TRANSPORTES
O renascer dos comboios nocturnos
França, Suécia e Áustria estão a apostar nos comboios
nocturnos como alternativa ecológica às viagens de avião de curta distância.
Espanha e Portugal suspenderam esses serviços e ponderam acabar com eles.
Carlos Cipriano
15 de Agosto de 2020, 17:30
https://www.publico.pt/2020/08/15/economia/noticia/renascer-comboios-nocturnos-1927783
Os comboios
nocturnos, que estavam em vias de desaparecimento na Europa, poderão voltar a
ligar as grandes cidades do velho continente como ainda o faziam há bem poucas
décadas. As preocupações ambientais dos governos e de grande parte da
população, o incómodo de suportar as filas de segurança e as salas de embarque
dos aeroportos (sobretudo em tempo de pandemia), a par das vantagens de poder
viajar directamente entre os centros das cidades e poupar uma noite de hotel,
estão a fazer renascer os comboios com carruagens-cama.
A locomotiva
deste processo tem sido a França, que já em Maio tinha condicionado as ajudas
estatais à aviação através da eliminação de voos internos para os quais o
comboio fosse alternativa.
Depois foi a vez
do próprio Emmanuel Macron, no discurso do 14 de Julho (o feriado nacional que
comemora a tomada da Bastilha), ter anunciado que a França iria retomar os
comboios nocturnos. Um compromisso ao mais alto nível que inverte a tendência
de abandono desse tipo de serviços.
Mas após a
declaração do presidente Macron, o seu ministro dos transportes, Jean-Baptiste
Djebbari, já anunciou que neste Verão seria retomado o nocturno Paris-Nice,
preparando-se a SNCF para reabrir mais serviços.
A transportadora
pública gaulesa, que nos últimos anos procurava justificar o abandono destes
comboios devido a falta de rentabilidade, realinhou o discurso e agora faz
questão de recordar que, segundo a Agência de Transição Ecológica, o comboio é
27 vezes menos poluente que o avião e 33 vezes menos poluente que um automóvel.
Razões que justificam uma segunda oportunidade para os comboios descendentes
dos velhos expressos com carruagens-cama que começaram a cruzar a Europa nos
anos 50 dos século XIX (ainda antes de Portugal ter inaugurado a sua primeira
via férrea).
Há, contudo,
questões económicas a resolver num produto que estava em extinção devido à
concorrência da aviação (sobretudo das low cost) e da degradação do serviço por
causa do desinvestimento francês na infra-estrutura secundária (há décadas que
a SNCF tem privilegiado as linhas de alta velocidade).
Em 2016, o
secretário de Estado dos Transportes de França, Alain Vidalies, dizia ao
Libération que cada bilhete vendido para um comboio nocturno implicava mais de
100 euros de subsídio estatal. Uma cifra que Bruno Gazeau, presidente da
federação francesa das associações e utentes dos transportes públicos,
desvalorizou: “o Estado subsidia também os voos internos entre pequenos
aeroportos muito deficitários”, disse à rádio Franceinfo.
No resto da
Europa, a Áustria foi o único país que sempre contrariou a decadência dos
comboios nocturnos, tendo mantido serviços diários com os seus vizinhos suíços,
alemães e italianos. Recentemente, os caminhos-de-ferro austríacos compraram 42
carruagens-cama à operadora ferroviária alemã DB (Deutsche Bahn) a fim de
reforçar esses serviços, de acordo com o Guardian que relata também que a
Suécia quadruplicou os comboios nocturnos no eixo
Estocolmo-Copenhaga-Hamburgo-Belim e irá ressuscitar a ligação
Estocolmo-Bruxelas.
De Bruxelas está
também previsto o lançamento de uma viagem nocturna para Viena com preços a
partir de 29,90 euros e, mais a Leste, foi inaugurado em 30 de Junho o nocturno
Praga-Rijeka. Este comboio, que atravessa a República Checa, a Eslováquia, a
Hungria e a Eslovénia para chegar à costa adriática da Croácia, revelou-se um
sucesso tal que passou a diário quando inicialmente só circulava alguns dias
por semana.
Lusitânia e Sud
suspensos
Na Península
Ibérica a Espanha desmantelou nos últimos anos a sua rede de comboios
nocturnos. As suas últimas ligações, entre a Galiza e Barcelona e Madrid,
terminaram já em 2020, mas restavam ainda os comboios-hotel Lusitânia Expresso
(Lisboa-Madrid), explorado em parceria com a CP, e o Sud Expresso
(Lisboa-Hendaya), operado exclusivamente pela CP mas com material alugado à
Renfe.
Ambos foram
suspensos a 17 de Março devido à pandemia, mas a reabertura das fronteiras não
os trouxe de volta aos carris. A Renfe, num gesto unilateral, comunicou que não
tencionava retomar o Lusitânia e a CP alega que, pela sua parte, só não repõe o
Sud Expresso porque a fronteira ferroviária de Vilar Formoso vai estar fechada
durante o mês de Agosto devido a obras na infra-estrutura.
As duas empresas
criaram um grupo de trabalho para discutir o futuro das ligações internacionais
e o presidente da CP, Nuno Freitas, em entrevista ao PÚBLICO, admitiu que a
solução para ultrapassar os prejuízos que estes comboios dão seria realizar um
serviço diurno.
O fim destas
ligações nocturnas não provocou grandes protestos. Em França, um movimento
denominado “Oui ao train de nuit!” ("Sim ao comboio nocturno!")
recolheu 185 mil assinaturas para que a SNCF relance mais ligações, mas os seus
subscritores fazem notar que esta decisão terá de ser política e em sintonia
com as orientações da União Europeia nesta matéria.
Karima Delli,
presidente da Comissão de Transportes do Parlamento Europeu, diz que os
comboios nocturnos têm futuro e que são uma das suas prioridades. A
eurodeputada francesa felicitou as declarações de Macron sobre esta matéria,
mas relembrou no Twitter que “não se financiam os comboios com bons discursos,
por isso queremos 7 mil milhões de euros, tal como para a aviação”. E avisou o
presidente: “se não avançar em França, faço-o eu ao nível europeu, pois os
comboios nocturnos são uma questão de escolha política”.
Ambiente em causa
A causa dos
comboios nocturnos encontra também um forte apoio na opinião pública europeia,
cada vez mais sensível às causas ambientais e ao contributo que o modo
ferroviário pode dar para a redução de emissões de gases com efeito de estufa.
O movimento “flygskam”, que se pode traduzir por “vergonha de voar”, tem ganho
muitos adeptos, sobretudo na Suécia, onde teve início, e pretende que as
pessoas façam escolhas ambientalmente inteligentes na hora de viajar.
A Agência
Ambiental Europeia calcula que um passageiro de comboio é responsável pela
emissão de 14 gramas de CO2 face às 285 gramas emitidas por um passageiro de um
avião (considerado um comboio com 150 passageiros e um avião com 88). Por isso,
os ambientalistas consideram que a escolha certa é o comboio, o que levou à
criação de uma nova expressão, “tagskryt” (orgulho em andar de comboio), que
pretende incentivar a procura por este modo de transporte.
De acordo com a
BBC, um dos primeiros suecos a impulsionar o movimento contra as viagens de
avião foi o campeão olímpico dos Jogos de Inverno de Vancouver em 2010, Bjorn
Ferry. A activista Greta Thunberg, que adoptou a mesma postura, acabou por
inspirar a sua mãe, a cantora de ópera Malena Ernmanh, que declarou
publicamente que não voltaria a voar de avião.

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