sábado, 22 de maio de 2021

A multinacional dos vendedores de bugigangas

 


OPINIÃO COFFEE BREAK

A multinacional dos vendedores de bugigangas

 

Lembra-se dos africanos que vendem bugigangas à porta do Mosteiro dos Jerónimos, da Torre Eiffel, do Coliseu de Roma, da Times Square...? O mais provável é que tenham o mesmo patrão.

 

Bárbara Reis

22 de Maio de 2021, 7:01

 https://www.publico.pt/2021/05/22/local/opiniao/multinacional-vendedores-bugigangas-1963594


Recebi “cartas” de leitores com informação valiosa sobre o mistério das lojas de bugigangas para turistas no centro histórico de Lisboa — o que agradeço desde já.

 

Uma delas é tangente ao tema mas ilumina e, por isso, partilho-a. Sugeriu o leitor que eu visse um episódio antigo do Enquête exclusive, um programa de jornalismo de investigação da tv francesa M6, que mostra a ligação entre Touba, no Senegal, e os vendedores de bugigangas que fazem negócios na rua sem licença — à socapa — que vemos em muitas cidades ocidentais.

 

Eles estão na Times Square, nos Campos Elísios, no Trocadéro, na Torre Eiffel, no Palácio de Versalhes, no Coliseu de Roma, no Castelo de Praga — como estão em Lisboa, no Mosteiro dos Jerónimos, na Torre de Belém, no Rossio e na Rua Augusta. “Bons vendedores, sorridentes, deixam até o turista regatear”, descreveu o Le Monde num texto de 2009 no qual recomenda a reportagem. O M6 é um canal comercial puro, o primeiro a levar para França uma cópia do Big Brother — o Loft Story — mas investe muito no Enquête exclusive, um programa “culto”, escreve o Monde.

 

As mercadorias destes homens africanos são sempre iguais: colares, falsificações de malas, relógios e óculos de sol, porta-chaves e souvenirs turísticos baratos feitos na China. Bem organizados, controlam as “suas” ruas e marcam “zonas interditas” a vendedores ambulantes de outros países, sobretudo indianos e chineses, têm um sistema “perfeitamente desenvolvido” para evitar as multas (em Paris, quando são apanhados pela polícia, escondem os sacos com as bugigangas para turistas nas entradas das condutas para os esgotos da cidade abrindo as tampas nos passeios) e estão apoiados por uma rede que lhes permite não serem deportados, pois têm vistos e a documentação oficial. Pertencem, diz o Enquête exclusive, à “multinacional dos vendedores à socapa”. Onde é a sede desta improvável “multinacional”? Em Touba.

 

Touba, a quatro horas de Dacar, é uma cidade santa para os mourides, um ramo sufi do islão, que tem um estatuto especial de semi-autonomia, onde não se paga impostos nem água e só em parte se responde ao governo central — chamam-lhe “o Vaticano do Senegal”. É uma comparação esdrúxula, mas as duas cidades têm características comuns. Uma é terem um sistema universal de recolha de donativos.

 

Governada por um califa, o líder espiritual e político, Touba foi fundada em 1887 e segue há décadas regras radicais como a proibição de fumar e beber álcool e outros “comportamentos frívolos” — e não são mil habitantes como a Cidade do Vaticano, mas meio milhão. Ao mesmo tempo, os mourides são tidos como exemplo da interpretação moderada do islão. Touba é tão ou mais importante do que Meca e a maior peregrinação é a Grande Magal, que celebra o regresso do exílio de Amadou Bamba, expulso pela França colonial em 1895 — dizem que na viagem por mar para o exílio, rezou sobre o mar, impedido que foi de rezar dentro do barco.

 

Segundo o New York Times, só em Nova Iorque há nove mil senegaleses, todos mourides, a vender bugigangas. O trabalho do Enquête exclusive mostra como religião e negócios estão habilmente ligados e que os mourides foram incentivados a abandonar a produção de amendoins em “casa” e a viajar pelo mundo, fazerem dinheiro e enviarem para Touba a maior parte dos ganhos.

 

Onde foi e é usado este equivalente ao óbolo de São Pedro? Na construção e constante ampliação e melhoramento da Grande Mesquita de Touba.

 

Terminada em 1963, depois de 40 anos de obras, a enorme mesquita de Touba é feita de mármore europeu, tem três grandes cúpulas e cinco minaretes, o maior dos quais com 87 metros de altura e visível a quilómetros de distância.

 

Numa cena da reportagem do Enquête exclusive, filmada no Harlem, vê-se uma mesa com maços de dólares dispostos lado a lado, à vista de todos, na sala cheia que ouve o guia espiritual, o “marabu”. Dinheiro e religião são inseparáveis. Os missionários-ambulantes vendem e quem compra ajuda a que o Senegal tenha o orgulho de estar no ranking mundial das grandes mesquitas. A parte boa desta história é que percebemos o que se passa: de onde vem e para onde vai o dinheiro. Já nas lojas de souvenirs para turistas do centro de Lisboa, o fluxo do dinheiro é incompreensível. Obrigada. Os leitores do PÚBLICO são uma inspiração.

Sem comentários: