Partido Aurora Dourada considerado organização criminosa
por tribunal grego
O partido neonazi Aurora Dourada, que chegou a ser o
terceiro maior no Parlamento grego, em 2015, foi considerado uma organização
criminosa pelo Tribunal de Atenas.
DN/ Lusa
07 Outubro 2020 —
12:32
Esta é uma
sentença histórica e que põe fim a cinco anos de julgamento. O tribunal
condenou vários dos membros do Aurora Dourada por liderarem ou participarem
numa organização criminosa. Nikos Michaloliakos e seis colegas do partido foram
condenados por liderarem um grupo criminoso. O apoiante Giorgos Roupakias foi
considerado culpado pelo assassínio de um músico antirracista e outros 15 réus
foram condenados por conspiração no caso.
A sentença
começou a ser lida cerca das 11.30 locais (09.30 em Lisboa) desta quarta-feira
e foi recebida com gritos e aplausos de mais de 15 mil pessoas que aguardavam a
decisão na rua, em frente ao tribunal, com faixas onde se liam frases como
"Eles não são inocentes" ou "O fascismo não é uma opinião, é um
crime". Dois mil polícias estavam no local e acabaram por usar gás
lacrimogéneo sobre a multidão.
Os 68 réus
incluíam 18 ex-deputados do partido, fundado na década de 1980 como uma
organização neonazi, que se tornou a terceira maior força política da Grécia,
com 7% dos votos, ganhando assento no Parlamento em 2012, durante a crise
financeira registada no país e na Europa.
A decisão
judicial baseia-se concretamente em quatro casos: o assassínio do rapper grego
Pavlos Fyssas, vários ataques a migrantes, atentados contra ativistas de
esquerda e a determinação do tipo de organização (criminosa ou não) que está na
base do partido Aurora Dourada.
A decisão faz
história na Grécia e no movimento antifascista, já que o tribunal entendeu que
os crimes cometidos por líderes e militantes do partido político neonazi foram
cometidos sob a proteção e as ordens do Aurora Dourada.
Quais foram os
veredictos?
O veredicto mais
importante é de que o Aurora Dourada - Chrysi Avgi em grego - é uma organização
criminosa. Logo, os seus líderes tinham de ser punidos por dirigirem uma
organização criminosa.
Esses líderes
eram Michaloliakos e seis colegas, incluindo os ex-deputados parlamentares
Ilias Kasidiaris, Ioannis Lagos, Christos Pappas e Giorgos Germenis. Outros
membros do partido foram considerados culpados de integrarem uma organização
criminosa.
Nikos
Michaloliakos, de 62 anos, negacionista do Holocausto e admirador do
nacional-socialismo, foi um dos 68 réus do julgamento condenados por um
homicídio e duas tentativas de homicídio.
O ativista de
esquerda e rapper Pavlos Fyssas foi esfaqueado até à morte na noite de 18 de
setembro de 2013, aos 34 anos, frente a um café do seu bairro de Keratsini, um
subúrbio de Atenas.
O assassino, um
dos líderes do Aurora Dourada, Yorgos Roupakias, admitiu o crime durante o
julgamento e pode ser condenado a prisão perpétua.
Além do
esfaqueamento mortal de Pavlos Fyssas, os réus no julgamento também foram
condenados por outros ataques violentos contra migrantes e oponentes políticos
de esquerda.
Cinco membros do
Aurora Dourada foram condenados por tentativa de assassínio de pescadores
egípcios e quatro por tentativa de assassínio de ativistas comunistas do
sindicato PAME.
Além de
Mijaloliakos, outros seis líderes do partido foram considerados culpados de
liderar uma organização criminosa, e os 18 ex-deputados do partido poderão ser
condenados a pelo menos dez anos de prisão.
Dezenas de outras
pessoas em julgamento, membros do partido e militantes enfrentam condenações
por acusações que variam entre assassínio e perjúrio.
O que é o Aurora
Dourada?
