OPINIÃO
Anti
Não há racismos bons. Nem antiracismos. Não há comunismos
toleráveis. Nem anticomunismos. Não há fascismos aceitáveis. Nem antifascismos.
Para qualquer destes venenos, para qualquer destes espectros, a democracia e a
liberdade são as melhores armas.
António Barreto
22 de Maio de
2021, 0:10
https://www.publico.pt/2021/05/22/opiniao/opiniao/anti-1963580
Definir-se como
anti-qualquer coisa é sempre uma redução do espírito e uma armadilha de
pensamento. E não é o que falta no nosso universo, do famoso e bíblico
Anti-cristo, até às suas múltiplas versões contemporâneas. Anticapitalista,
antifascista, anticomunista, anti-semita, anti-sionista, anti-americano,
anti-europeu, anti-racista, anticlerical, antidemocrático, anticolonialista,
anti-imperialista, anti-maçónico, antiliberal… Eis apenas alguns exemplos de
designações da moda que têm o condão de despertar amigos com efeitos imediatos
e instintivos.
Hoje, têm
especial fortuna alguns epítetos que são verdadeiros códigos de acesso. Quando
se diz anti-racista ou antifascista, os sentimentos fervem. Os dos seus
defensores e useiros, assim como de terceiros que têm receio de ser visados ou
apanhados nas respectivas teias persecutórias. A exemplo, aliás, do que
acontecia ainda há bem pouco tempo com o famigerado anti-comunista, hoje quase
em desuso.
Os movimentos
anti-qualquer coisa designam os seus inimigos, bastam-se a si próprios e
identificam os que se devem abater. Dispensam em geral o pensamento e a
reflexão, destinam-se a provocar reflexos condicionados, tropismos tribais e
movimentos gregários espontâneos. Detectam os inimigos conforme as
conveniências. Não têm doutrina. Ou antes, se têm doutrina, escondem-na.
Tempos houve em
que quem se atrevia a defender ideia contrária aos regimes autoritários era
simplesmente tratado de comunista. Foi muito frequente em Portugal. Quem não
era a favor de Salazar… era comunista! A acusação de anticomunismo era a defesa
de todos os que assim se sentiam acusados. Havia mesmo uma variante sofisticada
que era a do anticomunismo primário.
Outras
designações surgiram, mas de família diferente: anti-capitalista ou
anticolonialista tinham já coroas de glória e de afirmação. Acima de tudo,
antifascista era a maior virtude. Cultivada sobretudo por comunistas e seus
amigos, servia a designação para juntar oposições e congregar esforços sem ter
de fazer o esforço de apurar doutrinas. Dizia-se o que não se queria, o
fascismo, por exemplo, sem ser obrigado a afirmar o que se queria, o comunismo,
em geral. Durante umas décadas, anticolonialista teve o mesmo destino: o de uma
indiscutível virtude.
Vem isto a propósito de alguns espectros que ameaçam as
nossas democracias e o clima de tolerância que tão dificilmente se vem
estabelecendo. São os espectros dos principais afrontamentos políticos,
culturais e semânticos da vida moderna
Curiosamente, o
sentido destas designações simplórias é, mesmo quando de orientação diferente,
de igual ou semelhante rigor. Quem se afirma anti-capitalista, anti-racista e
anti-imperialista, trata os adversários de capitalistas, racistas e
imperialistas com toda a desfaçatez. São os mesmos que acusam sempre os seus
adversários de anti-democráticos, anti-socialistas e anti-comunistas. Como se
pode ver, a riqueza destes debates e destas querelas é nula. O conteúdo
doutrinário é inexistente e a complexidade cultural uma ficção. São gazuas,
palavras-chave, que permitem a todos os intolerantes reconhecerem-se e
identificarem os das mesmas plumagens.
Vem isto a
propósito de alguns espectros que ameaçam as nossas democracias e o clima de
tolerância que tão dificilmente se vem estabelecendo. São os espectros dos
principais afrontamentos políticos, culturais e semânticos da vida moderna. O
fascismo e seu anti-fascismo. O comunismo e seu anti-comunismo. E o racismo e
seu anti-racismo.
O fascismo é
odioso. O teórico, o prático e o histórico. É tolerante com a supremacia nacional.
Aprecia a autoridade acima de outros valores. Alimenta o nacionalismo de modo
acrítico e exacerbado. Cultiva o herói nacional, ao mesmo tempo que diminui o
indivíduo. Apesar da ambição popular, não aprecia a liberdade, muito menos a
democracia liberal. Mas o anti-fascismo é detestável. É um pretexto para
definir aliados, obrigar a comportamentos, regimentar opiniões, criar fantasmas
e fantasias que amedrontem. Juntar os antifascistas significa simplesmente
submetê-los, disfarçadamente, a uma política escondida, geralmente autoritária
e colectivista.
O comunismo é
odioso. Por isso foi quase extinto nos finais do século XX. Autoritário sem
complexos nem disfarces, advoga a supremacia de uma classe, exercida pelo
comando de um só partido político, através do todo-poderoso Estado. Pugna pela
abolição de todas as liberdades e condiciona os direitos individuais.
Estabelece a submissão do direito ao partido. Acontece que o anticomunismo é
detestável. É geralmente um pretexto para as autoridades de várias espécies.
Vive do preconceito e da denúncia fácil e não comprovada. É a invenção de um
fantasma para criar medo e impor restrições às liberdades. É um reflexo
condicionado.
O racismo é
odioso. É o reino do preconceito, estabelecendo bases para a superioridade de
um grupo humano. Vive facilmente com a supremacia racial ou a escravidão.
Revela puro menosprezo pela vida humana de outros povos e de outras etnias.
Admite facilmente que as pessoas possam ser mercadoria e propriedade de outrem.
Alimenta o desprezo por quem é de outra cor ou etnia. Mas o antiracismo é
detestável. É um pretexto para explorar fantasmas. Uma tentativa para
condicionar os comportamentos de outros. Quem não partilhar certas ideias
políticas é rapidamente apodado de racista. A sociedade é definida globalmente
como racista. O país é considerado racista no seu todo como sistémico e
estrutural. Até nas universidades o anti-racismo se transformou em disciplina e
em área de estudos e investigação.
Verdade é que
comunismo não se vence com o anticomunismo, da mesma espécie. Como é certo que
o fascismo não se derrota com o antifascismo, uma sua variante. E o racismo não
se resolve com o antiracismo, forma perversa de racismo
Assim é que o
anticomunismo se alimenta dos mesmos defeitos do seu inimigo, a autoridade e a
ditadura. O antifascismo é um fascismo robusto. E o antiracismo é hoje uma das
mais ferozes variantes de racismo. Pontos comuns aos três “ismos” e aos três
“anti”: a autoridade agressiva, a provocação violenta, o preconceito e a submissão
do Estado de direito. Assim como o condicionamento da liberdade individual e da
democracia.
Não há racismos
bons. Nem antiracismos. Não há comunismos toleráveis. Nem anticomunismos. Não
há fascismos aceitáveis. Nem antifascismos.
Verdade é que
comunismo não se vence com o anticomunismo, da mesma espécie. Como é certo que
o fascismo não se derrota com o antifascismo, uma sua variante. E o racismo não
se resolve com o antiracismo, forma perversa de racismo. Para qualquer destes
venenos, para qualquer destes espectros, a democracia e a liberdade são as
melhores armas.
Sociólogo

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