A barragem que abastece a rega do sudoeste alentejano
está a meio
Junto a São Teotónio, Odemira, há um miradouro de onde se
veem quilómetros de estufas agrícolas para os lados de Vale de Figueira e
Carvalhal, e que, segundo vários avisos, podem ficar sem água em poucos anos.
A barragem que abastece a rega do sudoeste alentejano
está a meio
Notícias ao
Minuto
08:49 - 21/05/21
POR LUSA
Um dos alertas é
feito por um popular à Lusa, referindo-se à barragem de Santa Clara. E não é o
primeiro. A falta de água na barragem é insistentemente referida nas mais
diferentes conversas com os mais diferentes protagonistas na região do sudoeste
alentejano.
E se há quem diga
que água não falta há também quem não dês mais uma década para que ela acabe,
que não fale das alterações climáticas e dos estudos sobre a desertificação do
Alentejo e Algarve.
A barragem de
Santa Clara foi construída no rio Mira (nasce na Serra do Caldeirão e desagua
em Vila Nova de Milfontes) na década de 1960 para, com os canais feitos depois,
irrigar o chamado Perímetro de Rega do Mira, uma zona de agricultura intensiva,
incluindo em estufa, que é também uma parte do Parque Natural do Sudoeste
Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV).
De acordo com os
dados mais recentes do Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos
(Agência Portuguesa do Ambiente), no final de abril a barragem de Santa Clara
estava a 50%, quando o valor devia estar nos quase 80% (média desde 1990).
Em termos
precisos, na bacia do Mira, no final de abril, a albufeira de Corte Brique
estava a 63,1% e a de Santa Clara a 50,5%. "É um problema grave, porque a
barragem está a 50% e estamos no início do verão", diz Luísa Rebelo, que
trabalha na área do turismo, e acrescenta: "Se a água acabar as empresas
vão embora, mas nós ficamos" e não limpam o terreno.
Nuno Carvalho,
engenheiro do Ambiente, admite que o tipo de agricultura que se pratica tem um
consumo controlado, mas também acrescenta que a área a irrigar é enorme, diz
que a barragem está "abaixo do nível morto" e que o perímetro de rega
(a funcionar desde os anos 1970 e que funciona por gravidade) está
ultrapassado, que tem centenas de canais a céu aberto, com grande evaporação, e
que a água não consumida vai parar ao mar.
Mário Encarnação,
engenheiro Geógrafo, a viver ao lado do PNSACV, diz que a albufeira de Santa
Clara está com um decréscimo de 07% ao ano e que esteve desde agosto de 2019 a
fevereiro de 2021 a bombear água porque atingiu um limite em que a água já não
chega ao canal de rega.
O engenheiro
disse que foram feitos estudos que indicam que de 2012 a 2020, quando comparado
com a média padrão (1971-2000), choveu menos 11 meses.
Ainda que a
distribuição de água pelos canais já só funcione com bombas, Luís Mesquita
Dias, presidente da Associação dos Horticultores, Fruticultores e Floricultores
dos Concelhos de Odemira e Aljezur (AHSA), relativiza o problema, ainda que
reconheça que ele existe.
À Lusa diz que a
agricultura que se faz no sudoeste alentejano é sustentável, que a água é uma
preocupação no território, e que a AHSA, com a Associação de Beneficiários do
Mira, vai desenvolver estudos para regar mais com menos água, ou captar mais
água.
"A barragem
de Santa Clara tem uma capacidade de 480 milhões de metros cúbicos e nesta
altura ainda tem 240 milhões", diz, acrescentando que é preciso
"atuar nas explorações agrícolas, adaptar o sistema de rega para formas
mais precisas, reparar perdas e considerar a hipótese de ir buscar o terço da
água que vai parar ao mar".
É uma questão,
diz, que tem de se trabalhar, que se corrige construindo reservatórios de água
nas várias explorações. Mas fala a seguir de burocracias e diz que
"construir um reservatório é uma dor de cabeça".
Luís Mesquita
Dias refere-se implicitamente ao facto de o perímetro de rega do Mira coincidir
com o PNSACV e que este tem restrições à construção.
O
primeiro-ministro, António Costa, numa visita a Odemira na semana passada falou
da "excelência da atividade agrícola", mas há quem não pense assim.
Como Paula Canha, bióloga de Vila Nova de Milfontes.
Em declarações à
Lusa afirma que as regras no perímetro de rega nem sempre são cumpridas, e que
o plano de ordenamento do PNSACV diz que fora do perímetro de rega não pode
haver agricultura intensiva, mas que há zonas que "claramente são de
produção intensiva".
O plano também
diz que deve haver uma monitorização dos impactos da atividade agrícola na
água, no solo e na biodiversidade mas "ninguém está a fazer isso".
Professora em
Odemira, Paula Canha conta: "Há duas semanas fui com alunos meus fazer
análises de águas e havia sítios onde os fosfatos estavam 100 vezes acima do
que é permitido por lei".
A bióloga fala
também da falta de fiscalização, de "constrangimentos" vários, ainda
que Luís Mesquita Dias assegure que tudo é feito na agricultura dentro das
regras.
"A maior
parte da atividade agrícola é destinada a exportação para grandes cadeias
internacionais. Todas fazem visitas e auditorias e obrigam a certificações.
Auditam sem avisar, e isso inclui os direitos humanos", diz o responsável.
Mas Paula nega.
"As vistorias são com aviso prévio, eles sabem exatamente em que data
acontecem e destacam um grupo de técnicos que semanas antes começam a preparar
as visitas. E para uma empresa que tem 10 ou 12 campos as vistorias são a um ou
dois".
Ainda que tudo
esteja conforme na agricultura a verdade é que, como a Lusa constatou, há na
região muitas estufas, seja ao lado da escola do Brejão, seja quase junto às
dunas na Azenha do Mar, seja no acesso à praia dos Machados, que não pode ter
um estacionamento para os banhistas mas que tem estufas (e lixo) e cercas
praticamente até às dunas.
A 04 de maio
último a ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, disse em Odemira que o
setor agrícola no concelho representa 15% das exportações a nível nacional e
que gerou em 2020 mais de 200 milhões de euros.
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