quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O renascer dos comboios nocturnos

 

TRANSPORTES

O renascer dos comboios nocturnos

 

França, Suécia e Áustria estão a apostar nos comboios nocturnos como alternativa ecológica às viagens de avião de curta distância. Espanha e Portugal suspenderam esses serviços e ponderam acabar com eles.

 

Carlos Cipriano 15 de Agosto de 2020, 17:30

https://www.publico.pt/2020/08/15/economia/noticia/renascer-comboios-nocturnos-1927783

 

Os comboios nocturnos, que estavam em vias de desaparecimento na Europa, poderão voltar a ligar as grandes cidades do velho continente como ainda o faziam há bem poucas décadas. As preocupações ambientais dos governos e de grande parte da população, o incómodo de suportar as filas de segurança e as salas de embarque dos aeroportos (sobretudo em tempo de pandemia), a par das vantagens de poder viajar directamente entre os centros das cidades e poupar uma noite de hotel, estão a fazer renascer os comboios com carruagens-cama.

 

A locomotiva deste processo tem sido a França, que já em Maio tinha condicionado as ajudas estatais à aviação através da eliminação de voos internos para os quais o comboio fosse alternativa.

 

Depois foi a vez do próprio Emmanuel Macron, no discurso do 14 de Julho (o feriado nacional que comemora a tomada da Bastilha), ter anunciado que a França iria retomar os comboios nocturnos. Um compromisso ao mais alto nível que inverte a tendência de abandono desse tipo de serviços.

 

 Nos anos 80, a SNCF (Société Nationale des Chemins de fer Français) tinha uma densa rede de comboios nocturnos que serviam mais de 500 estações. Actualmente, só restam duas rotas que ligam Paris a Briançon e aos Pirenéus catalães. Há ainda uma ligação Paris-Veneza explorada pelos italianos e as linhas Paris-Moscovo e Nice-Moscovo, a cargo do operador russo SZD.

 

Mas após a declaração do presidente Macron, o seu ministro dos transportes, Jean-Baptiste Djebbari, já anunciou que neste Verão seria retomado o nocturno Paris-Nice, preparando-se a SNCF para reabrir mais serviços.

 

A transportadora pública gaulesa, que nos últimos anos procurava justificar o abandono destes comboios devido a falta de rentabilidade, realinhou o discurso e agora faz questão de recordar que, segundo a Agência de Transição Ecológica, o comboio é 27 vezes menos poluente que o avião e 33 vezes menos poluente que um automóvel. Razões que justificam uma segunda oportunidade para os comboios descendentes dos velhos expressos com carruagens-cama que começaram a cruzar a Europa nos anos 50 dos século XIX (ainda antes de Portugal ter inaugurado a sua primeira via férrea).

 

Há, contudo, questões económicas a resolver num produto que estava em extinção devido à concorrência da aviação (sobretudo das low cost) e da degradação do serviço por causa do desinvestimento francês na infra-estrutura secundária (há décadas que a SNCF tem privilegiado as linhas de alta velocidade).

 

Em 2016, o secretário de Estado dos Transportes de França, Alain Vidalies, dizia ao Libération que cada bilhete vendido para um comboio nocturno implicava mais de 100 euros de subsídio estatal. Uma cifra que Bruno Gazeau, presidente da federação francesa das associações e utentes dos transportes públicos, desvalorizou: “o Estado subsidia também os voos internos entre pequenos aeroportos muito deficitários”, disse à rádio Franceinfo.

 

No resto da Europa, a Áustria foi o único país que sempre contrariou a decadência dos comboios nocturnos, tendo mantido serviços diários com os seus vizinhos suíços, alemães e italianos. Recentemente, os caminhos-de-ferro austríacos compraram 42 carruagens-cama à operadora ferroviária alemã DB (Deutsche Bahn) a fim de reforçar esses serviços, de acordo com o Guardian que relata também que a Suécia quadruplicou os comboios nocturnos no eixo Estocolmo-Copenhaga-Hamburgo-Belim e irá ressuscitar a ligação Estocolmo-Bruxelas.

