INVESTIGAÇÃO
11 maio 2024 às 11h58
Grupos
de ódio mobilizaram campanha do Chega e "preparam o terreno" para que
partido tome ações mais radicais
A
Reconquista e o 1143 já saíram da bolha online e estão nas ruas. Fizeram
campanha ao Chega e celebraram o resultado. Agora, trabalham para a
radicalização das leis, especialmente a “remigração” - uma maneira soft de
chamar a deportação em massa. O discurso já é difundido pela juventude do
partido.
Amanda Lima
Grupos
de ódio mobilizaram campanha do Chega e "preparam o terreno" para que
partido tome ações mais radicais
Deportações em massa de imigrantes. Mulheres
sem direito ao voto e proibidas do acesso à internet. Proibição do aborto em
todos as situações - incluindo violações. Dificultar o divórcio. Proibir
casamento de portugueses com brasileiras. São algumas das ideias amplamente
difundidas por dois grupos de ódio que promoveram uma ampla campanha a favor do
Chega nas últimas legislativas, com um objetivo maior: preparar o terreno para
a implementação destas ideias no futuro, com ações já em andamento.
Estamos a falar da Reconquista, um grupo
ultranacionalista formado por homens portugueses jovens, sob o comando de
Afonso Gonçalves, e do 1143, do neonazi Mário Machado. Além de uma grande
discriminação no campo dos direitos das mulheres, ambos difundem ideias
semelhantes relacionadas com a imigração e propagam a teoria da “Grande
Substituição”, que é falsa e motivadora de massacres pelo mundo, admiram os
ditadores Salazar e Adolf Hitler. O DN investigou os grupos durante meses e
observou uma forte campanha eleitoral pelo Chega.
“As ideias políticas têm ciclos de maturação e
evolução; movimentos como a Reconquista estão a preparar o terreno cultural
para que partidos como o CHEGA possam assumir posições mais resolutas na
questão demográfica. A maioria das pessoas do partido Chega concorda connosco
na questão da imigração, mas por uma ou outra razão determinou-se que não era
essa a estratégia comunicacional mais inteligente”, escreveu Afonso Gonçalves
na rede social Telegram, onde listou os motivos para votar no partido.
O mesmo anunciou publicamente esse apoio e
possui relação com vários membros da juventude do partido. É o caso do
supremacista branco João Antunes, Ricardo Reis, integrante da Direção Nacional
do Chega Juventude e Francisco Araújo - que foi orador num congresso da
Reconquista.
Já no grupo 1143, o apoio ao Chega reúne a
maioria dos membros, apesar de não ser consensual. O líder Mário Machado
declarou o voto no partido. Há membros que votaram no ADN e Ergue-te, por
considerar o Chega um partido “pouco radical”. O DN ouviu mais de duas dezenas
de horas de debate no X (antigo Twitter) e acompanhou meses de conversa no
chat do Telegram em que as eleições
foram tema recorrente. A maior parte dos militantes concorda com as ideias do
partido na área de imigração e entendem que é um “início”para alterações na lei
mais radicais.
Nas legislativas, um ponto de tensão entre o
Chega e o 1143 foi o brasileiro Marcus Santos, da lista pelo Círculo do Porto.
Alguns dos militantes recenseados no Porto defenderam que não se devia votar,
enquanto outros alegaram a importância de eleger o maior número de deputados
possível. Há também quem tenha votado de forma contrariada. Uma das mulheres
nacionalistas disse que “odeia brasileiros visceralmente” e que “não os
suporta”, mas que votaria no Chega mesmo que elegesse Santos.
Na Reconquista, apesar do irrestrito e
declarado apoio, a presença do candidato brasileiro também foi fortemente
criticada. “Um preto africano, que fala brasileirês”, definiu Alexandre Gazur,
um engenheiro informático considerado o “número 2” do grupo. As declarações
ocorreram num space - uma ferramenta amplamente utilizada por estes grupos.
Trata-se de um debate em áudio na plataforma X (antigo Twitter), onde os
utilizadores podem participar como oradores. Os spaces são recorrentes e contam
com a participação dos militantes de ambos os grupos, de outras franjas
nacionalistas e de membros oficiais do Chega.
