sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O “caso Trump” ou a psipeste

 



CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

O “caso Trump” ou a psipeste

2 de Outubro de 2020, 8:31

António Guerreiro

https://www.publico.pt/2020/10/02/culturaipsilon/cronica/caso-trump-psipeste-1933296

 

Conta-se que Freud, pouco antes de desembarcar no porto de Nova Iorque, em Agosto de 1909, para uma conferência na Clarck University, dirigiu-se aos seus dois companheiros de viagem, Ferenczi e Jung, e proferiu esta sentença: “Eles não sabem que lhes trazemos a peste”. Não é certo que Freud tenha dito tal coisa, há quem diga que se trata de uma invenção de Lacan, que a transmitiu numa conferência que fez em Viena, em 1955. Mas para história da psicanálise, esta frase, qualquer que seja o seu autor e a circunstância em que foi formulada, é a revelação de uma verdade.

 

Assim começa um longo artigo que se chama A Mítica Ideia de um Império. Onde se lê “portugueses” também se podia ler “franceses”, “espanhóis”, “marroquinos”, “polacos” e tutti quanti. O autor apresenta-se como licenciado em Direito e “Investigador da Tradição Perene ou da Espiritualidade Universal” (belo nome para uma ciência do inefável), para além de “autor de quatro livros de inéditos de Fernando Pessoa” (Oh, grande Pessoa, sem ti como sobreviveriam os investigadores da Tradição Perene?). Não há nada mais exaltante do que estes percursos por uma “espiritualidade” nacional, onde se sublima até o que é mais sólido. Sim, sublima, já que ao fim de poucos parágrafos contamos nove ocorrências da palavra “sublime”. Quando se trata da “mítica ideia de um império”, nada fica abaixo de sublime. 

 

Assistimos agora a um foco de irradiação desta peste, na sua versão americana, a partir de um membro desalinhado da família Trump. Chama-se Mary Trump, é “psi” de profissão e usou todo o seu background científico e profissional para escrever um livro-panfleto contra o tio, Donald Trump. O livro intitula-se Too Much and Never Enough: How My Family Created the World’s Most Dangerous Man. O livro, como deixam perceber as entrevistas que a autora tem dado a órgãos de comunicação social de todo o mundo, é um concentrado de psicologização para explicar o comportamento e as motivações do infeliz Donald. Nem uma paciente de Freud — uma daquelas que o levaram a formular uma teoria da sedução para explicar a histeria — consegue ser tão exemplar, tão conforme aos estereótipos do saber analítico. Na versão da sua sobrinha, Donald é um “caso”. Podia chamar-se Dora — digo eu. Não é um caso de histeria, como foi para Freud o “caso Dora”, mas de “distúrbios psicológicos” provocados por um pai “sociopata” e uma mãe nada carinhosa e até um pouco ausente. No retrato psicopatológico que Mary Trump faz do tio, há uma génese traumática em todos os gestos e acções do Donald adulto que chega a presidente dos Estados Unidos.

 

Ficamos assim a saber, através deste contributo para a psicogénese do homem mais poderoso do mundo e, logo, mais perigoso (Donald, de seu nome, e não Dora nem Schreber), que o segredo deste indivíduo psicopatológico, a transbordar de sintomas (tudo nele é sintoma) reside na circunstância da sua história familiar, muito especialmente nas humilhações a que o pai o submeteu e na falta de afecto que marcou a sua infância. Assim, toda a verdade sobre este presidente não radica em nenhum terreno político-ideológico, escasso que seja, mas apenas em sobredeterminações de ordem psíquica. Segundo a sua malvada sobrinha, que o elevou a caso clínico (levando a sua análise às últimas consequências: o presidente é inimputável e até, sem que ela queira, digno de comiseração), tudo o que há de mais profundo no tio Donald está à superfície, como a sua pele e o seu cabelo, sob a forma de sintomas. Concluindo: tudo nele se explica por um sujo segredo familiar, de edipiana extracção.

 

A peste que Freud, ou algum dos seus afoitos intérpretes ou seguidores, dizia ter levado para a América não é nada desta coisa viscosa, tão legível e codificada como um sinal de trânsito. O livro de Mary Trump não serve apenas para denunciar o “homem mais perigoso do mundo” gerado numa família de pai sociopata e mãe assim-assim; serve também para verificarmos que a psicanálise sempre esteve sujeita a maus usos. Nesse seu destino, foi sempre bem acompanhada pelo marxismo.

 

O “caso Donald” na versão psi da sua sobrinha Mary Trump tem alguma afinidade, longínqua que seja, com o uso que se faz da palavra “histérica” — uma palavra quase sempre declinada no feminino, por razões a que Freud não é estranho. Recordemos que ele designou o feminino como “o continente negro”; e que há um grande privilégio do homem e do masculino na construção do edifício teórico da psicanálise . “Histérica” é uma classificação que faz parte de um arsenal misógino persistente que evoca, mesmo que involuntariamente, a histeria feminina, tal como ela foi analisada por Freud. Mas a designação de “histéricas” não traz consigo apenas uma mais ou menos oculta memória freudiana. É uma nomeação que recua muito mais no tempo e não se fica por uma categoria psicologizada. “Histéricas” são as descendentes das bruxas e das místicas que foram condenadas nos processos da Inquisição. Há anacronismos que se tornam perenes e gente deste tempo que continua igual à gente de outrora.

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