 

De Bruxelas está também previsto o lançamento de uma viagem nocturna para Viena com preços a partir de 29,90 euros e, mais a Leste, foi inaugurado em 30 de Junho o nocturno Praga-Rijeka. Este comboio, que atravessa a República Checa, a Eslováquia, a Hungria e a Eslovénia para chegar à costa adriática da Croácia, revelou-se um sucesso tal que passou a diário quando inicialmente só circulava alguns dias por semana.

 

Lusitânia e Sud suspensos

Na Península Ibérica a Espanha desmantelou nos últimos anos a sua rede de comboios nocturnos. As suas últimas ligações, entre a Galiza e Barcelona e Madrid, terminaram já em 2020, mas restavam ainda os comboios-hotel Lusitânia Expresso (Lisboa-Madrid), explorado em parceria com a CP, e o Sud Expresso (Lisboa-Hendaya), operado exclusivamente pela CP mas com material alugado à Renfe.

 

Ambos foram suspensos a 17 de Março devido à pandemia, mas a reabertura das fronteiras não os trouxe de volta aos carris. A Renfe, num gesto unilateral, comunicou que não tencionava retomar o Lusitânia e a CP alega que, pela sua parte, só não repõe o Sud Expresso porque a fronteira ferroviária de Vilar Formoso vai estar fechada durante o mês de Agosto devido a obras na infra-estrutura.

 

As duas empresas criaram um grupo de trabalho para discutir o futuro das ligações internacionais e o presidente da CP, Nuno Freitas, em entrevista ao PÚBLICO, admitiu que a solução para ultrapassar os prejuízos que estes comboios dão seria realizar um serviço diurno.

 

O fim destas ligações nocturnas não provocou grandes protestos. Em França, um movimento denominado “Oui ao train de nuit!” ("Sim ao comboio nocturno!") recolheu 185 mil assinaturas para que a SNCF relance mais ligações, mas os seus subscritores fazem notar que esta decisão terá de ser política e em sintonia com as orientações da União Europeia nesta matéria.

 

Karima Delli, presidente da Comissão de Transportes do Parlamento Europeu, diz que os comboios nocturnos têm futuro e que são uma das suas prioridades. A eurodeputada francesa felicitou as declarações de Macron sobre esta matéria, mas relembrou no Twitter que “não se financiam os comboios com bons discursos, por isso queremos 7 mil milhões de euros, tal como para a aviação”. E avisou o presidente: “se não avançar em França, faço-o eu ao nível europeu, pois os comboios nocturnos são uma questão de escolha política”.

 

Ambiente em causa

A causa dos comboios nocturnos encontra também um forte apoio na opinião pública europeia, cada vez mais sensível às causas ambientais e ao contributo que o modo ferroviário pode dar para a redução de emissões de gases com efeito de estufa. O movimento “flygskam”, que se pode traduzir por “vergonha de voar”, tem ganho muitos adeptos, sobretudo na Suécia, onde teve início, e pretende que as pessoas façam escolhas ambientalmente inteligentes na hora de viajar.

 

A Agência Ambiental Europeia calcula que um passageiro de comboio é responsável pela emissão de 14 gramas de CO2 face às 285 gramas emitidas por um passageiro de um avião (considerado um comboio com 150 passageiros e um avião com 88). Por isso, os ambientalistas consideram que a escolha certa é o comboio, o que levou à criação de uma nova expressão, “tagskryt” (orgulho em andar de comboio), que pretende incentivar a procura por este modo de transporte.

 

De acordo com a BBC, um dos primeiros suecos a impulsionar o movimento contra as viagens de avião foi o campeão olímpico dos Jogos de Inverno de Vancouver em 2010, Bjorn Ferry. A activista Greta Thunberg, que adoptou a mesma postura, acabou por inspirar a sua mãe, a cantora de ópera Malena Ernmanh, que declarou publicamente que não voltaria a voar de avião.

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