Segundo o cientista político Vicente Valentim
é comum que os partidos tenham pessoas ou grupos para divulgar o discurso mais
extremista. “Há vozes que não estão formalmente filiadas com o partido ou de
atores que são um bocadinho mais abaixo da hierarquia, que acabam por dizer
muitas coisas mais extremistas que, às vezes, a cúpula do partido vem dizer
alguma coisa mais ambígua”, explica o especialista, autor do recém-lançado
livro O Fim da Vergonha.
De acordo com o académico, a estratégia é
bastante eficaz. “Quando o partido diz o mesmo com certa ambiguidade, permite
chegar a um eleitorado que é menos extremista, mas, ao mesmo tempo, sinalizar
claramente às pessoas que são mais extremistas que, se querem votar num
partido, este é o partido”, argumenta. “Eles acabam por ter bastante talento a
andar, por exemplo, entre não ser tão extremistas que alienam as pessoas um
bocadinho menos extremistas, mas ao mesmo tempo dizer claramente aos
extremistas que, se querem votar num partido, este é o partido mais próximo
[das suas ideias]”, analisa.
Na Alemanha, um movimento semelhante aconteceu
com o grupo PEGIDA - que defende a expulsão de imigrantes do país - e o partido
Alternativa para a Alemanha (AfD). Em 2018, sob uma ordem do partido em não
expor publicamente relações com o PEGIDA, um dos colíderes da AfD apelou a que
membros do partido pudessem participar nas ações do grupo. Em 2022, alguns
membros da AfD foram presos numa investigação sobre o planeamento de um golpe
de Estado no país. Mas nem mesmo as relações obscuras e o envolvimento de membros
com o crime afastam o eleitorado: sondagens indicam que a AfD possui pelo menos
15% das intenções de voto para as eleições europeias.
O politólogo Riccardo Marchi, analisa que, por
mais que tanto Afonso Gonçalves, quanto Mário Machado discordem do Chega em
relação à identidade nacional, viram em Ventura “uma janela de oportunidade
nunca vista em Portugal para fazer avançar um certo tipo de ideia” e “apelaram
abertamente ao voto ao Chega”. Ao mesmo tempo, o especialista afasta a ideia de
que tais grupos são perigosos. “Não representam minimamente um perigo para
ninguém e mesmo as tentativas iniciais de entrarem dentro do Chega, por exemplo,
foram travadas imediatamente pela própria direção do partido ainda em 2019”,
conta. O Chega não respondeu às questões do DN sobre este artigo.
Crimes
de ódio e mira das autoridades
Assim como o PEGIDA e AfD, o grupo 1143 e a
Reconquista estão listados como grupos de ódio na classificação do Global
Project Against Hate and Extremism (GPAHE), que monitoriza conjuntos de
extremistas pelo mundo. Heidi Beirich, investigadora e cofundadora do projeto,
não hesita sobre o risco. “O maior perigo destes grupos reside na forma de
crimes de ódio e terrorismo, geralmente dirigidos contra imigrantes e outras
pessoas que eles visam e humilham. Podem também influenciar a política e
puxá-la para a extrema-direita, o que também pode ameaçar os Direitos Humanos
em geral”, diz ao DN.
Ambos também estão na mira de autoridades
portuguesas e referenciados no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI)
2023, ao qual o DN teve acesso. “[No ano passado], no campo dos extremismos
políticos assistiu-se a um agravamento da ameaça representada por estes
setores, sobretudo no âmbito da extrema-direita. Com efeito, após um período de
estagnação, as organizações tradicionais e os militantes dos setores neonazi e
identitário retomaram a sua atividade, promovendo ações de rua e outras
iniciativas com propósitos propagandísticos”, é caso do 1143, um novo grupo com
raízes na militância neonazista de Mário Machado, agora com diferentes apoios e
atuação nas redes sociais.
As autoridades de segurança portuguesas também
traçam o perfil do Reconquista, criado oficialmente no último trimestre de
2023, mas com início da atuação meses antes. “Paralelamente, também foram
criados projetos e organizações por jovens que estendem o alcance da mensagem
extremista a uma nova geração com um perfil distinto (...) e projetos com
convergência ideológica com a extrema-direita mesmo que, por vezes, perpassem a
sua versão clássica com ideias patriarcais e misóginas.”, pontuam.
