segunda-feira, 5 de outubro de 2020

“Está a preparar-se um assalto aos fundos europeus”, diz presidente da Transparência e Integridade // Poiares Maduro e Rui Tavares assinam carta-aberta contra nomeação de procuradores europeus

 


TRIBUNAL DE CONTAS

“Está a preparar-se um assalto aos fundos europeus”, diz presidente da Transparência e Integridade

 

Nova presidente da TIAC está preocupada com afastamento de Vítor Caldeira da presidência do Tribunal de Contas. Neste momento há dúvidas sobre quem se encontra em funções.

 

Leonete Botelho

Leonete Botelho 4 de Outubro de 2020, 22:04

https://www.publico.pt/2020/10/04/politica/noticia/prepararse-assalto-fundos-europeus-presidente-transparencia-integridade-1933968

 

O afastamento do presidente do Tribunal de Contas, Vítor Caldeira, está a ser visto como mais uma machadada ao controlo dos fundos europeus, num momento em que Portugal, tal como os restantes países da União Europeia, se preparam para receber a “bazuca” para responder à crise provocada pela pandemia. “Estão a verificar-se ao mesmo tempo vários casos que levam a crer que se está a preparar um assalto aos fundos europeus”, afirmou ao PÚBLICO a nova presidente da Transparência e Integridade Associação Cívica (TIAC), Susana Coroado.

 

Vítor Caldeira foi informado pelo primeiro-ministro, por telefone a dois dias do fim do mandato, que não seria reconduzido no cargo, confirmou o PÚBLICO depois da notícia ter sido avançada pelo semanário Sol. O anúncio coincidiu com a divulgação do parecer do Tribunal de Contas (TdeC) sobre a alteração à lei da contratação pública, onde o próprio Vítor Caldeira alerta para as alterações “susceptíveis de contribuir para o crescimento de práticas ilícitas de conluio, cartelização e até mesmo de corrupção na construção pública”.

 

Para Susana Coroado, este caso junta-se a outros recentes relacionados com a gestão de fundos europeus que lhe suscitam reservas, como a própria proposta de alteração da lei da contratação pública criticada pelo TdeC ou a rejeição da procuradora Ana Carla Almeida para a Procuradoria Pública Europeia, que tinha sido escolhida por um painel independente mas cuja nomeação foi travada pelo Governo.

 

Esse caso já motivou uma carta aberta ao Parlamento Europeu subscrita por académicos de vários países entre os quais Miguel Poiares Maduro (PSD) e Rui Tavares (Livre), a pedir que sejam travadas as nomeações dos procuradores onde se verificaram interferências governamentais, como aconteceu em Portugal, Bélgica e Bulgária.

 

A estes casos, a presidente da TIAC junta apreensões com a nomeação de Vítor Escária para chefe de gabinete do primeiro-ministro, depois de ter sido consultor do Governo para os fundos europeus, enquanto se mantinha na administração de uma empresa que beneficiava deles. Ou ainda a remodelação governamental para permitir que José Apolinário, até então secretário de Estado das Pescas, pudesse candidatar-se à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, numa altura em que as CCDR vão ter responsabilidades acrescidas na gestão dos fundos europeus.

 

“São demasiados casos ao mesmo tempo relacionados com fundos europeus que nos fazem recear que se esteja a preparar um assalto aos fundos europeus”, insiste Susana Coroado. E não é a única. Também o presidente do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, aponta nesse sentido na pergunta que enviou ao gabinete do primeiro-ministro perguntando se confirma o afastamento de Vítor Caldeira do TdeC.

 

 

“Portugal precisa dos fundos de recuperação europeus para apoiar os portugueses, promovendo as empresas em função do mérito das propostas que apresentam, através de processos céleres, e de mecanismos de controlo que compatibilizem a máxima transparência e o mínimo de burocracia”, escreve o líder centrista, questionando: “Sem regras transparentes e sem um Tribunal de Contas independente como vão ser fiscalizados os dinheiros públicos, evitando o compadrio e a corrupção?”.

 

Este domingo, a coordenadora do BE manifestou “enormes preocupações” com a intenção de criar novas regras para a contratação pública, afirmando que “não podem facilitar a corrupção e o crime económico”. Sobre a não recondução de Vítor Caldeira, disse apenas que “é algo que o próprio Governo deve explicar e nós aguardamos essa explicação”.

