OPINIÃO
A América merece ser ela, não um vírus, a derrotar Trump
Trump não pode desaparecer sem sabermos mais sobre ele. E
das personagens sinistras que o criaram, como Roger J. Stone e Roy Cohn…
FERREIRA
FERNANDES
4 de Outubro de
2020, 7:25
https://www.publico.pt/2020/10/04/opiniao/opiniao/america-merece-nao-virus-derrotar-trump-1933888
No debate, Donald
Trump mascarou Joe Biden: “Ele usa sempre a maior máscara que jamais vi!” Trump
levou as mãos à cara, gozando com o zorro democrata. Quanto a ele próprio: “Sei
quando preciso de máscara e uso-a.” E a sua equipa? “Ainda esta noite fizemos
testes e guardamos a distância social.” Enfim, o costume, Trump claro e falso.
Nessa
terça-feira, ao embarcar no Air Force One para Cleveland, a cidade do debate,
Trump fez-se acompanhar pela mulher e filhos. Ao embarcar e desembarcar,
ninguém usava máscara. O diretor da campanha Bill Stepien, sabe-se, nunca a
usou dentro do avião. E, ao chegar, ele e Hope Hicks, a mais próxima
colaboradora do Presidente na Casa Branca, entraram para uma carrinha, sem
máscara — ambos pagariam caro.
Na quarta-feira,
Trump fez um comício no aeroporto de Duluth, no Minnesota, com pessoas
apinhadas, a maioria sem máscara. Trump, também sem máscara, pegou num molhe de
bonés e atirou-os, um a um, para mãos estendidas e abertas. Para apanhar o boné
— ou talvez mais. Na quinta-feira, a conselheira Hicks soube que apanhou mais.
Na madrugada de sexta, o Twitter de Trump anunciou que ele e a sua mulher,
Melania, também tiveram teste positivo à covid-19.
Do debate, disse
na SIC o comentador televisivo Miguel Monjardino: “Foi um shit show.” E tendo
ousado o palavrão anglófono, democratizou a informação: “Foi uma merda.” Gostei
da ousadia da palavra, porém, o debate não foi shit, isto é, coisa sem valor.
Pelo contrário, o debate gerou energia, tal como, a partir de excrementos, um
processo chamado “digestão anaeróbia” captura o metano e o dióxido de carbono
libertados por bactérias. É uma indústria moderna e útil, o aproveitamento dos
excrementos. Na política também pode ser bom, se os cidadãos toparem a
sinceridade sem vergonha e/ou a mentira descarada de quem debate.
O expelido por
Trump, no debate, expôs Trump. Que culpa tem ele de que alguns cidadãos, de
além-mar e por cá também, sejam pitosgas? Ensinar-nos sobre quem discute é,
aliás, a primeira função de um debate. Trump é um livro aberto. Em discursos,
comícios, tweets e entrevistas, Trump nunca engana. Já o vi num palanque a
gozar, com gestos incontrolados, um paraplégico; num discurso, sobre um colega
de partido, o falecido senador McCain, ouvi-o chamar cobarde a um herói de
guerra; e, numa entrevista, dei por ele a meter a perna direita pela esquerda,
para dizer o que levou um certificado médico a livrar da guerra do Vietname o
filho de milionário que ele era…
Nos debates, se
formos atentos à sua impudicícia, Trump diz-nos sempre muito. Viu-se na terça.
Ele interrompeu quase todas as intervenções do adversário. Insultou o New York
Times, que levou quatro anos a investigar o que qualquer candidato a Presidente
faz questão em mostrar — a folha de impostos. Ignorou esta (15 últimos anos sem
pagar ao fisco, exceto dois, cada um a 750 dólares) e ignorou as falências
sucessivas, impróprias de um homem de negócios tão sagaz. E lançou à cara do
adversário o vício de drogas por que passou um filho deste.