A militância de Afonso Gonçalves começou nas
redes sociais ainda em 2022. O primeiro tema que lançou ao estrear o canal no
Telegram foi um vídeo intitulado “o feminismo é uma doença”. Outra das
primeiras publicações é uma foto em que simula dar uma bofetada na deputada
Inês Sousa Real, do PAN.
A misoginia é marca registada do grupo, e com
o tempo, outras pautas foram exploradas, como a falsa “ideologia de género” e,
posteriormente, com maior foco, a imigração. No podcast Zugacast, Afonso confessou um dos motivos que
o levou a militar politicamente, já que não tinha tradição política, nem
influência familiar na matéria: “O bichinho surgiu, primeiro, em outubro de
2019, quando vi André Ventura irromper ao Parlamento. Me despertou ali qualquer
coisa”, disse na entrevista, realizada no dia 4 de outubro de 2023 e
visualizada por quase 10 mil pessoas.
Nesta mesma entrevista, durante quatro horas,
abordou vários temas e disse na cara de um dos apresentadores (brasileiro), que
“preferia” um português comunista do que um não-português conservador. Por mais
que o brasileiro tentasse ganhar a simpatia do entrevistado e puxar a conversa
para o âmbito direita x esquerda - que Afonso disse considerar importante, ele
foi irredutível na afirmação de que é necessário deportar “massivamente” todos
os “extraeuropeus” e proibir direitos das mulheres. Muitas destas ideias não
eram novas para os seguidores do jovem. Num dos posts, Afonso disse que “a
imigração Brasileira e as suas consequências são a PRINCIPAL ameaça à
sobrevivência de Portugal”, além de frequentemente associar as mulheres
brasileiras à prostituição - mas também o faz com as demais mulheres que
frequentam o ginásio, usam as redes sociais e têm qualquer opinião.
É precisamente na internet que está o foco da
militância destes grupos, que aliam o ativismo de rua com a propagação das
ideias na internet. Tanto no 1143 quanto na Reconquista, a comunicação online
tem padrões. Há uma mistura nas ações. Por exemplo: as atividades na rua, como
protestos e instalação de faixas com frases xenófobas em locais públicos e
autocolantes, são filmadas e fotografadas. Depois, são criadas comunicações
para todas as redes sociais, desde os grupos no Telegram até o TikTok, onde atingem
uma camada mais jovem da população.
O próprio RASI 2023 destaca o uso da internet
como forma de ativismo e radicalização. “Este crescimento da extrema-direita,
nomeadamente entre as gerações mais jovens, deveu-se, em grande parte, ao
esforço desenvolvido na esfera virtual, tornando-a o seu principal veículo de
disseminação de propaganda e motor de radicalização e contribuindo, assim, para
a proliferação das narrativas extremistas, que atingem um público mais alargado
e diversificado.”
Milhões
de pessoas atingidas
Mas qual a dimensão do poder da internet em
alcançar a percentagem da população que não está online? A resposta está em
“universalizar questões quotidianas”.
Quem responde é a especialista Fernanda
Sarkis, com experiência neste tipo de monitorização em Portugal e no Brasil.
“Ao mesmo tempo que a rede social é um veículo de comunicação de massa, na
perspetiva da distribuição em massa, a dinâmica da construção de sentido, ela
se dá num processo comunitário. Você precisa também de um comportamento
coletivo que acompanha esse processo”, explica.
Ter imigrantes como alvos - elo entre o Chega,
o 1143 e o Reconquista -, foi o tema que mais conseguiu transcender a bolha da
rede social e ir para as ruas. “Eles conseguiram entender que todo mundo tem
alguma história com o imigrante ou ouviu falar de uma história com o imigrante.
Aí uma história que acontece numa aldeia, todo mundo no café vai ficar sabendo.
Quando chega uma hora que você vai na aldeia, o cara tá falando sobre isso.
Então um vídeo que chega no Whats- App, ele vai fazer muito sentido pra pessoa,
é o viés de confirmação [confirmation bias]”, detalha a especialista.
O maior exemplo deste trabalho é a série de 18
vídeos intitulada A Grande Invasão, criada pela Reconquista. Segundo anunciou
Gonçalves, os objetivos foram “tornar a substituição populacional em tema de
debate nacional” e “levar esta realidade a todos os lares Portugueses antes das
eleições”. Na divulgação nas redes sociais, todos os posts eram acompanhados
pela hashtag #Chega e amplamente
partilhados por militantes do partido de André Ventura.
