sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Entre a eficiência e o risco de corrupção, a escolha é fácil // E um site transparente sobre os fundos europeus?

 



EDITORIAL

Entre a eficiência e o risco de corrupção, a escolha é fácil

 

A proposta de alteração do Código dos Concursos Públicos do Governo é, como reconhece o Tribunal de Contas, um passo em direcção ao pântano. Mesmo que seja economicamente justificada, é politicamente insustentável

 

MANUEL CARVALHO

2 de Outubro de 2020, 6:26

https://www.publico.pt/2020/10/02/economia/editorial/eficiencia-risco-corrupcao-escolha-facil-1933681

 

Obras que nunca mais arrancam, concursos impugnados, empreitadas que param a meio e nunca mais recomeçam. O cenário criado pelo actual Código dos Contratos Públicos explica boa parte da paralisia que afecta gravemente o investimento público e compromete o interesse dos cidadãos e do país. Mas, se esta realidade justificava a sua revisão, a proposta de alteração do Governo cria um pesadelo sobre o pesadelo existente. Com a Justiça burocrática e lenta que temos, com os meios de fiscalização existentes e, principalmente, com a cultura de corrupção que gravita na órbita dos dinheiros do Estado a proposta do Governo é, como reconhece o Tribunal de Contas, um passo em direcção ao pântano. Mesmo que seja economicamente justificada, a facilitação dos procedimentos dos concursos é politicamente insustentável.

 

O que abre uma discussão de enorme importância para o país. Com o Estado orientado para “pareceres” e não para a “resolução dos problemas”, como recordou António Costa Silva, a execução do investimento público é cada vez mais um pesadelo. E se esta realidade é preocupante para uma administração que executa anualmente 2,4 mil milhões de euros de investimento, sê-lo-á ainda mais quando as transferências europeias exigirem concursos que poderão chegar aos 6,4 mil milhões. Perante a dificuldade, o que faz o Governo? O mais fácil: esvazia concursos com o recurso à consulta prévia, dispensa justificações de custo/benefício ou liberta os adjudicantes de apresentarem projectos de execução nos cadernos de encargos. Se até agora o clientelismo, o compadrio e a corrupção prosperaram na rigidez dos contratos, podemos esperar o quê da sua flexibilização?

 

O dilema que temos em mãos (incapacidade de execução do investimento público versus ameaça do disparo da corrupção) diz muito sobre o estado a que o país chegou. À paralisia asfixiante e ao risco moral da corrupção institucionalizada. Se este nó só se desata com uma Justiça célere e eficaz, com o reforço do escrutínio e dos mecanismos da transparência, não dispensa também um feroz controlo ético do regime sobre os seus protagonistas políticos. Uma empreitada colossal, que exige tempo e energia. E que dispensa a facilitação do trabalho aos potenciais prevaricadores, que é o que, ainda que involuntariamente, está em jogo nesta alteração legislativa.

 

Numa altura em que a corrupção alastrou a todas as esferas da vida pública, da Justiça ao desporto, do Exército à administração, uma cedência desta natureza é um erro. Entre a suspeita de ruína ética da República que se vai instalando na percepção das pessoas e o atraso num pacote de obras públicas, a escolha não parece difícil de fazer. 

 

tp.ocilbup@ohlavrac.leunam

 


OPINIÃO

E um site transparente sobre os fundos europeus?

 

Nos últimos tempos tenho contactado gente para tentar saber esta coisa muito simples: é ou não possível construir um portal transparente onde cada português possa saber, em tempo real, para que destino estão a ir os fundos europeus?

 

JOÃO MIGUEL TAVARES

3 de Outubro de 2020, 0:05

https://www.publico.pt/2020/10/03/opiniao/opiniao/site-transparente-fundos-europeus-1933767

 

Nunca conversei com um político que não se queixasse da burocracia do Estado. Pode ser um presidente da câmara ou até um primeiro-ministro – todos lamentam em off a dificuldade que é fazer mexer a máquina pública, e como essa é a principal razão para o poder executivo não ser mais eficiente e produtivo. Não penso que sejam queixas falsas ou desculpas de mau pagador. O peso da burocracia é enorme, de facto, e por isso percebo – sem ironia – a preocupação do Governo em aliviar determinado tipo de procedimentos, de forma a tornar mais ágil a execução dos próximos fundos europeus.

 

Claro que o grande risco dessa agilização é aquele que ontem estava plasmado na manchete do PÚBLICO – que a simplificação excessiva dos contratos públicos escancare ainda mais a porta à corrupção. Manuel Carvalho já explicou qual dever ser a prioridade do país (“Entre a eficiência e o risco de corrupção, a escolha é fácil”), e pela primeira vez vejo à minha volta uma preocupação genuína, e reiterada, por assegurar uma boa aplicação dos fundos europeus. Nem sequer têm faltado manifestos sobre a necessidade de uma recuperação económica transparente e participada. Mas precisamos mais do que manifestos.

 

 

Como não quero desvalorizar o problema da ineficiência do Estado e do excesso de burocracia – não só porque ele existe, e é grave, mas também porque o excesso de burocracia é ele próprio um incentivo à corrupção e um prémio para quem domina o acesso a informação privilegiada –, parece-me que a única solução é conjugar a desburocratização dos procedimentos com o aumento da transparência. Numa frase: sim, vamos exigir menos papéis, mas vamos também mostrar a toda a gente os papéis que exigimos, e vamos dar a conhecer toda a informação relevante sobre os candidatos vencedores de fundos europeus, para que possa existir um verdadeiro escrutínio público.

 

Há três dias, foi publicado neste jornal um longo texto, com um longo título (“Do exotismo da corrupção em Portugal ao plano imoral do Governo para gastar a massa toda”), assinado por três especialistas de contratação pública e acesso a dados, que vale muito a pena ler, porque estas são as pessoas que lidam com aquele género de detalhes onde o diabo se esconde. Nunca como hoje precisámos tanto delas se queremos levar a sério a boa aplicação dos fundos. Escreveram: “Sempre que trabalhamos dados de contratação pública, a frustração instala-se, por ser uma actividade muito difícil de concretizar”, porque “a extracção de dados do Portal Base” exige “uma série de passos manuais” e “porque a informação que devolve é extremamente deficitária”. Apontam três problemas centrais: 1) “há uma percentagem muito significativa de contratos públicos que não são publicados”; 2) “os contratos não são abertos por padrão”; 3) “continua a não ser possível extrair e trabalhar os dados de forma automática, o que impede largamente a sua análise”.

 

Isto é aquilo que urge corrigir – e isto é aquilo que tem mesmo de ser exigido ao Governo. Nos últimos tempos tenho contactado gente para tentar saber esta coisa muito simples: é ou não possível construir um portal transparente – seja pelo Estado, seja pela sociedade civil – onde cada português possa saber, em tempo real, para que destino estão a ir os fundos europeus, que projectos estão a ser apoiados, em que estado de execução se encontram e quem é o último beneficiário? Construir esta plataforma parece-me o óbvio ululante. Pergunto: há alguém a tratar disso?

 

Jornalista

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