Enfim, uma lista
de mudslingers (como os americanos chamam às campanhas sujas) que não é
novidade em eleições nos EUA. A originalidade de Trump é a sua ação política quase
se limitar a essa prática e ele prolongá-la por todo o mandato. Acresce agora o
mais grave: o Presidente da América faz pairar dúvidas sobre a legitimidade das
eleições, ameaça não aceitar os resultados e manter-se na Casa Branca, mesmo se
derrotado. Do nunca visto, com um píncaro no debate: “Proud Boys, cheguem-se
para trás e aguardem”, disse Trump. Malta, já vos chamo quando forem
necessários...
Os Proud Boys são
uma milícia armada pela supremacia branca. Imaginá-la a intimidar no dia da
votação vai na esteira do que tem dito Trump. Mas algum senso veio do Partido
Republicano e o Presidente teve de ir à Fox dizer que é contra os supremacistas
brancos. E que pouco sabe dos Proud Boys. Entretanto, meteu-se o anúncio da
covid-19 e Trump não teve ocasião de perguntar a Roger J. Stone, um seu antigo
conselheiro, amigo desde a década de 80 e lobbyista de causas sulfurosas,
incluindo os Proud Boys.
A investigação
oficial sobre a interferência russa nas eleições de 2016 considerou Roger Stone
personagem-chave na tramóia de Putin. O FBI levou Stone a testemunhar no
Congresso e ele mentiu para proteger alguém. No ano passado, um tribunal
condenou-o a sete anos de prisão mas, este julho, Trump comutou-lhe a pena. E
Roger J. Stone Jr. está longe de ser o finório com maior influência no
narcisista que tomou a Casa Branca.
Ironia
extraordinária esta de um vírus transformar Trump no mais frágil dos candidatos
em vésperas de presidenciais na América. Espera-se que lhe passe a covid-19,
por duas razões. A primeira, porque a América merece ser ela, e não um vírus, a
derrotar a bactéria que na história moderna mais pôs em perigo o país. A segunda,
porque Donald Trump não pode desaparecer sem sabermos mais dele. Por exemplo,
sobre o seu pai espiritual e mentor, o advogado Roy Cohn.
Cohn foi um dos
homens fulcrais nos Estados Unidos na segunda metade do século passado. Aos 24
anos era a cabeça pensante do McCarthyism que à pala de combater o comunismo
(em plena Guerra Fria) perseguiu intelectuais, artistas e funcionários, numa
paranóia liberticida que também caçou homossexuais — apesar de Roy Cohn ser gay
(no armário). Nas décadas de 60 e 70, tornou-se o advogado mais temido de Nova
Iorque, difamando os adversários, tecendo uma rede entre a câmara, a
arquidiocese e a máfia, importando-lhe menos a lei do que corromper juízes do
Bronx e de Brooklyn. Um credo: sempre atacar, nunca pedir desculpa.
Em 1973, Donald
J. Trump procurou Cohn, dez anos mais velho, mas já uma lenda com um quarto de
século. Donald e o pai, milionários na construção civil, tinham um problema com
o governo que queria multá-los por não alugarem casas a negros. O advogado
pequenino, olhos azuis e um esgar de desprezo nos lábios tinha a solução: pôr o
Governo em tribunal. Batem-te? Bate dez vezes mais forte. Ganha a todo o custo
e nunca admitas ter errado. Apanhemos a máquina do tempo num regresso ao
futuro: “Eu?! Dizer que a covid-16 era só simples gripe? Nunca disse…”
Foi o começo de
uma feia amizade. Expulso da barra dos tribunais de Nova Iorque por falsificar
a assinatura de um cliente bilionário, Roy Marcus Cohn morreu de sida, em 1986,
dizendo que era cancro no fígado. Deixou a herança a um amante. Casas de luxo e
o Rolls Royce de chapa de matrícula com as suas iniciais “RMC” e a da limusina
Cadillac: “DJT”, as iniciais de Trump. O herdeiro ficou desiludido, o fisco
abocanhou quase tudo por causa dos impostos em dívida. Sobrou um par de botões
de punho incrustados de diamantes que Trump lhe oferecera. Nem isso ganhou o
herdeiro: os diamantes eram falsos.
O cínico mestre
Roy Cohn havia de gostar desse desfecho: o seu aprendiz iria longe. Talvez
até à Casa Branca.


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