OPINIÃO COFFEE
BREAK
A multinacional dos vendedores de bugigangas
Lembra-se dos africanos que vendem bugigangas à porta do
Mosteiro dos Jerónimos, da Torre Eiffel, do Coliseu de Roma, da Times
Square...? O mais provável é que tenham o mesmo patrão.
Bárbara Reis
22 de Maio de 2021,
7:01
Recebi “cartas”
de leitores com informação valiosa sobre o mistério das lojas de bugigangas
para turistas no centro histórico de Lisboa — o que agradeço desde já.
Uma delas é
tangente ao tema mas ilumina e, por isso, partilho-a. Sugeriu o leitor que eu
visse um episódio antigo do Enquête exclusive, um programa de jornalismo de
investigação da tv francesa M6, que mostra a ligação entre Touba, no Senegal, e
os vendedores de bugigangas que fazem negócios na rua sem licença — à socapa —
que vemos em muitas cidades ocidentais.
Eles estão na
Times Square, nos Campos Elísios, no Trocadéro, na Torre Eiffel, no Palácio de
Versalhes, no Coliseu de Roma, no Castelo de Praga — como estão em Lisboa, no
Mosteiro dos Jerónimos, na Torre de Belém, no Rossio e na Rua Augusta. “Bons
vendedores, sorridentes, deixam até o turista regatear”, descreveu o Le Monde
num texto de 2009 no qual recomenda a reportagem. O M6 é um canal comercial
puro, o primeiro a levar para França uma cópia do Big Brother — o Loft Story —
mas investe muito no Enquête exclusive, um programa “culto”, escreve o Monde.
As mercadorias
destes homens africanos são sempre iguais: colares, falsificações de malas,
relógios e óculos de sol, porta-chaves e souvenirs turísticos baratos feitos na
China. Bem organizados, controlam as “suas” ruas e marcam “zonas interditas” a
vendedores ambulantes de outros países, sobretudo indianos e chineses, têm um
sistema “perfeitamente desenvolvido” para evitar as multas (em Paris, quando
são apanhados pela polícia, escondem os sacos com as bugigangas para turistas
nas entradas das condutas para os esgotos da cidade abrindo as tampas nos
passeios) e estão apoiados por uma rede que lhes permite não serem deportados,
pois têm vistos e a documentação oficial. Pertencem, diz o Enquête exclusive, à
“multinacional dos vendedores à socapa”. Onde é a sede desta improvável
“multinacional”? Em Touba.
Touba, a quatro
horas de Dacar, é uma cidade santa para os mourides, um ramo sufi do islão, que
tem um estatuto especial de semi-autonomia, onde não se paga impostos nem água
e só em parte se responde ao governo central — chamam-lhe “o Vaticano do Senegal”.
É uma comparação esdrúxula, mas as duas cidades têm características comuns. Uma
é terem um sistema universal de recolha de donativos.
Governada por um
califa, o líder espiritual e político, Touba foi fundada em 1887 e segue há
décadas regras radicais como a proibição de fumar e beber álcool e outros
“comportamentos frívolos” — e não são mil habitantes como a Cidade do Vaticano,
mas meio milhão. Ao mesmo tempo, os mourides são tidos como exemplo da
interpretação moderada do islão. Touba é tão ou mais importante do que Meca e a
maior peregrinação é a Grande Magal, que celebra o regresso do exílio de Amadou
Bamba, expulso pela França colonial em 1895 — dizem que na viagem por mar para
o exílio, rezou sobre o mar, impedido que foi de rezar dentro do barco.
Segundo o New
York Times, só em Nova Iorque há nove mil senegaleses, todos mourides, a vender
bugigangas. O trabalho do Enquête exclusive mostra como religião e negócios
estão habilmente ligados e que os mourides foram incentivados a abandonar a
produção de amendoins em “casa” e a viajar pelo mundo, fazerem dinheiro e
enviarem para Touba a maior parte dos ganhos.
Onde foi e é
usado este equivalente ao óbolo de São Pedro? Na construção e constante
ampliação e melhoramento da Grande Mesquita de Touba.
Terminada em
1963, depois de 40 anos de obras, a enorme mesquita de Touba é feita de mármore
europeu, tem três grandes cúpulas e cinco minaretes, o maior dos quais com 87
metros de altura e visível a quilómetros de distância.
Numa cena da
reportagem do Enquête exclusive, filmada no Harlem, vê-se uma mesa com maços de
dólares dispostos lado a lado, à vista de todos, na sala cheia que ouve o guia
espiritual, o “marabu”. Dinheiro e religião são inseparáveis. Os
missionários-ambulantes vendem e quem compra ajuda a que o Senegal tenha o
orgulho de estar no ranking mundial das grandes mesquitas. A parte boa desta
história é que percebemos o que se passa: de onde vem e para onde vai o
dinheiro. Já nas lojas de souvenirs para turistas do centro de Lisboa, o fluxo
do dinheiro é incompreensível. Obrigada. Os leitores do PÚBLICO são uma
inspiração.

Sem comentários:
Enviar um comentário