Nikos
Michaloliakos, que fundou o movimento em meados da década de 1980, era um admirador
do nazismo e um negador do Holocausto, saudando Hitler em comícios do partido.
Oficialmente, o
Aurora Dourada negou ser um movimento neonazi, mas o seu emblema lembrava muito
uma suástica, alguns membros mais antigos elogiaram Adolf Hitler e as roupas
usadas nos protestos contra imigrantes eram camisas pretas e calças da tropa.
A investigação
preliminar indicou que o partido operava como um grupo paramilitar, com ordens
transmitidas pela liderança do partido a organizações de bairro e a gangues que
realizaram ataques violentos a migrantes.
Michaloliakos
sempre negou qualquer conhecimento do assassínio de Pavlos Fyssas ou o
envolvimento em qualquer outro ato criminoso, mas quando a polícia revistou a
sua casa em 2013, encontrou armas e munições.
No julgamento,
várias testemunhas disseram que os membros foram treinados para manusear armas
e confirmaram que eles usavam símbolos nazis.
Mas durante o
curso do julgamento, o Ministério Público recomendou a absolvição de muitos dos
membros do partido da acusação de organização criminosa com base em falta de
provas.
Apenas 11 dos 68
arguidos estiveram presentes no tribunal, tendo os restantes sido representados
pelos advogados. Nenhum dos ex-deputados do Aurora Dourada esteve no tribunal.
O Aurora Dourada
nega qualquer ligação direta aos ataques e descreveu o julgamento e as
acusações contra a liderança do partido como uma "conspiração sem
precedentes", com o objetivo de conter o aumento da sua popularidade.
Como reagiu a
Grécia a este julgamento?
O
primeiro-ministro de centro-direita Kyriakos Mitsotakis escreveu no fim de
semana sobre a experiência "traumática, dolorosa e, infelizmente, muito
sangrenta" da Grécia com o Aurora Dourada, e elogiou o sucesso democrático
do país, que se conseguiu livrar deste movimento, tanto no Parlamento como na
vida diária.
O líder da
oposição de esquerda Alexis Tsipras foi inflexível, dizendo que "os
membros desta organização criminosa devem ir para a prisão".
Apesar disso, ao
mesmo tempo, o cemitério judeu em Atenas foi coberto nesta semana com
inscrições antissemitas e slogans nazis.
Nesta
quarta-feira, logo de manhã, milhares de pessoas reuniram-se em frente ao
tribunal de Atenas a aguardar a sentença, acompanhados por altifalantes a tocar
músicas de Pavlos Fyssas.
Os principais
partidos políticos gregos estiveram todos presentes na manifestação, incluindo
uma representação do partido no poder, Nova Democracia (conservador), e os
líderes do principal partido da oposição, a coligação de extrema-esquerda
Syriza.
"A guerra
contra a violência e o ódio é constante", disse o secretário do Comité
Político do Nova Democracia, Giorgos Stergiou, lembrando que foi sob um governo
do seu partido que começou o processo contra o Aurora Dourada.
"Hoje, as
vítimas e a sociedade recebem justiça", referiu o líder do partido Kinal,
de centro-esquerda, Fofi Gennimata. "Estamos aqui porque não há espaço
para o fascismo nas nossas vidas", acrescentou.
A organização
humanitária Amnistia Internacional, que participou e ajudou a organizar uma
rede para registar a violência racista na Grécia, também aplaudiu a sentença,
sublinhando que a decisão vai aumentar os esforços daqueles que tentam
processar judicialmente os crimes de ódio.
"As
acusações contra líderes e membros do Aurora Dourada, incluindo a do assassínio
de Pavlos Fyssas, mostram o início do desmoronamento [destas organizações] não
apenas na Grécia, mas em toda a Europa", afirmou o diretor europeu da
Amnistia Internacional, Nils Muiznieks. "O impacto deste veredicto,
naquele que é um julgamento emblemático de um partido de extrema-direita com
uma postura agressiva antimigrantes e antidireitos humanos, será sentido muito
além das fronteiras da Grécia", sublinhou.


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