EDITORIAL
Um “princípio” mal gerido pelo primeiro-ministro
Uma declaração oficial e atempada sobre as razões da não
recondução de Vítor Caldeira teria gerado debate, mas não a suspeita de que o
Governo cala quem o critica.
MANUEL CARVALHO
6 de Outubro de
2020, 22:27
https://www.publico.pt/2020/10/06/politica/editorial/principio-mal-gerido-primeiroministro-1934214
Afinal, a decisão
de não reconduzir Vítor Caldeira na presidência do Tribunal de Contas não
resulta de um impulso do primeiro-ministro despeitado pela crítica duríssima às
alterações propostas pelo Governo ao código de contratação pública, ou pelo
eventual excesso de zelo na fiscalização dos negócios do Estado. Afinal, tratou
de informar António Costa, o que está em causa é um princípio: aquele em que os
presidentes de órgãos judiciais sensíveis como a Procuradoria-Geral da
República ou o Tribunal de Contas não devem acumular mais de um mandato “para
garantia da própria independência da função” e “para que cada um a exerça sem
estar a pensar se o Governo vai repropor o seu nome e se o Presidente o vai
renomear”.
É legítimo e até
lógico que o primeiro-ministro tenha este entendimento. Não havendo
possibilidade de recondução, os titulares de cargos fiscalizadores libertam-se
das pressões de quem os nomeia. Nada terão a perder e poderão ser inteiramente
livres na sua acção. Isto dito, convém perguntar por que razão não souberam os
portugueses desta interpretação mais cedo e formalmente. Ou, por outras
palavras, se a letra da Constituição revista em 1997 pelo PS e pelo PSD permite
a renovação de mandatos ao presidente do Tribunal de Contas (e do procurador ou
procuradora-geral da República), se todos os antecessores de Vítor Caldeira
foram reconduzidos, por que razão não soubemos antes da posição radical do
primeiro-ministro?
A tese do mandato
único, explica António Costa, foi divulgada na sequência da polémica
substituição de Joana Marques Vidal, após semanas de especulação sobre a opção
do Governo. O primeiro-ministro diz que, nessa altura, o princípio ficou
consagrado e a sua aplicação alargada a “este tipo de funções”. No caso de
Vítor Caldeira, porém, o que se sabe (por notícia do Sol) é que foi avisado por
telefone há dias da sua saída e que o Presidente da República, supostamente um
apoiante do princípio, não tinha sido informado. Um princípio tão radical sobre
nomeações, no qual não entra o mérito, nem a experiência, nem a confiança,
mereceria outra publicidade prévia.
O que nos leva a
outra questão: a da dificuldade que o primeiro-ministro revela em antecipar
problemas. Por cansaço ou excesso de confiança, não aplica a sua argúcia. Uma
declaração oficial e atempada sobre as razões da não recondução de Vítor
Caldeira teria gerado debate, mas não a suspeita de que o Governo cala quem o
critica. Explicando os princípios das suas decisões depois de as decisões
atearem suspeitas, o primeiro-ministro expõe-se a riscos. Se na política o que
parece é, ficará sempre no ar esse receio de que o princípio serviu mais para
justificar uma escolha do que para a orientar.
tp.ocilbup@ohlavrac.leunam


Sem comentários:
Enviar um comentário