 

Inconstitucionalidade?

Mas há outras dúvidas sobre o afastamento de Vítor Caldeira. Neste momento, no próprio TdeC há uma indefinição sobre quem está a presidir ao tribunal, se o presidente cessante ou o vice-presidente, o juiz conselheiro António Francisco Martins. Isto porque, ao que o PÚBLICO apurou, depois de ter sido informado da não recondução de Caldeira, o TdeC recebeu uma outra indicação no sentido de que o presidente devia ser imediatamente substituído pelo vice-presidente, por se entender que havia vacatura do cargo.

 

Questionado pelo PÚBLICO, o gabinete de imprensa do TdeC limitou-se a dizer que o presidente não faz nenhum comentário. No entanto, constitucionalistas ouvidos pelo PÚBLICO consideram que, a ser verdade, o afastamento imediato de Vítor Caldeira viola o princípio da continuidade dos cargos.

 

O princípio da continuidade das funções constitucionais determina que o titular se mantém em funções até ser substituído, excepto em caso de renúncia ou morte, defendem Jorge Bacelar Gouveia e Paulo Otero. “Não há excepção sobre isso, é também o que acontece com os governos”, acrescenta este último.

 

Bacelar Gouveia vai mais longe e apela mesmo ao Presidente da República para que “adopte um comportamento constitucional correcto e se abstenha de fazer nomeações nesta recta final do mandato”.

 

tp.ocilbup@ohletobl

 

PARLAMENTO EUROPEU

Poiares Maduro e Rui Tavares assinam carta-aberta contra nomeação de procuradores europeus

 

Os subscritores pedem que o Parlamento Europeu mova uma acção no Tribunal de Justiça da União Europeia por causa das interferências dos Governos de Portugal, Bulgária e Bélgica nas nomeações dos procuradores europeus.

 

São José Almeida

São José Almeida 4 de Outubro de 2020, 18:03

https://www.publico.pt/2020/10/04/politica/noticia/poiares-maduro-rui-tavares-assinam-cartaaberta-nomeacao-procuradores-europeus-1933969

 

Uma carta-aberta foi enviada ao Parlamento Europeu pedindo que este mova uma acção no Tribunal de Justiça da União Europeia de modo a que seja anulado o processo de nomeação de procuradores representantes dos estados-membros da União Europeia na Procuradoria Europeia de justiça, foi subscrita por Miguel Poiares Maduro, professor universitário e ex-ministro do PSD, e por Rui Tavares, também professor universitário, fundador do Livre e antigo eurodeputado.

 

A carta-aberta, divulgada pela Euronews, questiona o facto de em Portugal, na Bulgária e na Bélgica os nomes indicados não serem os seleccionados de acordo pelo protocolo estabelecido, mas ter havido interferência na nomeação pela parte dos governos destes três países. Ou seja, nestes três casos foi escolhido “um candidato diferente do recomendado pela comissão independente” sem que as razões para tal fossem divulgadas. Facto que, segundo os subscritores da carta-aberta, “ataca a credibilidade da independência da Procuradoria Europeia e do Estado de Direito na União Europeia”. Argumentam ainda que “A União não pode pretender ser defensora do Estado de Direito se o seu próprio Ministério Público nascer em violação desse Estado de Direito”.

 

 

No caso de Portugal, foi escolhido pela ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, o procurador José Guerra, em vez da magistrada Ana Carla Almeida, primeira classificada de acordo com as regras da comissão independente europeia que supervisionou o processo de escolha dos procuradores europeus.

 

Além de Poiares Maduro e de Rui Tavares, assinam a carta-aberta outros catorze académicos: Alberto Alemanno, Andrea Simmoncini, Dimitry Kochenov, Dominique Ritling, Federico Fabrinni, Harm Schepel, Laurent Pech, Loic Azoulai, Kalypso Nicolaides, Kim Lane Scheppele, Oreste Pollicini, Paul Craig, Sébastien Platon, Tomasz Tadeusz Koncewicz.

 

tp.ocilbup@adiemla.esoj.oas

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