Cada um dos vídeos foi filmado num distrito do
país. As “histórias” contadas vão ao encontro da narrativa do Chega: de que os
imigrantes são criminosos, que não trabalham e vivem de subsídios.
No programa eleitoral do partido, constava,
entre outras medidas, criar o crime de residência ilegal e proibir o acesso à
apoios sociais nos primeiros cinco anos - medidas inconstitucionais. O líder da
Reconquista usou como tática descontextualizar as informações, fazer edição
para ocultar respostas, não informar o objetivo real das entrevistas e induzir
respostas aos imigrantes - a maior parte deles não-falantes de português ou
mesmo de um inglês com total compreensão. Houve quem escondesse o rosto e pedisse
para não ser filmado - incluindo requerentes de proteção internacional que
foram expostos. Afonso entrou em hotéis e Pousadas da Juventude onde ficam
instalados temporariamente os requerentes de asilo - algo previsto em lei e de
acordo com as regras da União Europeia (UE). No entanto, a apresentação era
sempre de “pessoas a viver à custa do Estado”. Muitas vezes, Afonso fez
publicações em que gozava com os cidadãos.
Num space nas vésperas das eleições, Afonso
contou que a produção custou 4,5 mil euros, paga com doações. Na maior parte
das publicações, é feito o pedido de dinheiro para arcar com os custos do
grupo. Estão disponíveis números de Mbway, PayPal e bitcoin - para aqueles que
não querem ter registo da doação. Os recursos resultaram nos vídeos já
publicados, baseados na falsa ideia da “Grande Substituição”, a mesma usada por
partidos ultranacionalistas da Europa e por Donald Trump, candidato à
presidência dos Estados Unidos. A mesma teoria supremacista já foi referida por
André Ventura em mais de uma ocasião e é uma das bases do grupo europeu
Identidade e Democracia (ID), do qual o Chega faz parte.
A “Grande Substituição” já saiu da esfera
virtual e motivou massacres pelo mundo. É o caso do atirador que matou 10
pessoas - a maior parte negras - num supermercado de Buffalo, nos Estados
Unidos. No Texas, outro jovem de extrema-direita fez um verdadeiro banho de
sangue ao matar 20 pessoas e ferir outras 26. Há exemplos também na Nova
Zelândia e agressões a imigrantes noutros países europeus em investigação como
crime de ódio. É também o caso de Portugal, onde as autoridades investigam se
houve motivação racista na agressão a 10 estrangeiros no Porto a 3 de maio.
“Ninguém
está a substituir ninguém”
Com o número de imigrantes em Portugal, que
chega a 1 milhão de pessoas, a ideia parece ser sedutora para alguns. No
entanto, a investigadora Catarina Reis desmente a narrativa. “Nós estamos a
falar de apenas 7,5% dos estrangeiros residentes que têm uma sobre represen-
tação naqueles territórios férteis e ativos que realmente interessam ao país.
E, portanto, quando nós estamos a falar dos envelhecidos, estamos a falar dos
restantes 92% da população que reside em Portugal. Daí que este discurso não
faça de todo sentido, porque ninguém está a substituir ninguém”, ressalta.
Catarina Reis, também autora do relatório anual Imigração em Números, vai mais
longe no desmontar das fake news
associadas à imigração.
“Na última década o número de estrangeiros
mais que duplicou. Ora, se houvesse uma relação direta, o que nós iríamos ver
nos dados era um aumento da criminalidade dos estrangeiros e um aumento dos
reclusos estrangeiros no sistema prisional português”, contextualiza.
O investigador João Henriques, vice-presidente
do Observatório do Mundo Islâmico em Portugal, assinala que outra mentira é de
que a população islâmica no país não quer integra-se. “Essas pessoas não querem
impor a sua cultura aqui para conviver. Isso não é verdade em Portugal”,
rebate. Henriques vê com preocupação esse discurso e defende que a única forma
de combatê-lo é com educação. “É educando logo na escola, educando a população
portuguesa desde os bancos da escola, para que essa situação seja desmistificada.
Tem de haver também um esforço de integração das autoridades e de alguma
comunicação social em desmontar essa imagem”, complementa.
