumentos para diminuir ainda mais as liberdades e garantias
num país historicamente hesitante entre o Ocidente e o Oriente.
A ameaça a esse
denominador comum europeu da democracia e do Estado de direito não veio de
Ankara, mas sim do cavalo de Troia do populismo nacionalista que tomou conta de
Varsóvia e de Budapeste. Polónia e Hungria, ao bloquearem a aprovação do
orçamento plurianual, não estão apenas a paralisar as economias dos restantes
Estados da União num cenário de crise geral. Estão a sabotar as regras e
valores básicos de uma comunidade assente em princípios democráticos e a fazer
a defesa da sua autocracia.
A retaliação dos
dois países, por causa do mecanismo que faz depender o acesso a fundos
extraordinários do respeito pelo Estado de direito, que prejudica todos os
cidadãos europeus e a própria UE, expondo a sua inércia e inaptidão num momento
tão crucial, é a confissão de quem não nutre pela democracia qualquer empenho
ou respeito e que faz da discriminação e da perseguição a minorias uma política
desumana e nada cristã. Só Angela Merkel pode conseguir uma decisão por
unanimidade.
Merkel, a
defensora do alargamento a leste, é o espelho da moderação na Europa, e não
hesitou em se afastar higienicamente desse populismo autocrático no momento
certo, quando se torna cada vez mais atraente transformar esse capital
eleitoral em algo palpável e açoriano. Rui Rio pode falar alemão, mas não é
Merkel.
Donald Trump
inspirou autocratas por todo o lado e alguns deles têm assento no Conselho
Europeu. A eleição de Joe Biden não terá reflexos apenas nos EUA. A vitória da
moderação, nestes tempos de radicalização e polarização, pode representar um
novo período de valorização da democracia e de rejeição da demagogia mentirosa
de políticos sem escrúpulos. A boa notícia é esta: Trump vai deixar de ser a
caução destes autocratas. A má notícia é que estes poderão não ter assento em
Washington, mas continuarão a ter o seu lugar à mesa em Bruxelas. A democracia
europeia não pode ser refém de quem a recusa.

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