Mesmo que as ideias que servem de base a tais
narrativas amplamente divulgadas sejam falsas, os objetivos da Reconquista
foram alcançados com a série e celebrados pelos membros. Conforme apurou o DN,
a mensagem de uma suposta “substituição populacional” foi transversal,
atingindo até mesmo moradores de bairros sociais e imigrantes de segunda ou
terceira geração. O trailer de
apresentação da série alcançou mais de 1 milhão de visualizações e circulou
amplamente em grupos de WhatsApp, por exemplo.
Thaís França, investigadora do Centro de
Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do Instituto Universitário de
Lisboa (ISCTE), aponta que a narrativa é sedutora pelo momento que Portugal
vive. “Acham que Portugal vai deixar de ser o Portugal. Porque agora tem outras
culturas vindas, são culturas muito diferentes do que eram antes. Depois,
também há a discussão de que essas pessoas sobrecarregam o Sistema Público,
como na Saúde e Educação”, explica a investigadora, coordenadora do projeto
Mapping Out: Portugal on the European Anti-Immigrant Movements Map (Mapeando:
Portugal no Mapa Europeu dos Movimentos Anti-Imigrantes).
A
internet como grande aliada
Na investigação realizada pelo DN nos últimos
meses, também se verificou uma atmosfera comum nas publicações. No caso da
Reconquista, com o passar dos meses e aumento no número de militantes, passaram
a profissionalizar-se mais, inclusive com a contratação de um web designer. Os
primeiros vídeos, gravados sem microfone e sem edição, deram lugar a produções
elaboradas, com linguagem padrão e estratégias de marketing bem delineadas. No grupo 1143, as estratégias
também passam por edição, com uso de músicas épicas nos vídeos e grafismos.
Assim como as da Reconquista, entre as hashtags
utilizadas está a #PartidoChega e
#AndreVentura. Nos comentários, é comum encontrar pessoas a declararem voto no
partido.
Outra estratégia é a articulação nacional e
internacional entre grupos com ideias semelhantes. Páginas como a Invictus
Portucale, que soma quase 100 mil seguidores nas redes sociais, com frequência
partilham publicações da Reconquista e também publicações do 1143. Páginas
internacionais, como a Rádio Genoa, uma plataforma digital de notícias falsas e
descontextualizadas sobre imigração, também é parceira de ambos os grupos de
ódio.
Heidi Beirich, investigadora já referenciada
nesta reportagem, afirma que “sem a internet seria muito improvável o
recrutamento, radicalização e difusão do discurso extremista”.
O alcance da narrativa de ódio não foi ainda
mais longe por força dos mecanismos de moderação das plataformas. O canal
inicial do YouTube foi derrubado durante as exibições dos primeiros vídeos da
série. Os perfis no X também chegaram a ser banidos, mas retornaram. No TikTok,
o grupo 1143 e seus membros já tiveram contas banidas. É o caso de Miguel
Morato, responsável pelo marketing do
grupo. A cada conta que vai abaixo, é criada uma nova e assim sucessivamente.
Heidi Beirich, defende a suspensão. “Concordo
que se um grupo ou indivíduo espalha ódio ou extremismo, deve ser removido
destas plataformas. Não creio que um número suficiente deles tenha sido
removido neste momento e as empresas de media
social devem fazer um trabalho melhor”, afirma.
“Elite
do futuro em Portugal”
Afonso Gonçalves já disse que o objetivo da
Reconquista é “radicalizar a política em Portugal” e “formar a elite do futuro”
do país. A média de idade dos membros é de 23 anos e estar alinhado com a
misoginia é uma dos requisitos. O que leva jovens a entrarem neste caminho da
radicalização? Cátia Moreira de Carvalho, investigadora de extremismo e
radicalização, afirma que os jovens em formação de personalidade são “mais
predispostos” a aderirem a movimentos extremistas.
“Está relacionado com perceção de ameaça e de
ataque à identidade. É um regresso a um estado saudosista em que tudo estava
compartimentalizado, sem grandes mudanças e, por isso, sem causar incerteza ou
desconforto. A equidade de género ameaça a perceção de dominância de alguns
homens e isso faz com que não se sintam confortáveis com estes novos papéis
pouco definidos, de acordo com os seus padrões mentais”, diz ao DN.
Cátia vê a situação como perigosa,
especialmente para as mulheres. “Trazem para a agenda política e para o debate
público temas que há muito deviam estar arrumados numa gaveta e que deviam ser
consensuais na sociedade. Estes movimentos questionam os direitos das mulheres
conquistados com muito custo e podem minar o futuro das mulheres que são agora
jovens e um dia se tornarão adultas”, explica.
Discurso
de ódio x liberdade de expressão
Na maior parte das vezes, a defesa está na
liberdade de expressão, garantido pela Constituição. A discussão ganhou mais
forma nos últimos dias, quando Mário Machado foi condenado a quase três anos de
prisão efetiva por incitamento ao ódio contra mulheres no X, em processo movido
pela vítima, Renata Cambra. Muitos dos extremistas referidos nesta reportagem
defenderam o neonazi e evocaram a liberdade de expressão. Mas, onde acaba esse
direito e começa o crime de ódio?
A constitucionalista Teresa Violante diz que
está legalmente prevista a punição de organizações. “A Constituição Portuguesa
proíbe apenas as organizações de ideologia racista e não a expressão individual
de opiniões racistas. Podemos reprimir socialmente o discurso de ódio ou
racista, mas questão distinta é a sua repressão penal”, explica ao DN.
No entanto, a punição penal é possível. “A
criminalização advém, essencialmente, quando o exercício da liberdade de
expressão ofende bens jurídicos, colocando em perigo outras pessoas ou
ofendendo a sua honra ou bom nome ou o seu direito à igualdade”, ressalta.
Outra coisa é certa, segundo Violante. “Sendo certo que a liberdade de
expressão não pode ser utilizada para propagar o ódio a grupos, um dos limites
à liberdade de expressão é precisamente quando os seus titulares incorrem na
prática de crimes”, argumenta.
Tanto o 1143 como a Reconquista se inspiram em
Adolf Hitler. Afonso Gonçalves fez um ensaio fotográfico com um bigode a imitar
Hitler e a legenda “Weimar conditions require
Weimar solutions”. A frase é referência ao período anterior à ascensão
do Partido Nazi na Alemanha.
No caso do 1143, a ligação com o neonazismo é
aberta. Na passada semana, no chat do Telegram, um dos integrantes sugeriu que
o uso de símbolos nazis poderá afastar apoio à causa. A maior parte dos
integrantes afastou a ideia. “Eu, no dia que me digam que não posso fazer ou
defender o que acredito, no mesmo dia digo adeus ao grupo. Esses modos de
operar é comum nos grupos de esquerda. Castrar a liberdade individual num
grupo”, disse um deles, que não utiliza nome, posição partilhada por outros
militantes que, com frequência, postam fotos e frases saudosistas a Hitler.
A constitucionalista Teresa Violante alerta
que a ideologia nazi não é proibida em Portugal. “Organizações que perfilhem
ideologia fascista são proibidas nos termos da Constituição, mas a ideologia
nazi, individualmente, não é proibida e pode ser difundida ao abrigo da
liberdade de expressão, se não constituir crime de discriminação ou de
incitamento ao ódio ou à violência”, explica.
Remigração,
a nova estratégia
Campanha eleitoral para as legislativas feita,
vitória alcançada e celebrada, os grupos, especialmente a Reconquista, agora
querem pressionar o Chega [que elegeu 50 deputados] para ter ideias ainda mais
radicais na área da imigração. A nova estratégia é falar em remigração - um
termo mais soft para deportação em massa
No dia 12 de abril, Gonçalves partilhou um
discurso de Ventura a falar no Parlamento da “grande invasão” de imigração e
pontuou. “[Estamos a], um nadinha da REMIGRAÇÃO”. Membros da juventude do Chega
já propagam a ideia nas redes sociais. Miguel Lourenço, do Chega de Guarda,
escreveu na semana passada, num post de
André Ventura no X. “Remigração... mais cedo ou mais tarde falar-se-á nisso e o
CH vai propor, aposto um dedo”. Outra ação em andamento é uma petição pública
que conta mais de 16,5 mil assinaturas que propõe um referendo para as
políticas migratórias para que o tema seja discutido na Assembleia da República
(AR). No fim do texto online, está lá, a hashtag utilizada pelos grupos neonazi
e nacionalista nas eleições: #CHEGA.
amanda.lima@globalmediagroup.pt


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